Carga fiscal asfixia a tesouraria dos pequenos gabinetes de arquitetura

“Poderemos estar a chegar a uma fase de desaceleração no investimento económico à medida que os potenciais retornos são menos apetecíveis”, afirma Gonçalo Nobre da Veiga, arquiteto português que criou um atelier de arquitetura em 2010, em Angola, e em 2018 apostou no mercado português estando à frente da GV+A e Speisse.
Segundo o mesmo responsável, a carga fiscal “asfixia” a tesouraria dos pequenos gabinetes de arquitetura, que, com maiores custos fixos do que outros, enfrentam também uma concorrência de preços “pouco dignificante para a classe”.

Vida Económica – Porque decidiu fazer um percurso de investimento inverso ao de muitos, criando primeiro um atelier em Angola e depois em Portugal?

Gonçalo Nobre da Veiga – Foi mais uma decisão tática do que o resultado de uma abordagem estratégica, ou seja, tomei a decisão de aceitar um novo desafio e, à semelhança de muitos portugueses, em 2006 fui para Angola, a convite de um gabinete de arquitetura, sendo que fui logo de seguida convidado a assumir o desafio de chefiar o departamento técnico da maior empresa de construção de origem angolana.  Nesse projeto acumulei uma extensa experiência em obra, fui responsável por funções que iam desde a seleção e aprovisionamento de materiais até à preparação de todos os detalhes e a encomenda de materiais num contexto de isolamento total. Isto permitiu-me adquirir um conjunto de competências muito importantes e foi essa experiência, em conjunto com a rede de conhecimentos que fui adquirindo em Angola, que me levou a arriscar num negócio em nome próprio.

VE – Em termos do mercado de arquitetura, quais são as principais diferenças ente os dois países?

GNV – Bem, em primeiro lugar, era bom recordar que no início da minha aposta em Angola estávamos a falar de um mercado que crescia a dois dígitos por ano, mas onde quase tudo estava por fazer. Os mercados demoram tempo a amadurecer e nesse aspeto o mercado português é talvez um pouco mais esclarecido e evoluído em termos de desenho. Isto deve-se seguramente ao facto de Angola ter estado muito encerrada sobre si própria até ao final de 2002, num contexto de guerra que é conhecido. No entanto, fui assistindo a um aumento da sofisticação e do padrão de qualidade dos clientes.
De um ponto de vista mais técnico, projetar em Angola traz uma complexidade acrescida em obras bastante pequenas, seja pelas condicionantes do país, seja por causa das temperaturas que se fazem sentir e pela intensidade solar que é muito superior à média e bastante desgastante para os materiais. Outro ponto é a deficiência das redes de infraestruturas, que nos obrigam a criar redundâncias que em Portugal seriam desnecessárias, como por exemplo tanques de água e estações de bombagem, grupos geradores, etc.

VE – Como avalia o atual momento de crescimento do mercado imobiliário em Portugal, sobretudo em Lisboa e no Porto, caracterizado por um forte aumento de hotéis e alojamento local?

GNV – Acho uma excelente valorização do nosso património e um contributo incontestável para a economia do país. É claramente preferível vermos as nossas cidades valorizadas, revitalizadas e reconstruídas a “reboque” do turismo do que o que tínhamos há alguns anos, com extensas áreas das cidades ao abandono.
Foi a reboque desse turismo que vieram os investidores, ávidos de dar resposta às necessidades que foram surgindo. Seja por turistas que nos visitam por apenas uns dias, seja por aqueles que aqui compram casa com intenção de viver mais tempo.
Não podemos também menosprezar o impacto que os vistos Gold tiveram na promoção imobiliária, embora bem menor do que o turismo, assim como   a alteração da lei das rendas – entretanto revertida – que permitiu que se recuperassem inúmeros edifícios que, por falta de capacidade dos seus proprietários em promover a sua reabilitação, estavam condenados à ruína.
Muitos destes edifícios foram recuperados, suportados por uma ou mais das medidas já referidas, com o propósito de serem novamente colocadas no mercado já com nova vida.
Espero que as cidades portuguesas saibam adaptar-se, e que o próprio mercado saiba equilibrar algum excesso de alojamento local, com algumas dessas casas que hoje estão em AL a reverter para arrendamento de longa duração ou venda, a partir do momento em que a sua rentabilidade vá diminuindo.
O avanço da limitação de licenças em alguns bairros de Lisboa parece-me saudável para manter esse equilíbrio, e estou confiante que o mercado se encarregará de se ajustar às necessidades.
Parece-me, no entanto, que o atual momento não é apenas e só alavancado pelo turismo, mas também pela globalização em si. Uma viagem que dentro da Europa não custaria há uns anos menos de 400 ou 500 J pode hoje em dia custar 50 J, pelo que o preço da habitação em Portugal deixou de ser apenas comparado internamente para ser comparado globalmente. Lisboa e Porto concorrem hoje em dia com Milão, Paris, Madrid ou Barcelona como escolha para segunda ou até primeira habitação. E, nesse sentido, o nosso mercado é extremamente competitivo em termos de oferta, com preços mais baixos, num dos países mais seguros do Mundo conhecido pelo tempo ameno e um povo acolhedor.

