“A Beleza das Pequenas Coisas“ entrevista Álvaro Siza Vieira

Categorias: Arquitetura

Entrevista a Álvaro Siza Vieira no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas“, com Bernardo Mendonça.

Siza Vieira: “Acha-se que um arquiteto só serve para o capricho de quem tem dinheiro. Acredito na habitação social com qualidade para todos.”

É uma das maiores figuras da arquitetura mundial e um dos mais premiados de sempre. Há 30 anos, Álvaro Siza Vieira foi o primeiro arquiteto português a receber um Pritzker – considerado o Nobel da arquitetura. Pode mesmo dizer-se que Siza reescreveu a história da arquitetura projetando-a para o futuro. A um mês de completar 89 anos, Siza Vieira faz um balanço do percurso, critica o “estado de agonia” da profissão e lamenta não ter mais trabalho e não estar a deixar mais obra relevante no país. “Quando me é atribuído um prémio fico satisfeito mas, ao mesmo tempo, digo ‘vou ter mais problemas para ter trabalho.’

Natural de Matosinhos, é hoje um dos maiores nomes da arquitetura mundial e, prestes a completar 89 anos, continua a trabalhar em Portugal e nos quatros cantos do mundo. Aprendeu a desenhar com o tio ainda em criança e desde aí nunca mais parou de o fazer. Na verdade, o desenho é a sua arma secreta. Uma arma que é a base do seu pensamento, investigação e criação, enquanto busca soluções e possibilidades para os desafios que enfrenta.

Siza Vieira primeiro sonhou ser escultor, mas o seu pai achou que essa era uma vida demasiado errante e Siza acabou por seguir Belas Artes até optar definitivamente por Arquitetura. “Entre as várias formas de arte há uma relação muito estreita. A arquitetura tem muito a ver com a escultura, a pintura, a música, o cinema, ou a poesia”, responde, sem hesitar, sobre a sua arte.

Mestre de todos os tempos, ou sempre à frente do tempo, Siza Vieira surpreende a cada obra que assina, deixando-nos torpedeados pelas suas escolhas e soluções nada óbvias, tornando o nunca imaginado no único caminho possível. Siza Vieira sempre teve uma relação profundamente honesta com o trabalho e nunca amoleceu nem se deixou levar pelo ego ou pela fama para seguir uma certa fórmula ou uma marca mais industrializada. O que é sempre admirável é que a cada projeto Siza Vieira dá um novo salto, ou melhor, lança-se num voo novo para outro lugar sonhado por si, sempre único e inimitável, sempre alvo de estudo para várias gerações de arquitetos.

É impossível conseguir encaixar nesta introdução a vasta e relevante obra arquitetónica de Siza Vieira em Portugal e no resto do Mundo, mas vou arriscar um resumo: por cá, destaco a remodelação do Chiado, em Lisboa, depois do incêndio em 1988, o bairro da Malagueira, em Évora, a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, o Museu de Serralves, o Pavilhão de Portugal, a igreja de Marco de Canaveses.

Mas Siza tem assinado obras igualmente relevantes um pouco por todo o planeta, da Europa à América Latina, da Ásia aos EUA. Um dos seus edifícios mais recentes é um arranha-céus de 37 andares em Manhattan, Nova Iorque, que é de uma beleza e elegância ímpar por ser muito estreito, com 15 metros de profundidade e 137 metros de altura. Um sonho americano desenhado e projetado por um português.

Nesta entrevista em podcast, gravada no seu atelier, no Porto, Álvaro Siza Vieira chega a constatar que está a ser subaproveitado e subvalorizado no país, critica o sistema e a mentalidade do “quem dá menos“ e o “para quem é bacalhau basta“, defendendo habitação social com qualidade para todos. Lamenta ainda as perversões das obras e concursos públicos. No entanto, considera que está bem acompanhado por outros arquitetos portugueses prestigiados além fronteiras. “Quando acontece ter um prémio importante, fico satisfeito. Mas presente está sempre a ideia de que ‘desta vez fui eu’, podiam ter sido mil outros.”

Quem conhece bem Siza Vieira conta que ele é um asceta – insaciável em relação ao saber e profundamente dedicado ao trabalho. Obcecado por todos os detalhes e pela beleza das pequenas coisas. Tão genial quanto modesto. Um homem de esquerda e muito direito na maneira de pensar e reagir. Discreto e omnipresente. Com muita vontade de continuar a sonhar e a criar.

Apesar da vontade de fazer, Siza revela nesta conversa que a pressão do contra relógio se começa a sentir. “Está-me sempre a faltar tempo. Quando me entregam um projeto penso sempre ‘terei tempo para isto’? É inevitável. E não prevejo ter a vitalidade de Oscar Niemeyer ou de Manoel de Oliveira.“

Há muito mais para ouvir e descobrir sobre o arquiteto Álvaro Siza Vieira, que chega a revelar algumas das músicas que o acompanham e libertam da parte chata da vida e da profissão.

Como sabem, o genérico é uma criação original da Joana Espadinha, com mistura de João Firmino (vocalista dos Cassete Pirata). Os retratos são da autoria de Rui Oliveira. E a edição áudio deste podcast é desta vez do João Luís Amorim.

Ouça podcast “A Beleza das Pequenas Coisas” > AQUI

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