Alexandra Paio

Em modo ‘flâneur’

Categorias: Arquitetura

Para quem ama as cidades, o modo ‘flâneur’ é quando se pode fixar imagens “sem mapa e com uma absurda sensação de descobridor”, como escreveu o arquiteto Siza Vieira.

Nas férias é tempo de nos tornarmos observadores e de vaguearmos, quais flâneurs, pelas cidades. Uma homenagem ao filósofo alemão Walter Benjamin, que nos apresenta o flâneur como um transeunte que caminha pelas ruas, anónimo pela multidão, capturado pela deriva própria da deambulação livre. O viajante é “um ser eternamente inquieto, eternamente agitado que vivencia, experimenta, conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas dos prédios”.

As ruas da cidade tornam-se numa morada do coletivo experienciado. Um passeio pela história da arquitetura e pela criatividade do ser humano, não só nos lugares por onde se passa, mas, sobretudo, pela imaginação de quem os criou e de quem neles vive. Porque a  arquitetura é coisa para ser vivida, como diria o arquiteto brasileiro Lúcio Costa, resgatar o ócio, o tempo livre e o lazer é, para o arquiteto, o momento de partir e alimentar a sua criatividade.

Para Siza Vieira é a oportunidade de deixar para trás o stresse e passar ao prazer dos desenhos de viagem. Recorrendo à Bic, é o tempo para fixar imagens “sem mapa e com uma absurda sensação de descobridor”. Tratar-se de “sacrificar muita coisa, ver apenas o que imediatamente  atrai. Aprender desmedidamente; o que aprendemos reaparece, dissolvido nos riscos que depois traçamos.” […] Num intervalo de verdadeira viagem os olhos, e por eles a mente, ganham insuspeita capacidade”.

Através dos registos escritos e gráficos é possível compreender como as viagens são uma reflexão crítica acerca da experiência sensorial da arquitetura dos arquitetos franco-suíço Le Coubusier e português Fernando Távora. Instantes de verdadeiro prazer na ordenação das observações inquietas de conhecimento.

Le Corbusier viveu intensamente as narrativas de viagem. O seu livro “Viagem do Oriente” é um testemunho pessoal crítico sobre uma exploração criativa pelas cidades, que começou em Berlim e atravessou os Balcãs, passando por Istambul e Atenas. O voyageur descreveu as paisagens e os homens que as habitavam, revelando um processo de descoberta que valoriza sempre a emoção perante o desconhecido do início do século XX. Uma leitura e interpretação da emoção do real tangível e intangível.

Segundo a arquiteta Susana Ventura, Távora, o nosso Marco Polo, representa o espírito maior que continua a imbuir “qualquer arquitecto que deseje aprender arquitectura, viajando”. As suas viagens, da Grécia ao Japão, revelam o observador atento que vai para além do turista que tira fotografias para colocar nas redes sociais.

O modo flâneur é para todos os arquitetos não apenas um momento de fuga à rotina, ou um diário de registos, mas uma ferramenta experimental de influência do seu imaginário vivenciado. Uma experiência diferenciada para quem ama cidades e a sua verdadeira essência. Em férias, à deriva por uma qualquer cidade.

Artigo publicado no © Jornal Económico . Artigo de Opinião de 

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