VE – Qual é o nível de concorrência desleal atualmente sentida?

GNV – Existe em Portugal um número elevado de arquitetos, com duas consequências claras: uma oferta sobredimensionada para o mercado e a inevitável baixa de preços. Alguns gabinetes de arquitetura são imunes a este enquadramento, pelo seu curriculum e historial, mas a grande maioria da oferta compete pelas mesmas propostas em condições muito díspares. Alguns gabinetes trabalham de casa, sem grandes custos de estrutura (ou mesmo nenhuns), e promovem, por necessidade ou não, valores tão baixos que inviabilizam as margens de gabinetes que pagam custos fixos. Acontece que o cliente português sendo sensível ao preço, fica com uma perceção errada do real valor do trabalho do arquiteto, que é muito mais do que usar um computador, e ignora as vantagens que um bom profissional pode trazer e os problemas que pode antecipar e eliminar.
Mais do que falarmos de concorrência desleal, urge falar da responsabilidade da própria classe profissional que não tem sabido promover-se e valorizar o serviço que presta.

VE – Sente que em Portugal há demasiados custos de contexto, nomeadamente no plano fiscal e administrativo? Quais são as maiores dificuldades sentidas?

GNV – É inegável o peso dos custos de contexto, nomeadamente uma carga fiscal que literalmente asfixia a tesouraria dos gabinetes em especial os de menor dimensão. O nosso mercado é muito cíclico e não há nenhum arquiteto que não tenha já passado por fases de grande dificuldade em que não sabia se no final do mês conseguiria pagar todos os salários.

VE – Quais são os planos e as expectativas de crescimento no mercado português e no mercado angolano?

GNV – Angola vive uma fase muito complicada, sob um programa de intervenção do FMI, com uma moeda que está a sofrer uma fortíssima desvalorização e um grau de incerteza que retrai o investimento. Um investidor terá sempre de atender ao facto de que a economia angolana está muito dependente da importação e logo de acesso a divisas.
No entanto, Angola é um país muito rico e muito resiliente, e basta algum reinvestimento por parte das companhias petrolíferas internacionais – que já começou – e uma alteração dos valores de referência internacional do petróleo para a situação se inverter muito rapidamente e se assistir a uma mudança na conjuntura económica.
Estou convicto de que a resiliência para suportar um momento menos positivo será o fator determinante para quem investe em Angola e acredito que assistiremos a uma recuperação económica no futuro.
Já no caso português, estamos num ponto exatamente oposto desse ciclo. Tivemos alguns anos de crescimento e abundância no mercado imobiliário, com muito trabalho na arquitetura e na construção; poderemos estar a chegar a uma fase de desaceleração no investimento económico à medida que os potenciais retornos são menos apetecíveis, mas não devemos esquecer que Portugal é um mercado maduro e que compete a um nível global, pelo que essa desaceleração não significa necessariamente uma alteração acentuada nos preços e custos, mas uma estabilização dos mesmos.

VE – Que mensagem gostaria de transmitir?  

GNV – Gostaria de sublinhar a importância da escolha do cliente. Uma escolha que deve ser pela qualidade, competência e eficiência que justifiquem o preço pedido. Um bom serviço deve ser prestado por um profissional capaz, competente e ciente que o seu cliente merece que os orçamentos e prazos convencionados serão escrupulosamente cumpridos e a absoluta qualidade no resultado final será mantida.
LINKS
Galeria
artigos RELACIONADOS
PUBLICIDADE

𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 𝗖𝗢𝗻𝗩𝗜𝗗𝗮 𝗧𝗼𝗱𝗼𝘀

Uma ação informal por um bom motivo

Registe a sua Empresa

Crie a sua conta gratuitamente e promova os produtos da sua empresa.