A arquitetura de Niemeyer na Madeira

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A arquitetura de Niemeyer na Madeira | O Casino Park Hotel

“A boa arquitetura, aquela de que gosto, é a que procura a diferença, a que não se repete, a que se assume como obra de arte. E as obras de arte têm o dever de surpreender”.
Oscar Niemeyer

Falar do conjunto arquitetónico do Casino Park é para mim falar da mais importante e bela composição arquitetónica da historia recente da Ilha da Madeira. E refiro “conjunto” porque é na verdade uma composição de três edifícios que foram pensados conjuntamente, e desenhados com a marca de um dos maiores génios da arquitetura do seculo XX.
Projetado por Oscar Niemeyer em 1966, por encomenda de Antonio Xavier Barreto, as obras iniciam-se seis anos mais tarde e terminam em 1976. Foi assim projetado nos últimos anos da ditadura Salazarista, a caminho da extraordinária revolução de Abril e dos primeiros momentos da nossa jovem democracia. E foi projetado por quem sempre se opôs a modelos autoritários, na vida e na arquitetura.
Naquela que era, à data, a maior obra de hotelaria em Portugal, o conjunto do Casino Park é a única obra de Niemeyer no nosso país, e também por isso uma das mais importantes. Apesar de ainda ter desenhado outros projetos como a sede da fundação luso-brasileira em lisboa e o museu de arte contemporânea de Ponta Delgada, este ultimo já em 2011, a verdade é que estes projetos nunca saíram do papel. Sendo assim, cabe aos portugueses residentes na Ilha da Madeira, através da visão da família Barreto, a sorte e o mérito de poder contar com esta obra de referência no nosso vasto e inigualável património cultural, que se funde de forma perfeita na extraordinária e bela baía do Funchal.

Tempos houve onde se chegou a discutir a autoria do projeto. Esta nunca esteve em questão. A autoria é de Oscar Niemeyer e não há qualquer duvida sobre isso, bastando para tal olhar e ver a arquitetura que se desenvolve neste conjunto de edifícios. Mas é também justo destacar a fantástica equipa que se envolveu no projeto. Com a humildade que o caracterizou, Oscar Niemeyer sempre enalteceu o papel do arq. Alfredo Viana de Lima, que soube manter o projeto fiel às ideias iniciais de Niemeyer. Mas também o arq. Daciano da Costa que cuidou de todos os interiores. E para poder materializar uma obra onde os pilares suportam cerca de 4.000 toneladas, e com espaços abertos de 3.000m2 sem colunas, teria de estar envolvido um grande engenheiro como foi o eng. Madeira Costa. No final, o Casino Park tinha obras de arte de alguns dos nossos mais reputados artistas, como Maria Velez, Jose Rodrigues, Fernando Conduto entre outros.

“o meu trabalho não é sobre “a forma segue a função”, mas sobre “a forma segue a beleza”, ou melhor ainda, a forma segue o feminino”.
Oscar Niemeyer

Falar de Niemeyer é falar de um dos mais importantes arquitetos do seculo XX. A par de Frank Lloyd Wright, pautou o que de mais importante se fez na arquitetura do seculo passado. E fê-lo notabilizando-se pela liberdade como desenhava, sendo muitas vezes descrito como o arquiteto das curvas, que revolucionou o uso do cimento, dando-lhe formas orgânicas surpreendentes. Foi não apenas o pai da arquitetura brasileira, mas também uma das maiores referencias de sempre da arquitetura. Embora sendo um apaixonado por Corbusier, o seu espirito rebelde leva-o a questionar o modernismo dogmático e incute a sua própria filosofia. Pancho Guedes descreve-o como um arquiteto corbusiano “melhor que o original”. De facto, Niemeyer vai mais longe do que o grande mestre do movimento moderno, liberta-se das formas rígidas e desafia a cultura arquitetónica da expressão tímida e sóbria.

O conjunto do Casino Park é tudo isto. Um projeto que Oscar Niemeyer referiu varias vezes apreciar, por entre os quase 600 de que é autor. Para alem de tudo o que caracteriza a arquitetura e os valores do arquiteto, também lá está a interpretação do território, do nosso território do Funchal e da Madeira, e da integração perfeita que se relaciona com o lugar e com a paisagem de mar e da baía do Funchal. Repare-se como o grande maciço circular se levanta entre poderosos pilares para se poder ver o horizonte com o mar ao fundo.
Os três edifícios dispõem-se harmoniosamente, tirando partido da orografia e das vistas magnificas. Apesar da forma natural como se implantam, há uma monumentalidade estética do conjunto, uma marca de génio de quem consegue “integração” mas também surpresa.
Essa ideia de unidade em que o arquiteto tira partido dos desníveis da topografia existente, faz com que tudo pareça natural, não apenas no conjunto dos edifícios, mas também no percurso exterior e interior. Quando se entra no átrio do hotel e nos deslocamos para a grande sala de refeições, vamos lentamente descobrindo a vista para a baía e o espaço exterior de piscina que desfruta da paisagem. É assim com surpresa e deslumbre que vamos percorrendo os espaços do Casino Park, onde a linha da arquitetura é continua e orgânica, onde o espaço interior se confunde com o exterior e onde a construção se confunde com território.

Com mais de 40 anos volvidos da sua inauguração, o Casino Park, agora chamado Pestana Casino Park, destaca-se ainda mais dos projetos hoteleiros entretanto construídos no Funchal e na Madeira. É natural que assim seja. Tem a marca de um dos maiores génios da arquitetura moderna. Afinal, não me marcou apenas a mim enquanto madeirense e arquiteto, mas também a toda a região e a todo o país, que aqui pôde ver um exemplo maior da liberdade criativa de Oscar Niemeyer.

 

Artigo de Opinião de Bruno Martins
Arquiteto de profissão, investigador, foi ainda Vereador na Câmara Municipal do Funchal, com os pelouros do urbanismo, planeamento, reabilitação e mobilidade

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