“As mulheres são muito resilientes. Não desistimos de nada!”

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“As mulheres são muito resilientes. Não desistimos de nada!” | Mariana Morgado Pedroso, CEO da empresa Architect Your Home

Mariana Morgado Pedroso é a arquiteta fundadora do Architect Your Home (AYH), ateliê criado em plena crise com pouco mais de 40 mil euros do fundo de desemprego. Sete anos volvidos, o AYH tem mais de 300 projetos assinados de norte a sul do País e trabalha em rede com mais 12 gabinetes de arquitetura. Empreendedora e visionária, a arquiteta especializou-se na reabilitação muito antes do ‘boom’.

Trabalhou em grandes ateliês de arquitetura. Mas como foi o seu percurso académico?

Estudei no Instituto Superior Técnico quando abriu o curso, em 1998, que veio criar uma fação independente da faculdade de Arquitectura de Lisboa, pois era um curso mais técnico, ligado à Engenharia. Mas foi muito inovador, trabalhámos com o MIT, fizemos imensas coisas que nos abriram os horizontes. Estive depois um ano a estudar em Milão, e quando regressei fui estagiar no ateliê Risco, do arquiteto Manuel Salgado, que tinha sido nosso professor de arquitetura. Também comecei a dar aulas no Técnico como assistente e tirei o Mestrado de Conservação e Recuperação do Património Construído no período em que estava a trabalhar com o arquiteto Manuel Salgado.

Estive aqui durante quatro anos e meio, quase cinco anos. Durante esse período acabei por me especializar em Reabilitação, uma área que me pareceu que seria o futuro. Naquela altura estava ainda muito longe da dimensão que veio a ter. Estávamos ainda na fase da construção nova, no rescaldo ainda da Expo, com muita coisa a acontecer nas periferias mas com os centros muito abandonados.

De onde lhe surgiu esse interesse pela Reabilitação?

Sempre me interessei pelo detalhe dos edifícios antigos e as suas camadas de História… Poder entrar num edifício e perceber o que está por baixo, cada vez que se raspa uma parede. Por outro lado, talvez por intuição, sabia que haveria muito trabalho de recuperação da cidade porque olhávamos para Lisboa e nessa altura, ainda sem o turismo, estava vazia. Havia ali muito para fazer. Eu gosto do Técnico;  por isso quando abriu esse mestrado de Reabilitação com o Professor António Lamas, inscrevi-me. Mais tarde, acabei por trabalhar com o Professor, fiz o restauro do Palácio de Queluz, o Picadeiro da Escola Portuguesa de Arte Equestre, trabalhei com os Parques de Sintra Monte da Lua durante muitos anos… Com o Manuel Salgado, que é um professor extraordinário, tive essa liberdade de poder estudar ao mesmo tempo, porque ele sempre motivou as pessoas que trabalhavam com ele a prosseguirem os seus estudos. Portanto, eu estava a trabalhar no ateliê, a fazer o mestrado e a dar aulas no Técnico, tudo ao mesmo tempo! E quando ele saíu para a Câmara Municipal de Lisboa, eu saí também e entrei para o ateliê do arquiteto Frederico Valsassina, já na vertente de Reabilitação… Fiquei lá 4 ou 5 anos, a trabalhar no duro, porque o arquiteto tem muitos projetos a acontecer, tem um gabinete fortíssimo, uma equipa ótima, onde trabalhei e aprendi muito.

Quando avançou para o seu próprio ateliê?

Quando veio a crise, o arquiteto Valssassina fez um downgrade no ateliê, fizemos um acordo e eu saí. Foi nessa altura que comecei a trabalhar com o Professor Lamas nos projetos específicos de reabilitação. E comecei a trabalhar por conta própria num período de crise completa. Estávamos em 2012, o pico da crise!

Entretanto, conheci o Architect Your Home, um conceito inglês, lançado por um casal de arquitetos com uma rede muito forte no Reino Unido, com mais de oito mil projetos feitos. Eles criaram um menu de serviços com preços que chegavam a toda a gente, com toda uma plataforma de negócio e de marketing que habitualmente os arquitetos não têm, pois funcionam habitualmente pelo boca a boca, pelo círculo de influências. E era isso que eu tinha também, que é o tradicional método de um ateliê crescer, com muito poucos conhecimentos de gestão porque não se ensina gestão nas faculdades de Arquitetura. Nem a fazer propostas, só a desenhar…

Portanto, criou aqui em Portugal uma filial do AYH?

Sim. Percebi que, se queria um mercado abrangente, se queria crescer, teria que ter um sistema diferente. E então fui buscar o Architect YourHome a Inglaterra. Expliquei-lhes que não havia nada parecido em Portugal, que gostava de ser parceira deles e trouxe para cá o conceito. O AYH é uma plataforma, com uma base de dados muito bem montada e onde é possível saber de uma forma muito transparente, com todos os passos da arquitetura, os preços à hora, ao serviço, e portanto o cliente vê quanto é que vai custar cada etapa, escolhe aquilo que quer, pica um formulário, vai avançando passo a passo à medida das suas capacidades financeiras. Pode parar, recomeçar, desde pequenas obras como um quarto de criança até obras gigantes, estruturais… Na altura pedi apoio à Ordem dos Arquitectos para divulgar este conceito novo, pois trouxe uma nova forma de fazer arquitetura em Portugal, e também pedimos à embaixada britânica para nos apoiar nesta iniciativa, isto tudo ainda em plena crise, tudo muito melancólico e triste, sem esperança… Mas sinto que trouxemos uma grande lufada de ar fresco, porque através da Ordem começámos a falar de imagem de marca, de marketing, de promover serviços de arquitetura para o público em geral, etc. Ninguém faz isso, ainda agora é assim: os arquitectos estão no ateliê e esperam os clientes que vão surgindo a pedir projetos. Eu acho que isso não faz sentido, nenhum negócio funciona assim.

