Tomás Reis arquitecto

Arquitectura do metaverso

Categorias: Arquitetura

O metaverso promete ser a oportunidade para soltar os arquitectos e designers até agora limitados pela técnica. Facilmente será possível encomendar um móvel à medida, ou caminhar numa casa muito antes de estar construída.

Terminou o último Web Summit com a promessa de que, num futuro próximo, o Metaverso vai dar que falar. Pelo menos enquanto ideia, vai continuar a alimentar a imaginação de Zuckerberg muito tempo depois dos Facebook Papers. E também a imaginação de produtores de conteúdos, compradores online e colegas de trabalho: chegou o momento de ter a cabeça envolta em headsets de realidade virtual? E, caso a revolução tenha chegado, como nos devemos preparar?

Poucos se lembrarão da versão inicial do Facebook, de 2004, quando nesse ano, o MSN Messenger era bastante popular: deixava escrever estados, numa frase que todos os contactos poderiam ler. Desde então, as redes sociais não pararam de evoluir, ajudando a tornar a experiência de navegação na internet mais interactiva, e revolucionando as relações pessoais, escolhas de consumidores e orientações políticas em toda o mundo.

É assim que, com quase 20 anos de Facebook, um vídeo mostra Mark Zuckerberg ao lado do seu próprio avatar, num cenário virtual com vista para o mar. O vídeo foi lançado no passado dia 28 de Outubro, num momento em que as suas redes sociais eram duramente criticadas, depois de um conjunto de fenómenos adversos que comprometeram o valor das acções.

As denúncias de Frances Haugen e o famoso apagão atingiram várias redes sociais quase ao mesmo tempo, quase sem explicação. Em causa está a nossa privacidade e a segurança dos dados, na forma opaca como são armazenados e processados. O lançamento da Meta, a nova detentora das redes sociais Facebook, Instagram ou WhatsApp, parece ter sido feito para limpar a imagem destes gigantes.

Apesar do rebrand em curso, o Metaverso é muito pouco surpreendente. Como ideia, é pelo menos 12 anos mais antigo do que o Facebook, porque já consta no romance de ficção científica Snow Crash, de Neal Stephenson, lançado em 1992. A fusão entre o mundo real e virtual é também explorada em filmes como Matrix, de 1999, e que desde então nunca deixou de povoar o nosso imaginário.

Mais surpreendente é perceber que as redes sociais de Zuckerberg não estão isoladas no registo de patentes de realidade virtual: a Microsoft também anunciou o seu metaverso, enquanto uma nova loja Nike poderá existir no espaço virtual, levando qualquer pessoa a co-criar os seus próprios ténis.

Nesta corrida às patentes, e de acordo com os planos para democratizar o acesso à tecnologia de realidade virtual, com headsets preços acessíveis, tudo parece estar encaminhado para a generalização do metaverso. Mas, como em qualquer revolução tecnológica, permanece a grande pergunta: irão as pessoas aderir? E será o momento certo para a generalização desta tecnologia, sem gerar desconfiança?

Muito possivelmente, as experiências de realidade virtual irão evoluir nos próximos anos, mas não na mesma forma que Zuckerberg apresenta. Até porque a qualidade dos conteúdos, e também da direcção artística, será fundamental para popularizar as novas tecnologias. Muito possivelmente, uma conversa com um avatar de corpo inteiro, quase realista, irá parecer tão pouco entusiasmante como a criação de avatares tão parecidos connosco, enquanto temos a cabeça envolta num dispositivo que se quer substituir aos estímulos sensoriais ao redor. A experiência arrisca-se a parecer, no mínimo, alienante.

Porém, nem só de realidade virtual vive o Metaverso: Internet 3D e realidade aumentada, não substituída, prometem dar que falar. Na sua versatilidade, a promessa do Metaverso é imensa: do mesmo modo que qualquer pessoa poderá criar os seus ténis da Nike, surge a promessa de sermos todos criadores, em conjunto. Criaremos muito mais do que conteúdos multimédia: vamos poder moldar espaços à nossa volta, os físicos e os virtuais.

O metaverso promete ser a oportunidade para soltar os arquitectos e designers até agora limitados pela técnica. Facilmente será possível encomendar um móvel à medida, ou caminhar numa casa muito antes de estar construída.

Num cenário, nada remoto, em que o metaverso se populariza, também os espaços virtuais terão de ser desenhados. Estar ausente desses espaços, será o equivalente a não ter site ou conta de mail, nos dias que correm. Veremos quais serão os próximos capítulos.

Artigo publicado no © PÚBLICO . Tomás Reis Arquitecto que usa o desenho como ferramenta de trabalho. Também nos cadernos de viagem guarda as memórias, escreve e usa aguarelas.

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