Arquiteto Nuno Brandão Costa fala do projeto “Terminal Intermodal”

O Arquiteto Nuno Brandão Costa fala do seu projeto: “O Terminal Intermodal vem criar um novo ambiente de cidade em Campanhã”.

Nuno Brandão Costa é o autor do projeto do Terminal Intermodal de Campanhã (TIC), a inaugurar esta quarta-feira, dia 20 de julho. Uma obra já distinguida, por unanimidade, com o prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), para arquitetura, relativos a 2021. O arquiteto, nascido no Porto, em 1970, e formado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), fala com orgulho do TIC, sublinhando que “a Câmara do Porto teve, finalmente, vontade de resolver e concretizar um projeto para um problema que se arrastava desde o século XIX”.

A Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA) distinguiu-o com o prémio Arquitetura 2021 precisamente pela obra do Terminal Intermodal de Campanhã. Como recebeu a notícia?
Com grande surpresa. Não estava nada à espera. Os arquitetos estão demasiado concentrados no seu trabalho para pensarem nessas coisas. Fico especialmente contente por ser esta obra, por ser na minha cidade, onde nasci, cresci, vivo e trabalho. Tem esse lado mais emocional. Evidentemente que me toca mais porque é, até agora, a maior obra que fiz na minha carreira. E também por ser pública.

[Para o júri do concurso, “trata-se de um dos mais relevantes projetos públicos no Porto, articulando de forma exemplar infraestrutura, topografia e espaço público numa cidade que vai de novo ao encontro do território para a introdução dos sistemas naturais no seu desenho”. “A obra confirma o percurso de excelência do autor e constitui um marco assinalável na arquitetura portuguesa atual, pelo modo como privilegia os novos sistemas de mobilidade urbana e a consequente regeneração de uma área da cidade afetada, desde o século XIX, pela construção da estrutura ferroviária ainda existente e em funcionamento”, assinala.]

Uma obra que resolve um problema naquela zona?
A Câmara do Porto teve, finalmente, vontade de resolver e concretizar um projeto para um problema que se arrastava desde o século XIX.

Que preocupações teve na idealização do projeto?
Não sei se as pessoas se lembram do que aquilo era. Uma zona cheia de entropias, dificuldades de mobilidade, quer de pessoas quer de viaturas, relações difíceis com infraestruturas ali existentes (Via de Cintura Interna, estação de caminho-de-ferro, parte do tecido urbano a nascente, Quinta do Mitra, Colégio de Campanhã, entre outras). Encaramos o projeto não só como resolução do Intermodal, propriamente dito, mas também como uma oportunidade de criar ali um ambiente de cidade diverso do existente, introduzindo qualidade ambiental, atmosférica. O projeto é fundado nesta dupla ideia: resolver o Intermodal, do ponto de vista funcional e ser o mais simples possível, e, ao mesmo tempo, criar um novo ambiente de cidade, mais desafogado, com outra panorâmica, em Campanhã. Redesenhamos todos os arruamentos, criamos ruas novas, uma mobilidade mais fluída, visualmente um território mais aberto.

O parque é o elemento protagonista da intervenção

Um projeto aparentemente simples, mas de grande complexidade?
Verdade. Há uma grande diferença de cotas (cerca de 12 metros, entre a linha férrea e o nó da Bonjóia). Optámos, à cota baixa, tendo precisamente como referência a saída do nó da Bonjóia, por instalar a zona mecânica do edifício. Toda a zona onde se processa o movimento das viaturas – pesadas e ligeiras. Entradas e saídas num movimento único. Já à cota alta, da linha férrea, introduzimos um percurso pedonal, paralelo à estação de Campanhã, que, no fundo, liga, paisagisticamente, todos os elementos que já existiam no território mas que estavam desligados uns dos outros. Neste intervalo criamos um grande parque, criado em talude, que une tudo. É o elemento protagonista da intervenção.

A sua preocupação foi muito para além da construção do TIC?
Tínhamos à mão um pedaço de território, com dimensão relevante, e onde foi possível propor uma mudança de atmosfera urbana. A ideia foi fazer um edifício muito simples, linear, paralelo à linha férrea, com dois níveis e um pendor ecológico muito forte. A zona estava carenciada de um parque urbano. Há o Parque de S. Roque, mas um pouco distante. Havia uma oportunidade de criar um pulmão verde para esta zona da cidade. É um gesto ecológico interessante.

Era impossível andar por ali… de uma forma civilizada

As pessoas vão poder assim usufruir do Intermodal de duas formas: em termos de mobilidade e lazer.
Pretendemos que os utilitários do edifício ultrapassem os usufrutuários dos autocarros e automóveis, que seja um ponto de atração para que as pessoas possam passear, fazer jogging, percursos pedonais e de bicicleta. Lembro-me, quando fui visitar o terreno para o concurso, que era impossível andar por ali… de uma forma civilizada. O nosso projeto visou facilitar isso e tornar a zona também mais lúdica e confortável. Fazer um espaço urbano qualificado.

Foi um projeto que lhe deu muitas dores de cabeça?
Deu trabalho, mas foi muito interessante. Não há projeto nenhum que, para ficar bem, não dê trabalho.

É uma obra impactante que fica para a posteridade.
O mais importante é que o edifício e a intervenção tenha sucesso. Que funcione, do ponto do seu objetivo principal – ser um Intermodal – e do ponto de vista do nosso segundo objetivo, talvez o mais importante, requalificar o espaço e que as pessoas o utilizem de forma aprazível. É o mais importante para mim.

Há dois anos que passo ali a minha vida…

Já deve ter ido lá várias vezes…
Há dois anos que passo ali a minha vida…

Hoje, alteraria qualquer coisa ou, no essencial, mantém a ideia de projeto?
Os arquitetos têm sempre tendência para ver alguns erros e o que poderiam modificar. Nesse sentido, esta obra não é diferente das outras, mas, genericamente, manteria o essencial do que está ali. O edifício, do ponto de vista arquitetónico e formal, é muito simples. Apela a um certo anonimato. Tem uma linguagem quase industrial. É difícil imaginar alguma mudança substancial. O edifício é todo aberto, funciona com ventilação natural. Desse ponto de vista, estou bastante satisfeito por ter essa elementaridade que sempre procuramos, ou seja, o de dar o protagonismo não tanto à construção mas muito mais ao espaço público.

Isto dá-lhe vontade de fazer mais projetos?
Gosto muito do que faço. Gosto muito de ser arquiteto. Claro que dá vontade de fazer mais coisas e melhor. É isso que tento fazer todos os dias. Felizmente tenho o privilégio de fazer o que gosto e de gostar muito do que faço. É uma profissão que me deixa muito satisfeito. Depois, ser premiado também ajuda. É bastante estimulante e motivador.

© Porto.

Fotografia © Guilherme Costa Oliveira

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