Construção modular versus construção tradicional

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Construção modular versus construção tradicional | Mitos, dogmas e receios dos avanços tecnológicos na construção

“O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si”
Bernard Shaw

A vida não pára. A terra continua a girar à volta do sol, e a marcha do tempo é imparável. Como os grãos de areia, que lenta, mas inexoravelmente, escoam na ampulheta, também a humanidade sofre enormes transformações em todas as áreas da nossa vida. Nas ciências, na tecnologia, nas artes, os progressos fazem-se sentir, quase sempre para trazer consigo melhor e maior qualidade de vida, mais e melhores opções.
Os enormes avanços tecnológicos também se fazem sentir no mundo da construção. Por necessidade, pois com o êxodo da população rural para as cidades, que se debatem com problemas de falta de espaço, de elevada densidade populacional, ou de dificuldades na mobilidade, tem sido necessário repensar a cidade e repensar a construção.
Não apenas por estes fatores, mas também por melhores critérios de sustentabilidade, de conforto, e de economia, o mundo da construção tem sido “abanado” por novos e melhores conceitos, novas e mais inovadoras soluções construtivas, que irão mudar a face das cidades e trazer consigo melhores condições para um direito consagrado na constituição portuguesa: o direito à habitação digna.

Por força destas circunstancias, hoje podemos ver um conjunto de novas opções de construção. Desde as casas feitas com painéis autoportantes, como são os casos das moradias em madeira ou do “LSF-Light Steel Frame”, até aos sistemas modulares de betão, passando pelos sistemas com estrutura metálica, o que não falta são diferentes opções no mercado. São muitos os sistemas que se apresentam no mercado, a questão é se são melhores, comparativamente à construção tradicional.
Um pouco como em tudo o que nos rodeia nesta orgia mediática em que o mundo se transformou, o excesso pode nos confundir. Com tanta informação sobre construção, a dificuldade será a de filtrar devidamente o que é avanço tecnológico, daquilo que é apenas charlatanice. E por isso, não é fácil olhar com seriedade para as opções que conhecemos pior. Na duvida, fazemos o que os nossos pais já conheciam, e quando se coloca a questão de construir a sua própria casa, não queremos apostas arriscadas, queremos certezas. Afinal, será um dos projetos mais importantes na nossa vida, e certamente um dos mais dispendiosos.

Por isso, enquanto arquiteto — e tendo dedicado uma grande parte da minha vida profissional na investigação de tecnologias de construção — achei importante escrever sobre os muitos mitos, dogmas, enganos e desinformação que tenho visto grassar na internet, sobre os novos processos construtivos. E são muitos, quase todos motivados por ignorância e receio, mas também porque há muitos vendilhões no lucrativo mundo da construção:
O mito de que só a construção tradicional tem qualidade é manifestamente falso. De facto, há hoje melhores e mais sustentáveis soluções construtivas na área da construção modular;
O dogma de que o modular é sempre uma solução mais frágil do que a construção tradicional é manifestamente mentirosa. De facto, existem sistemas modulares com estrutura metálica, que dão muito melhores garantias de robustez, durabilidade e estabilidade, mesmo em cenários de catástrofe;
Receios de que novas tecnologias estejam ainda imberbes e que não passaram pela marca do tempo, são também receios infundados. Porque já se constrói com módulos construtivos há muitos anos. Basta dizer que as casas de madeira são a regra na habitação dos EUA, e há varias décadas que ali se constrói com sistemas pré-fabricados de madeira. E quanto aos edifícios, as estruturas metálicas são usadas universalmente também há muito tempo e com excelentes resultados;
O medo de que a construção modular não cumpre satisfatoriamente os mesmos padrões de exigência do que a construção tradicional. Cumpre e normalmente excede largamente os níveis térmicos e acústicos quando comparado com uma construção tradicional standard. Porque ambos os processos construtivos têm de cumprir com as premissas das câmaras municipais, que por sua vez remetem para o cumprimento da exigente legislação europeia e portuguesa. Ou seja, antes mesmo de se construir qualquer moradia, a mesma tem de ser licenciada no município, e como tal, tem de apresentar os devidos projetos de licenciamento, com os devidos compromissos de boa construção.
(…)
Estes são alguns dos receios mais frequentes que vi ao longo da minha vida profissional, mas não são os únicos. A verdade é que hoje, as tecnologias de construção são melhores e mais avançadas, e existem hoje no mercado excelentes soluções no campo da construção modular, tanto para casas como para edifícios. A questão é estar bem informado, e saber bem o que se compra. E a quem se compra.

