Álvaro Domingues

A Substância dos Sonhos

Categorias: Crónica

Quando o assunto era difícil e incomodativo e nenhuma das partes queria já medir potências e razões, dizia-se que se iria pôr uma pedra sobre o tal assunto. Até à próxima contenda, a pedra guardaria a entrada desse tumulto agitado cuidando que se não esvaísse qualquer refrega de discussão por nenhum dos poros da terra ou se libertassem ácidos ou fumos de presença escapados por fissuras.

 

Aqui, como não se sabe muito bem qual é o assunto, só nos resta a pedra. Pedra sem assunto, portanto, ou pedra escondendo assuntos que só os mágicos e as feitiçarias conseguiriam desvelar, mouras encantadas, tesouros enterrados, ou fúrias e desgraças adormecidas que despertarão assim que sentirem que já nada pesa sobre as consciências de quem lhes retirou os pesos de cima da cabeça.

 

Disto não sabem quase nada os humanos que por ali se abrigam. Sempre lhes pareceu que o gigante geológico poderia servir de abrigo e protecção, que se podiam aconchegar à sua volta construindo paredes, casas, estábulos para os animais. Foi isso que fizeram. Curiosos, também decidiram retirar a terra e as pedras mais pequenas que jaziam por baixo. Fariam assim um campo ou um quinteiro, aproveitariam a pedra para fazer construções que cobririam com telhas ou chapas de zinco e assim foi. Repararam então que debaixo da grande pedra havia apenas outras pedras, amovíveis, enormes como se foram o afloramento de uma imensa jazida que ali via a luz do céu e que podia começar no centro da Terra ou ainda em mais fundo abismo.

 

Subtraída parte da base e vendo que a pedra de fecho desta ciclópica arquitectura ameaçava rachar ao longo de uma muito rectilínea fissura onde a geada e o musgo prosseguiam o seu lento e implacável trabalho de roer minérios, os pedreiros afadigaram-se com ponteiros de ferro, talhadeiras, cunhas e martelos e o monstro fendeu-se virando ao poente uma muito lisa superfície de despudorada e nua rocha que o crestar do sol, a chuva e os líquenes logo cobriram. Enegreceu.

 

 

Perdido mais de metade do lastro da sua memória geológica, a matéria iniciou então a levitação; fez-se navio, libertou-se do peso e das amarras e logo os mastros, as enxárcias e os velames se lhe desentranharam da massa pétrea, sôfregos de vento, estouvados, sedentos de viagens, da espuma e das sereias, do horizonte, das batalhas para, por fim, desaparecerem e o monstro encalhar outra vez. Ou afundar-se, quem sabe, ou, entretanto, explodir, cobrir-se do negro azulado dos mexilhões, ou desfazer-se depois de alguém ter lembrado que William Shakespeare escreveu há muito tempo que todos somos da mesma substância que os sonhos – we are such stuff as dreams are made on – e por isso, pedras, paus, sangue, carne, nervos ou nuvens, se dissiparão.

 

Outros disseram que tudo o que é sólido se dissolve no ar[1], tal como Italo Calvino, concentrando-se em Seis Proposta para o Próximo Milénio[2], (este que há pouco se iniciou), chegou à conclusão de que a leveza era o mais aconselhável para pulverizar a realidade, para evitar que o peso da existência nos esmague ou petrifique. Como o próprio refere, afinal o mundo é feito de coisas muito pequenas, partículas invisíveis, impulsos neuronais e estremecimentos quase imperceptíveis.

 

 

[1] Afirmação retirada do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels e que M Berman usa como título de um livro: Marshall Berman (1982) All That Is Solid Melts Into Air: The Experience of Modernity, Penguin Books, NY.

 

 

[2] Italo Calvino (1999) Seis Propostas Para o Novo Milénio, Teorema, Lisboa (ed.original Lezioni americane – Sei proposte per il preossimo millenio, 1988)

 

Fonte:

https://www.juponline.pt/opiniao/cronica/artigo/a-substancia-dos-sonhos.aspx

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