As cidades do futuro não serão tanto o que cabe dentro de um determinado perímetro urbano, mas, antes, aquilo que define melhor a sua multiterritorialidade, por exemplo, uma cidade-estado de vários milhões de habitantes e respetiva área metropolitana, uma cidade-rede de pequenas e médias cidades, uma cidade-comunidade correspondente ao âmbito territorial de uma comunidade intermunicipal ou, mesmo, uma cidade-concelho. Ou seja, as cidades do futuro, nas suas várias geometrias, estarão obrigadas a dar uma maior atenção à arquitetura multiterritorial do espaço público, à geografia humana das suas relações sociais, às várias propostas de cooperação territorial descentralizada, ao seu mosaico paisagístico e às diversas formulações da economia criativa e dos bens comuns correspondentes, às soluções de segurança, ordem pública e bem-estar dos cidadãos.
Dito isto, não é fácil de imaginar a trajetória de uma cidade em direção ao futuro. Durante demasiado tempo praticámos uma política dual e dicotómica que puniu severamente as relações cidade-campo, agrícola-industrial, urbano-rural e moderno-tradicional. Agora, as grandes transições do século XXI – climática, energética, ecológica, digital, laboral, social, cultural – exigem-nos que reconsideremos este conjunto de relações, desta vez em nome de uma sociedade mais intangível e imaterial, assente em inúmeros dispositivos tecno-digitais, mas, também, de uma sociedade mais solidária, colaborativa e compartilhada, assente na provisão de bens públicos e comuns. Acresce que, uma cidade do futuro deve prestar uma atenção particular aos direitos dos ausentes, ou seja, a uma ligação genuína e criativa com as gerações vindouras, uma cidade para as crianças e os jovens.
Em síntese, nas cidades do futuro três ideias nucleares merecem ser salientadas. Em primeiro lugar, a cidade da conexão e cooperação multiterritorial (1), em segundo lugar, a cidade da economia criativa e dos bens comuns (2), em terceiro lugar, a cidade que agrega os interesses difusos dos cidadãos através da promoção de comunidades inteligentes (3). Comecemos, então, pela primeira dessas ideias.
A cidade da conexão e da cooperação multiterritorial
Tudo está em aberto, pois está em curso uma nova arquitetura da conexão e cooperação multiterritorial. Com efeito, da cidade-metropolitana à cidade-concelho, da cidade-rede de pequenas e médias vilas e cidades à cidade-comunidade intermunicipal, estamos perante uma geometria variável onde todos os limites, escalas de intervenção, multifuncionalidades, processos de circularidade, economias de rede e níveis de governança, estão presentes na equação territorial. A cidade-perímetro urbano, a cidade-concelho, a cidade-rede urbana e a cidade-região da comunidade intermunicipal, representam quatro níveis de governança territorial com um potencial de cooperação muito elevado de onde se pode retirar uma visão integrada e articulada de intervenção na arquitetura paisagística, infraestruturas verdes e relações cidade-campo (1), na paisagem urbana e organização do espaço público (2), nas áreas vocacionadas para as atividades produtivas (3), na economia criativa e oferta dos bens comuns (4), na formação de comunidades inteligentes e organização dos interesses difusos dos cidadãos (5).
Neste contexto, está em questão a arquitetura do espaço público na cidade do futuro. Vejamos, então, alguns aspetos dessa malha reticular induzida pela conexão e cooperação entre espaços-territórios, em benefício de novas multiterritorialidades como a região-cidade ou a Cidade-CIM.