Este artigo não serve para o leitor passar a ser um entendido em construção, para isso teria de estudar e investigar. Mas se a sua ideia é conseguir discernir o que interessa ou não, o que tem qualidade ou não, o que é sério ou não, então o primeiro conselho será o de que não deve acreditar em propostas onde o preço não seja com tudo incluído e “chave na mão”. O que vejo por aí são muitas empresas a vender casas por preços muito baratos, mas depois a laje tem de ser feita à parte, a cozinha não esta incluída, os roupeiros também não, e por aí fora. Propostas destas, está o leitor já avisado, não são sérias.
Mas o objetivo também não é o de deixar o leitor ainda mais nervoso. Há boas soluções construtivas e empresas sérias. Há pouco falei do sistema LSF que, apesar de não se apresentar mais económico, tem sido muito bem-sucedido um pouco por todo o mundo. Também na área das casas em madeira, temos bons exemplos em Portugal, como foi o caso das casas construídas no empreendimento “Pestana Troia”. São casas belas, de elevada qualidade, embora também aqui o preço não seja mais vantajoso, quando comparado à construção tradicional.
Os casos acima mencionados são exclusivamente para a construção de moradias com um máximo de dois pisos. Coisa diferente são os edifícios com múltiplos pisos, que têm forçosamente de ter uma estrutura que dê todas as garantias que as exigentes legislações portuguesas e europeias preveem.
Já acima falei das soluções de madeira e de LSF, ambos com paredes autoportantes (são casas sem uma estrutura, ou por outro lado, as paredes suportam-se independentemente, e no seu conjunto estruturam o edifício). Mas é importante voltar a referir que também existem sistemas modulares com estrutura metálica, que na minha opinião, são as que têm maior qualidade e prestam melhores garantias. Porque têm todas as vantagens da construção tradicional (oferecendo o mesmo tipo de processo ao nível das fundações e sapatas com betão, mas substituindo a tradicional estrutura em betão armado, por uma estrutura metálica que oferece mais vantagens), e nenhuma desvantagem da construção modular (nos restantes sistemas modulares o máximo são 2 pisos, mas com estrutura metálica essa condição desparece). Nos próximos artigos irei me debruçar mais sobre este sistema, mas caso queira ver um bom exemplo de um edifício desenvolvido com estrutura metálica, pode ver em:

Por tudo que já foi dito, posso dizer sem qualquer duvida, de que os avanços na construção permitiram trazer outros processos e sistemas construtivos, que prestam mais e melhores garantias do que a construção tradicional. Porque a construção modular é muito mais rápida e mais sustentável. Porque, uma vez que é feita em estaleiro, oferece soluções mais rigorosas e testadas do que a construção modular. É verdade que nem sempre é mais económica, mas é possível poupar significativamente se escolhermos bem o sistema construtivo que melhor se adapta às nossas necessidades, e a empresa que o comercializa ou constrói. Por isso, escolher construção modular pode representar uma escolha tecnicamente melhor, mais económica, mais rápida, mais sustentável e com menor manutenção.
Mas qual o melhor sistema modular? Que empresas operam com qualidade e seriedade? Como devo escolher o melhor sistema construtivo para a minha moradia?

Artigo de Opinião de Bruno Martins . Jan 30, 2021
Arquiteto de profissão, investigador, foi ainda Vereador na Câmara Municipal do Funchal, com os pelouros do urbanismo, planeamento, reabilitação e mobilidade

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