Quando começou a ganhar escala?

Quando fiz a parceria com a Sotheby’s. Nós somos o que eles chamam os ‘selected partners’. Ou seja, quando eles têm clientes que precisavam de apoio e de know how, na reabilitação, decoração, remodelação de um apartamento, fosse o que fosse, chamavam a nossa empresa por ser um parceiro selecionado, com bons profissionais, com uma equipa experiente e fluente em línguas. Isto por um lado; por outro, foi através do restauro. Já estava com o Palácio Nacional de Queluz, uma obra de quase €4 milhões, e outras obras em espaços apalaçados, e como é uma área onde há pouca gente a trabalhar…

A AYH tem projetos em todo o País porque funciona em rede, é isso?

Sim, trabalhamos com 12 ateliês. Faz sentido ter alguém local, que conheça a Câmara, que conheça os empreiteiros, que possam, de facto, ajudar as pessoas a pôr em marcha as coisas. Desde 2013 até agora, já passámos a barreira dos 300 projetos, essencialmente de reabilitação.

Foi fácil impor-se num mercado tão dominado pelos homens, seja na arquitetura, seja no imobiliário?

A resposta é um ‘nim’. Sim e não. Por um lado, há muita dificuldade, o nosso país é muito conservador, muito tradicional e todos sabemos que os decision makers são praticamente todos homens. Não lido quase com mulheres nestes patamares, é raríssimo encontrar outra mulher. No outro dia estava numa sala de reuniões com uma grande construtora portuguesa com quem temos um projeto muito grande, um grupo de 15 pessoas, e eu era a única mulher. Mas depois tudo depende de como se encara as coisas. Eu faço tudo de uma forma muito metódica, profissional, faço questão de respondermos dentro do prazo, de sermos descomplicados, e isso ajuda-nos muito. Descomplicamos a ideia de que os arquitetos estão no pedestal e que não são uma classe comercial.  Nós desmistificamos isso, trabalhamos muito nesse sentido e isso ajuda a alavancar negócios e a criar clientes.

Ser mãe e empresária é um desafio complexo?

Eu fui mãe quando ainda estava no Valssassina e mais tarde, já com a minha empresa a começar, e é duríssimo, não vou dar ilusão de que é fantástico…  Foram muitas noites a trabalhar… Muitas vezes levei a bebé comigo para consultas com os clientes… Eu não conseguia delegar, havia coisas que passavam mesmo por mim… A minha segunda filha, com meses, ia comigo para todo o lado e eu parava muitas vezes a meio de uma reunião para dar de mamar e depois voltava…

Mas penso que a maternidade não impede de chegar onde se quer chegar. Mas foi muito difícil. Eu comecei a AYH com praticamente nada – criei a empresa com €42 mil do fundo de desemprego –  e fazia omeletes sem ovos. O trabalho e as crianças, era tudo muito complicado… E a verdade é que não há igualdade de género… Há sempre um período em que os homens conseguem fazer um crescimento das suas carreiras, entre os 30 e os 40 anos, que para as mulheres coincide precisamente com o período da maternidade (e já estou aqui a colocar a maternidade mais tarde). Há uma décalage de tempo entre mulheres e homens na progressão na carreira. O meu caso é um feliz exemplo de que é possível, mas a verdade é que foi muito complicado. Há um período grande nesses primeiros meses em que nem me lembro das coisas, eu andava tipo zombie… (risos) Mas importante mesmo é perceber quais são os objetivos e se os queremos atingir realmente.

E hoje em dia, com tantos projetos em mãos, consegue ter tempo para a família?

As minhas duas filhas têm 5 e 9 anos, são superequilibradas, faço com elas um horário específico de saída, estou com elas a partir das 17h30 e depois se for preciso trabalho mais depois, mas já faço poucas noitadas… Mas isso acontece também porque já tenho uma equipa montada que me dá o suporte que preciso. Antes, a equipa era eu e a minha sócia e fazíamos tudo. Até montar e desmontar mesas, limpar tudo… A verdade é que as mulheres são muito resilientes, é uma vantagem do género feminino, não desistimos de nada.

Que planos faz a médio prazo?

Gostava muito de fazer a internacionalização da Architect Home. A nível europeu existe apenas em Portugal e Espanha. Eles têm um negócio muito grande no Reino Unido, uma rede muito forte e portanto não estão nada preocupados com a internacionalização, mas estão abertos a isso. Eu gostava muito de fazer essa internacionalização com eles porque o conceito adapta-se a qualquer país, com alguns ajustes, e isso seria para mim um desafio interessante. Faria todo o sentido. Estamos em Portugal há sete anos e mudámos muita coisa do conceito original, adaptámos ao nosso mercado, que hoje é feito de muitos clientes estrangeiros, investidores e promotores, que procuram imóveis para reabilitar.

© Visão . Entrevista de Marisa Antunes  à Mariana Morgado Pedroso, CEO da empresa Architect Your Home

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