– Em primeiro lugar, a arquitetura do espaço edificado em resultado das novas formas de mobilidade urbana e, bem assim, de uma ecologia muito mais inspiradora e feita a pensar na nossa condição humana; como resultado, teremos mais espaço público à nossa disposição para redesenhar a paisagem urbana;
– Em segundo lugar, uma nova arquitetura digital em resultado do processo de digitalização das atividades que transforma os modelos de negócio, a configuração física dos espaços comerciais e sua redistribuição no espaço-território envolvente; como resultado, teremos uma relação mais diferenciada com os espaços periurbanos e suburbanos e, também, com o espaço rural;
– Em terceiro lugar, uma nova arquitetura urbana em resultado da nova matriz energética e da transformação do espaço edificado para responder a exigências de eficiência energética, mas, também, a novos usos urbanos como a agricultura urbana e vertical; teremos, assim, mais espaço público para formar comunidades energéticas locais e uma agricultura acompanhada pela comunidade;
– Em quarto lugar, a arquitetura dos espaços socio-laborais, em resultado da economia digital, do teletrabalho e do nomadismo digital, abre novas vias para os transportes públicos e privados e novas localizações dentro e fora do tradicional espaço urbano; teremos, assim, mais soluções colaborativas à nossa disposição;
– Em quinto lugar, a nova arquitetura da relação cidade-campo em resultado do papel das infraestruturas ecológicas e rede de corredores verdes no modelo de conexão urbano-rural e na delimitação de novos espaços públicos de ligação, de acordo com o princípio de mais campo na cidade e mais cidade no campo; assim, o parque agroecológico municipal ou intermunicipal será o shopping do século XXI;
– Em sexto lugar, a arquitetura dos espaços colaborativos de ciência, cultura e criatividade em resultado do lugar central que, doravante, representarão na cartografia territorial da cidade do futuro; teremos à nossa disposição um leque muito variado de opções de espaço público na interface desta arquitetura multiterritorial;
– Em sétimo lugar, a arquitetura das redes de proteção social e inclusão, em especial, no desenho dos serviços de proximidade e ambulatórios em benefício dos grupos de cidadãos mais desfavorecidos; teremos à nossa disposição muitas soluções de mobilidade para a sociedade sénior e outros grupos mais frágeis;
– Em oitavo lugar, a arquitetura do ambiente empresarial, não apenas na conexão dos tradicionais parques empresariais e zonas industriais, mas, também, no mapeamento inteligente das fileiras e cadeias de valor que compõem a cidade-região empresarial e, ainda, nas infraestruturas de acolhimento e aconselhamento que informam a nova economia digital;
– Em nono lugar, a arquitetura da proteção civil e comunidades de risco, desde logo, nas ações de mitigação e adaptação às alterações climáticas, mas, mais especialmente, na pedagogia ecológica e energética relativa às políticas de descarbonização, economia circular e biodiversidade; teremos, assim, à nossa disposição, vários programas com esta finalidade especifica, tanto no PRR como no próximo PT 2030;
– Em décimo lugar, a arquitetura da participação pública, em resposta às grandes transições do século XXI, irá obrigar à reorganização do espaço da academia, dos meios de comunicação social, do espaço associativo e à reforma geral da administração pública; esta é uma tarefa tão exigente como necessária e muito do sucesso das grandes transições dependerá desta reorganização fundamental.
Notas Finais
Duas notas finais para realçar a articulação destas várias arquiteturas e, portanto, a delimitação de novos espaços públicos de conexão e cooperação.
A primeira diz respeito à região-cidade, a rede policêntrica de cidades e vilas, aquilo que eu já designei como a Cidade CIM, a cidade da nossa imaginação no que diz respeito ao desenho de bens comuns colaborativos e à gestão de recursos partilhados entre vilas e cidades. As Comunidades Intermunicipais (CIM) têm aqui um papel de destaque.
A segunda nota diz respeito à conexão dos espaços interiores da região-cidade. Refiro-me à formação e articulação de sistemas territoriais localizados, por exemplo, os sistemas agroalimentares locais (SAL), os sistemas agroflorestais (SAF), os sistemas agroturísticos (SAT) e os sistemas agropaisagísticos (SAP). Esta geoeconomia dos sistemas territoriais localizados funciona atualmente em ordem dispersa e sem economias de aglomeração, está, pois, na hora de um novo sistema de cartografia e mapeamento territorial que é, na atual conjuntura, especialmente adaptado à administração da Cidade CIM, tanto mais quanto delimita e estimula uma nova rede de espaços públicos intermunicipais da maior relevância. Voltarei ao assunto mais à frente.
Artigo de António Covas . Professor Catedrático da Universidade do Algarve