A perceção da arquitetura através da fotografia

Categorias: Arquitetura

Un arquitecto sin fotógrafo no es nadie.

Un buen arquitecto sin un buen fotógrafo no es nada.

Los mejores arquitectos son en parte lo que los mejores fotógrafos les han hecho ser y parecer.

Alberto Campo Baeza [1]

 

Joseph Niépce [2] captou a primeira imagem de um edifício em 1826, nessa altura, os daguerreótipos[3] e calótipos[4] obrigavam a exposições longas e, por serem imóveis, a arquitetura e a paisagem foram as primeiras imagens a serem reproduzidas.

Porém, foi pela via da arquitetura moderna que a fotografia de arquitetura se instauraria profissionalmente. Foi sob a forma contratual de encomenda, de editores de revistas e dos próprios arquitetos, que a fotografia de arquitetura começou a entrar definitivamente na esfera pública. Destacando as ligações próximas entre arquitetos e fotógrafos que construíram o olhar sobre as obras: Le Corbusier com Lucién Hervé, Frank Lloyd Wright com Pedro Guerrero, Richard Neutra com Julius Schulman, ou mais recentemente, Herzog & de Meuron com Thomas Ruff, Zaha Hadid e Peter Zumthor com Heléne Binet.

Durante a última década do século XX, com o aparecimento das tecnologias digitais, o processo massivo e acelerado da reprodução fotográfica, edição e visualização da imagem alteraram a forma e a velocidade com que a arquitetura é difundida. Com a utilização da fotografia em plataformas online e em inúmeras publicações, nasceu uma nova experiência do espaço arquitetónico que possibilita uma potencial relação virtual, quase instantânea com a arquitetura, capaz de se tornar no mais potente veículo de comunicar a arquitetura.

A fotografia de arquitetura permite que as pessoas obtenham uma compreensão visual dos edifícios que talvez nunca terão a oportunidade de visitar, sendo um recurso bastante valioso para expandir o conhecimento arquitetónico.
Embora fiel à realidade e permitindo “habitar” lugares longínquos no espaço ou no tempo, a fotografia ainda não é capaz de substitui a experiência física e espacial de se habitar um espaço, permitindo apenas informar parcialmente a nossa mente, das texturas, da luz, do ambiente envolvente de forma a auxiliar a nossa reconstrução mental do espaço. Esta imagem mental será sempre um fragmento do objeto real, imprecisa, mas uma experiência própria e tão real quanto a nossa mente o permitir. Nada substitui, afirma Zevi, a verdadeira experiência real do espaço: caminhar pelos ambientes, mover-se entre os elementos da arquitetura e conclui: “[…] nenhuma representação é suficiente, precisamos nós mesmos ir, ser incluídos, tornarmo-nos e sentirmo-nos parte e medida do conjunto arquitetónico, devemos nós mesmos nos mover.”[5]

A obra acabada representa a materialização da ideia do arquiteto, o fim de um longo processo de estudo, execução, construção e constante diálogo com donos de obra, empreiteiros e entidades. Quando esta permanece fiel à ideia inicial, o arquiteto sente a necessidade de partilhar a sua obra e a fotografia tem esta possibilidade de congelar o tempo sendo uma vantagem para os arquitetos que podem sonhar por um momento que a arquitetura é um poder estável existente acima das marés do tempo.

O desejo em dar a conhecer o seu trabalho e o seu reconhecimento e o desejo do fotógrafo em ganhar notoriedade alimentam as plataformas de arquitetura; pois uma obra não divulgada é uma obra desconhecida para todos aqueles que não a habitam. Sendo assim, não há dúvidas que a arquitetura é bem divulgada graças à fotografia e muitos só a conhecem, mesmo através das imagens.

Atualmente a fotografia possibilita uma nova perceção da arquitetura ao ponto de influenciar o modo como a “vemos” e como a “vivemos”, na medida em que é construída uma imagem estética e plástica enquanto mecanismo visual, como estratégia para captar o observador tornando-se assim uma forma essencial de comunicar a arquitetura e segundo Walter Benjamim, o olhar apreende mais depressa do que a mão desenha[6]

Esta construção da imagem estética dá-se fundamentalmente através da manipulação dos enquadramentos e perspetivas permitindo induzir no observador o máximo das qualidades percetíveis na obra construída, controlar o que interessa ou não mostrar através de limites de campo e utilização de planos e linhas de força para encaminhar o olhar, eliminando elementos que possam criar desarmonia. É com este controlo sobre o olhar que os fotógrafos concedem uma interpretação pessoal, providenciam novas leituras da arquitetura e determinam como a obra é compreendida através da atmosfera particular, escala, perceção de espaço, emoções e, sobretudo as intenções do próprio arquiteto. Uma perceção esteticamente reelaborada pelo olhar e pela técnica fotográfica, tornando-as irresistivelmente atrativas.

Deparamo-nos, portanto, com um contraste de uma realidade pura da arquitetura contaminada por uma imagem ficcionada criando uma narrativa poética, a fotografia “não é a realidade, mas uma realidade, ou seja, uma representação visual, culturalmente filtrada, do real”[7] , a nossa relação com a imagem fotográfica torna-se num suporte narrativo e ficcional com o intuito de comunicar ao observador um conjunto de intenções. As imagens contam narrativas poéticas, abrindo a fotografia de arquitetura a variados públicos e a múltiplas interpretações “constrói” uma outra forma de habitar e uma outra poética.

Os arquitetos contemporâneos não são alheios a esta realidade cada vez mais virtual, sabem que a imagem será sempre muito mais ativa e incisiva, mais produtiva na divulgação da obra do que a própria obra, real e vivenciada. Sendo os seus principais instigadores, aceitam de bom grado uma outra poética, a do espetáculo – a arquitetura representada.

 

[1] https://www.archdaily.com.br/br/625662/dia-mundial-da-fotografia-javier-callejas-por-alberto-campo-baeza

[2] Joseph Nicéphore Niépce (1765 – 1833) foi o inventor francês responsável pela primeira fotografia. O primeiro exemplo de uma imagem permanente foi tirado em 1826. Esse processo foi denominado de heliografia e cada imagem demorava oito horas a gravar.

[3] Primeiro processo fotográfico a ser comercializado. Foi divulgado em 1839, tendo sido substituído por processos mais práticos e baratos apenas no início da década de 1860. Consiste numa imagem fixada sobre uma placa de cobre, ou outro metal de custo reduzido, com um banho de prata, formando uma superfície espelhada.

[4]  Inventado por William Fox Talbot em 1836 este processo consiste na exposição à luz, com o emprego de uma câmara escura, de um negativo em papel sensibilizado com nitrato de prata e ácido gálico. Posteriormente este é fixado numa solução de hipossulfito de sódio e quando pronto e seco, positiva-se por contacto direto num papel idêntico.

[5] ZEVI, Bruno. “Saber ver a arquitetura”. São Paulo: Martins Fontes, 2000 p.51

[6] BENJAMIN, Walter, “Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política”, Lisboa, Relógio D’Água, 1992, pág.76

[7] MARTINE, Joly, “A Imagem e a sua Interpretação”, Lisboa, Edições 70, 2003, pág.129

Imagens
Museu de Arte Contemporânea de Serralves, @Rita Gomes| Architecture &Photography , 2018
Primeiro registo a que se pode chamar fotografia, © Joseph Niépce, 1826

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