Antonio Covas

As cidades do futuro (III)

A utopia prática da cidade intergeracional

Não queremos a cidade distópica dos adultos, a cidade IOT (internet of things), a cidade elétrico-magnética, a cidade dos sensores e drones, a cidade do capitalismo da vigilância, a cidade das crianças codificadas e aditivadas e da distopia mental. Pelo contrário. A esta cidade do futuro, meramente instrumental, nós preferimos a cidade da brincadeira e da alegria, a cidade do diálogo e do respeito mútuo, a cidade da solidariedade e da ética do cuidado, a cidade da dignidade humana e dos direitos dos cidadãos. A cidade da inteligência coletiva e da rede de comunidades inteligentes. O mundo pula e avança como bola colorida nas mãos de uma criança. Esta podia ser a utopia, o lema da cidade dos amigos das crianças, os adultos de amanhã. E há boas razões para acreditar nesta utopia prática, senão, vejamos:

– Em primeiro lugar, está ao nosso alcance organizar a sociedade da informação e do conhecimento em comunidades inteligentes com base em redes distribuídas e plataformas colaborativas made in; as comunidades inteligentes auto-organizam-se, promovem a cogestão dos bens comuns e, nessa base, subscrevem, digamos, um novo contrato social com a natureza e a cultura em nome e benefício das suas crianças e jovens.

– Em segundo lugar, as comunidades inteligentes assim formadas elegem como prioridade a perspetiva socio-ecológica, em particular as relações cidade-campo, tendo em vista promover uma nova ecologia humana das relações sociais; esta ecologia humana é concebida para promover o bem-estar das crianças, a sua saúde física e psicológica, bem como as boas relações de vizinhança e sociabilidade que as infraestruturas e os equipamentos de ligação cidade-campo são capazes de proporcionar.

– Em terceiro lugar, as comunidades inteligentes atribuem uma prioridade política elevada ao espírito e arte dos lugares, em especial, os signos distintivos do território (SDT); através de circuitos e visitas guiadas criamos nas crianças e nos jovens uma espécie de geografia sentimental pelos territórios de origem e as primeiras memórias sobre a natureza e cultura dos lugares de nascimento.

– Em quarto lugar, a inteligência coletiva territorial, isto é, a rede de comunidades inteligentes, elege como prioridade política a formação de um sistema agroalimentar de base local, se quisermos, uma bio região onde podemos experimentar o renascimento de múltiplas formas de agricultura, nichos de mercado e terroirs de visitação, bem como uma oferta complementar e integrada de bens e serviços que vai desde o sequestro de carbono até à biomassa energética com passagem pela prestação dos serviços de ecossistema e as artes da paisagem, elementos essenciais à promoção da qualidade de vida dos cidadãos; todas estas referências geofísicas e culturais, bem trabalhadas do ponto de vista educativo e pedagógico pelos agrupamentos escolares e escolas profissionais podem criar um sentimento de identificação e pertença junto dos mais jovens.

– Em quinto lugar, a inteligência coletiva territorial, por exemplo, no quadro de uma rede de vilas e cidades, reinventa o espaço público urbano onde a arquitetura paisagística e a engenharia biofísica nos ajudam a restaurar o metabolismo vital da cidade, a imaginar jardins multifuncionais decorativos, aromáticos e biodepuradores, circulares verdes, corredores ecológicos, parques agroecológicos, núcleos bioclimáticos, sistemas integrados de micro geração; esta coleção de elementos naturais e culturais enriquece a experiência de vida das crianças e jovens, a sua educação, sociabilidade, imaginação e criatividade, por meio dos quais se aprende a respeitar os ciclos da natureza, numa atmosfera de conforto, beleza e saúde espiritual.

– Em sexto lugar, a inteligência coletiva territorial, a rede de comunidades inteligentes, reflete e reconsidera a economia circular das pequenas e médias empresas regionais na sua interface com a rede de pequenas e médias cidades que fazem da sua política de sustentabilidade verdadeiros programas educativos e recreativos onde o ambiente, a circularidade, o desporto e a saúde pública são a sua principal razão de ser; todos os ciclos escolares, desde a pré-escola até ao ciclo secundário têm a oportunidade de aprender e experimentar a importância dos ecossistemas na qualidade de vida dos cidadãos, o restauro de mosaicos paisagísticos e habitats fragmentados, as boas práticas de reciclagem e reutilização de resíduos, a poupança e eficiência energéticas, a recuperação de linhas de água impermeabilizadas e solos agrícolas urbanizados, a restauração de bosquetes maltratados, o reenquadramento paisagístico da edificação dispersa assim como dos logradouros inóspitos e da agricultura urbana existente. E tudo isto pode ser objeto de um programa de visitas guiadas para os estudantes de todas as idades.

Notas Finais

O lado psicopedagógico da cidade da utopia ilustra bem como a fusão entre a natureza e a cultura pode ser altamente criativa. Os serviços educativos, culturais e recreativos dos agrupamentos escolares e das escolas profissionais podem converter-se em comunidades inteligentes e plataformas colaborativas onde o sonho que comanda a vida pode germinar. Eles podem ser o lugar de muitas memórias, de uma linguagem viva e expressiva, de muita liberdade criativa, de experiências enriquecedoras de comunicação e sociabilidade. E de muitos amigos para a vida.

Por outro lado, todos os valores e elementos que traduzem a conversão de uma cidade artificialmente zonada e compactada numa cidade que respeita a morfologia dos elementos naturais e os valores cénicos da paisagem humanizada devem estar plasmados e ser bem visíveis no centro interpretativo da cidade do futuro e a sua natureza paisagística, estética e pedagógica ser projetada nos programas educativos, recreativos e culturais. O centro interpretativo da cidade do futuro é, assim, um verdadeiro desafio para a rede de vilas e cidades, uma espécie de santuário psicopedagógico para os mais jovens, um espaço privilegiado de reflexão sobre as relações entre a natureza e a cultura que considera a biodiversidade, os ecossistemas e os serviços de ecossistema como elementos essenciais à vida natural e cultural de toda a comunidade.

Artigo de António Covas . Professor Catedrático da Universidade do Algarve

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