A obra do Arq. Chorão Ramalho na Madeira | parte 02

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A obra do arq. Chorão Ramalho na Madeira | parte 02 | A Igreja do Imaculado Coração de Maria | Prof. Emanuel Gaspar de Freitas

A igreja do Imaculado Coração de Maria, no Funchal, pode considerar-se como a primeira igreja de gramática assumidamente modernista que se construiu na Madeira. Datando de 1957 (projecto inicial), apresenta um programa organizacional inovador propondo alterações na tradicional arquitectura litúrgica.
Imóvel de planta longitudinal com uma só nave implantado num amplo espaço verde em declive. Os seus jardins apresentam vários muros em aparelho de pedra basáltica, memória dos poios madeirenses, e caminhos calcetados no tradicional calhau rolado do mar.

O adro, que do lado sul é percorrido por um banco em betão aparente que ao mesmo tempo funciona de guarda, é também em empedrado de seixo rolado, integrando de quando em vez lajes de betão, para um mais cómodo piso. Os degraus de acesso a este adro são blocos únicos de cantaria cinzenta regional.
No limite do adro a poente surge a casa paroquial de dois pisos e cobertura de laje de betão aparente, em balanço para proteger a varanda e apresentando duas gárgulas modernas. O segundo piso apresenta um amplo vão a todo o comprimento da fachada, protegido por uma sucessão de tapa-sóis amovíveis, que reforçam o desenho horizontal da fachada e que dá acesso à varanda virada ao mar e à paisagem.
Do lado esquerdo da dita casa fica situada a garagem que apresenta uma cobertura vegetal, continuação do ajardinamento do adro e conseguindo assim um correcta integração paisagística.
Do lado norte, o adro é contornado por um alpendre que se encosta aos muros de suporte da Quinta do Poço da Câmara, com pilares e lajes da cobertura em betão aparente. Referência a um claustro no prolongamento da cobertura do nártex da igreja até à porta da Casa Paroquial.

O baptistério, de forma cilíndrica, situa-se no exterior em frente do portal principal sob um interessante exonártex, também em betão aparente, que se adossa à fachada da igreja. Este é todo envidraçado elevando-se, a pequena altura, na cobertura do nártex como uma pequena torre zimbório. O interior do Baptistério é percorrido por um banco circular em cantaria cinzenta regional, o chão é em mármore preto e branco e a pia baptismal, de desenho purista, é de forma cilíndrica em mármore branco. Esta colocação de um baptistério totalmente envidraçado precedendo o portal axial é duplamente inovadora e permite à comunidade cristã testemunhar o primeiro sacramento do crente ao mesmo tempo que vinca a sua significância litúrgica.

A fachada principal, terminada em empena com uma cruz em ferro de desenho depurado, é revestida a cantaria regional vermelha de duas tonalidades formando listas. O mesmo revestimento tem a parede exterior da cabeceira. A fachada solta-se das paredes laterais através de dois rasgos preenchidos por vitrais de desenho abstractos e assimétricos. As paredes laterais são constituídas por grandes panos brancos ritmadas por pilastras em betão à vista e na galeria apresenta lâminas em ressalto, ao gosto da época, ligadas por vitrais coados para iluminar o interior. A cobertura é feita por lajes de betão aparente desniveladas, em diversos planos movimentados, ligados por vidros, para iluminar a ampla nave. A torre sineira, de forma paralelipipédica, implantada isoladamente, à semelhança do Campanile que se desenvolveu em Itália nos séc. XV e XVI, e tão interpretados pelos arquitectos modernos, exibe uma espessa grelha moderna. O pano posterior destaca-se do corpo do campanário dando lugar aos sinos verticalmente dispostos. Este pano é revestido a cantaria vermelha regional no mesmo jogo de tonalidades da fachada principal e da cabeceira. Aproveitando o declive do terreno surge, no embasamento, o Centro Social e Paroquial do Imaculado Coração de Maria, marcado por uma parede solta revestida a cantaria vermelha local. Este centro possuí uma pequena capela que apresenta cabeceira revestida a cantaria de cor e exibe um altar, de desenho depurado, em betão aparente. Do lado esquerdo do altar encontra-se um sóbrio sacrário, embutido na parede, com porta dourada apresentando motivos geométricos formando uma cruz grega, executado pelo escultor Amândio de Sousa. Esta intimista capela tem também saída para o terreiro da igreja por duas portas articuladas, a toda a largura da capela, feitas em madeira e ferro, de traçado “limpo”. O logradouro é calcetado no mesmo desenho e com os mesmos materiais do adro, tendo uma rampa de acesso a este. As guardas de desenho geométrico são em ferro.

Do exterior para o interior estende-se a cobertura dando lugar a um endonártex que protege a porta guarda-vento de desenho geométrico. A igreja de uma só nave apresenta estrutura de betão aparente emoldurando grandes panos de parede branca. O panos laterais encimam uma espécie de galerias comunicantes de altura aproximada de um terço da nave. Do lado do Evangelho encontram-se três confessionários incorporados nessas galerias, feitos em madeira e de desenho simétrico e depurado. No lado da Epístola, logo à entrada, situa-se a sóbria pia de água benta em mármore branco assente no chão e de forma cilíndrica. Todos estes elementos foram rigorosamente desenhados pelo arquitecto.

A parede da cabeceira está revestida a cantaria vermelha, de duas tonalidades, no mesmo desenho que a parede exterior, e está separada da cobertura por uma ligação de vitrais. Ao centro podemos observar um Cristo Crucificado em bronze de autoria do escultor Lagoa Henriques.
A mesa de altar está implantada sobre um amplo supedâneo de mármore verde, encontrando-se do lado do Evangelho o sacrário dourado de desenho austero, com uma cruz repuxada, de autoria do escultor Amândio de Sousa sobre pedestal em mármore branco de linhas geométricas. Nota ainda para os castiçais em bronze de linhas direitas e austeras que ladeiam o altar.

A cobertura de todo o templo é em betão aparente, influência do “brutalismo” inglês.
A memória descritiva desta igreja revela a intenção do arquitecto de completar a composição arquitectónica com o emprego de escultura e pintura mural, tanto no interior como no exterior do templo. Esses elementos plásticos seriam baixos relevos em pedra da região e painéis de azulejos, tendo chegado o arquitecto a pedir a colaboração do escultor Amândio de Sousa para um baixo relevo em betão que estavam previstos para a sucessão dos panos inferiores da fachada sul, virada à cidade. Por constantes atropelos e ingerências exteriores essa intenção inicial não foi infelizmente concretizada, mas confirma uma clara vontade de pluridisciplinaridade das várias expressões artísticas, salutar intuito que a sua geração ainda preservava.

Estas constantes intromissões por parte da hierarquia da Diocese do Funchal faz atrasar a conclusão das obras de todo o conjunto, tendo o remate do adro e da Casa Paroquial só terminado em 1978.
O arquitecto, atento aos detalhes, assina o projecto de interiores desta igreja, numa clara preocupação pela coerência do todo, resultando o conjunto numa grande expressividade plástica.
Raul Chorão Ramalho, um homem, que apesar de ser um livre pensador e um ateu agnóstico, prova que soube interpretar os novos conceitos litúrgicos e a ambiência arquitectónica católica, conseguindo executar um templo moderno de uma espiritual espacialidade e intimidade.

Emanuel Gaspar

Artigo de Opinião de Bruno Martins .
Arquiteto de profissão, investigador, foi ainda Vereador na Câmara Municipal do Funchal, com os pelouros do urbanismo, planeamento, reabilitação e mobilidade

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