Parte da história da reconstrução de Lisboa pós-terramoto está impressa nas fundações dos edifícios Pombalinos que redesenharam em justaposição uma nova cidade. Os seus alicerces são robustos e estruturam a base dos edifícios que se erguem até atingirem a altura que se abre ao rio.
O novo atelier da dupla de arquitectos italianos Leonardo Paiella e Monica Ravazzolo é um testemunho da solidez destas fundações, traduzidas na clareza espacial e construtiva de uma arquitectura de herança clássica, com qualidades incontornáveis.
Algures no coração da cidade histórica, contido entre espessas paredes de pedra, encontramos um espaço surpresa, agora também parte integrante de uma rede de lugares criativos da cidade. A história dos ateliers de arquitectura é um pouco assim, entranham-se lentamente no interior da cidade, tornando-se parte dela e favorecendo a sua gradual redescoberta.
As características excepcionais deste novo espaço facilita-nos a compreensão das suas possibilidades de transformação e apropriação. O espaço rectangular de cerca de 100 m2 e 6 metros de altura, é pontuado por dois pilares centrais que lançam arcos entre si e na direcção das paredes, imprimindo ao espaço ordem, equilíbrio e leveza, elevando-o à imagem de um espaço salão.
Uma porta e dois vãos, ligam o espaço ao exterior enquadrando-o no tempo e na geografia da cidade de Lisboa. Pouco ou quase nada mais haverá a fazer.
É este quase nada que interessa aqui focar, o essencial para elevar um espaço, originalmente destinado a armazém, à categoria de espaço habitável, pronto para receber a escala do corpo e dar vida a um espaço de criação, onde se desenrolam todas as acções do acto de projectar. O Paratelier encontra neste espaço o lugar ideal para dar expressão a uma ideia de atelier de arquitectura como plataforma criativa que procura tresvasar o seu próprio campo disciplinar. De facto, a partir daqui, organizar um espaço de trabalho torna-se numa tarefa aparentemente mais fácil e familiar, como se bastasse pensar as relações entre o lugar onde se cria, se vive e se trabalha, e ocupar.
O projecto parte do desenho e construção de um sistema simplificado de peças de madeira articuladas entre si numa estrutura modular, que desenha todo o perímetro do espaço, funcionando como um importante dispositivo de ligação entre as paredes brancas e o pavimento de pedra. Este novo dispositivo espacial, vai suportando e acumulando a espessura dos movimentos do trabalho, imprimindo diariamente a história indecifrável das acções do quotidiano do atelier. Livros, dossiers, maquetas, materiais, objectos, desenhos, ensaios, vão habitando esta espessura e as mesas estabilizam os vários locais de trabalho.
Entre a abstracção minimalista marcada pelo rigor de um sistema de montagem previamente calibrado e o sentido pragmático da organização de um espaço de trabalho, a intervenção traz-nos sobretudo a dimensão do habitar, acrescentando escala, conforto, funcionalidade e polivalência ao quotidiano do atelier, como um gesto de humanização do espaço, acabando por revelar uma das mais elementares funções da arquitectura.
Cliente
P. Teixeira e J. Teixeira
Consultores
chapa metálica (i.s.)
VIROC (mistura prensada de partículas de madeira e cimento)
Autoria do texto