«As Operações SAAL»: um dos mais importantes documentários portugueses

«As Operações SAAL» é o mais completo, abrangente e emocionalmente rico documento, de um período crítico do Pais e da sua história recente. Em 1974/75, um projecto de habitação envolveu arquitectos e população numa iniciativa única e revolucionária. Os pobres conquistavam casas, que eles próprios construíam, e a arquitectura portuguesa dava um passo ímpar na sua afirmação dentro e fora de portas.

Trinta anos depois, as memórias filmadas dos actores destes processos ajudam a entender as repercussões sociais e culturais das Operações SAAL, ao mesmo tempo que um extenso acervo documental inédito ajudará a reflectir sobre os caminhos que a arquitectura e o urbanismo têm percorrido desde essa altura.

Mas o alcance do filme abrange a problemática mais lata da participação democrática e cidadã nos destinos da sociedade. Quer enquanto dispositivo de recolha de informação, quer como registo fílmico documental, «As Operações SAAL» é um exemplo de documentário crítico, porque os sucessivos avanços na acção – e no território – resultam de um obsessivo desejo de intromissão na verdade, contaminado de um sentido de urgência perante factos em risco de desaparecimento. (Da sinopse)

A população tomou consciência das suas forças

Ainda está por fazer uma história do documentarismo português que destaque a riqueza criativa que se verificou no nosso país desde os anos 60, primeiro com os trabalhos de Manoel de Oliveira e Fernando Lopes, depois com a chegada de António-Pedro Vasconcelos, João César Monteiro e José Fonseca e Costa, que trouxeram contributos originais para um género que iria ‘explodir’ num movimento irresistível após o 25 de Abril, remetendo-se, mais tarde, quando os ventos se tornaram menos favoráveis, a uma quase clandestinidade, de onde saiu graças à actividade de organizações como a Malaposta (com o trabalho de Manuel Costa e Silva) e o DocLisboa, entre outros (que não quero ser injusto) que contribuíram para lhe dar um novo impulso e para divulgar os trabalhos de uma, nova geração que me parece ser a mais forte que este género conheceu por cá até hoje.

Se os documentários dos anos 60 se escudavam por razões óbvias, por trás de uma, mais ou menos vaga, aparência etnográfica e os do imediato pós-25 de Abril na denúncia das injustiças do Estado Novo, a actual geração destaca-se pela variedade e riqueza dos seus projectos, de carácter artístico, histórico, memorialista, etnográfico, etc.

O excelente trabalho de João Dias «As operações SAAL» (que a Midas vem, oportunamente, pôr numa sala de cinema), que me parece ser um dos documentos mais importantes desta fase, tem outra função ainda mais significativa. Trata-se de arrancar o véu do esquecimento que a restituição do curso do processo democrático aos seus ‘legítimos’ objectivos (tal como decretou o poder emergente com o 25 de Novembro através do “Documento dos Nove”) lançou sobre o que foi uma das características mais fecundas e revolucionárias (no verdadeiro sentido do termo que o nosso país viu (e esqueceu): aquilo que foi chamado o «Serviço de Apoio Ambulatório Local», criado pelo arquitecto Nuno Portas, então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, no I Governo Provisório, que, apoiando as autarquias e as populações interessadas, procurou resolver os problemas da habitação das populações mais carenciadas, que viviam em barracas e bairros de lata.

Mais do que as polémicas levantadas, o que aqui importou foi a energia com que populações (antes apáticas) se lançaram num processo de transformação, tomando consciência das suas forças e capacidade de decisão, apoiadas por uma série de arquitectos que viram neste movimento um outro campo de experimentação para os seus projectos. Tal consciencialização resultava mais perigosa que a agitação política que por esse tempo se manifestava, porque fazia as populações descobrirem, de facto, o seu poder de transformar as coisas, pelo que a 27 de Outubro de 1976 um despacho encerrava o processo, minimizando os seus resultados. Estava lançado o véu que ao longo dos anos seguintes remeteu para o esquecimento os frutos das «Operações SAAL».

Para além das suas qualidades no trabalho das referências documentais e da hábil interligação, que o filme vai fazendo entre as imagens de arquivo e as declarações de alguns dos arquitectos que marcaram presença no processo, de Siza Vieira a Raul Hestnes, passando por Souto Moura, Teotónio Pereira e outros, o filme de João Dias impõe-se como um documento imprescindível para o conhecimento da nossa história e de um fenómeno que os novos poderes não estavam interessados em reconhecer.

 

Artigo no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

LINKS
Galeria
artigos RELACIONADOS
PUBLICIDADE

Biblioteca BIM Leca ®

»