Entrevista a Adriana Floret, CEO da Floret Arquitectura

Entrevista a Adriana Floret, CEO da Floret Arquitectura | Realizada por Susana Correia

Sedeado no Porto, desde a sua fundação, em 2000, o atelier da arquitecta Adriana Floret é hoje uma referência quando o tema é a reabilitação do edificado existente. Casa de Gólgota, EXMO Hotel e Menina Colina Guest House são três dos seus projetos mais recentes e exemplos paradigmáticos de uma reabilitação de excelência.

Começamos pelas apresentações e para isso pedíamos-lhe para sugerir uma obra que seja representativa do vosso trabalho?

É difícil identificar apenas uma obra. Mas temos três obras mais recentes que de alguma forma nos identifica: Casa de Gólgota, Exmo Hotel e Menina Colina Guest House. Todas elas são obras de reabilitação onde a pré-existência foi reabilitada/adaptada de forma a responder ao programa.

Onde podemos encontrar o atelier e a equipa?

Estamos, desde a nossa fundação em 2000, sedeados no Porto. Neste momento o atelier fica próximo da Praça do Marquês. O atelier está muito orientado para a reabilitação do edificado existente. Desde 2000 que temos vindo a desenvolver uma série de projetos de reabilitação, em especial na cidade do Porto. Já fomos também premiados com três projetos distintos: “Prémio Nacional de Reabilitação” com o projeto do 1872 River House; “Prémio Reabilitação na Construção” para melhor reabilitação habitacional à “Casa de Cedofeita” e na edição 2020 dos “Prémios Lusófonos de Arquitectura e Design de Interiores” na categoria hotelaria com o projecto do EXMO Hotel.

Nos últimos anos, temos sido também mais convidados para elaboração de projetos de construção nova, nomeadamente em obras de habitação coletiva no Grande Porto. Muitas destas obras vão iniciar em 2021 e em breve teremos projetos novos concluídos, bem diferentes do que tem sido a nossa atuação nos últimos 20 anos.

Neste momento somos 6 arquitetos residentes, aos quais adicionamos algumas parcerias que vão sendo feitas para projetos específicos e à medida das nossas necessidades.

Quais as principais características que marcam as vossas obras?

Sem dúvida que o respeito pelo Património existente. Trabalhar em reabilitação é algo que me interessa precisamente por existir algo que temos de compreender, de estudar e por isso preservar. Trabalhamos com a memória que todos nós temos da nossa cidade, dos nossos prédios. E os prédios não são só as fachadas, é todo um conjunto de elementos construtivos e decorativos que interessa preservar e reabilitar.

E, entre os projetos mais emblemáticos do vosso portfólio, quais destacariam?

O projeto da Guest House Menina Colina é um exemplo perfeito para ilustrar o respeito que temos pelos “nossos prédios”. Foi um projeto extremamente difícil porque o edifício tinha elementos decorativos que quisemos manter e restaurar e o programa era exigente. A adequação do edifício ao programa de hotel com introdução de todas as infraestruturas necessárias foi um exercício rigoroso e que exigiu um esforço na coordenação entre toda a equipa projetista. Mas no final valeu a pena. Conseguimos recuperar todos os elementos decorativos, mantendo praticamente toda a estrutura original.

Cumprido um ano desde a chegada da Covid-19, qual têm sentido o impacto da pandemia no mercado da arquitetura? E, especificamente, na prática do vosso atelier?

O impacto nos gabinetes de arquitetura provavelmente vai acontecer mais à frente se esta pandemia continuar por muito mais tempo. No caso concreto do nosso atelier, os nossos projetos tiveram continuidade, não tivemos nenhuma desistência. Houve um grande projeto que estamos a desenvolver que, podemos dizer, estar numa velocidade mais devagar por uma questão de cautela do promotor, mas os restantes estão em desenvolvimento. Um trabalho de consultoria que diminuiu foi o de avaliação da viabilidade de construção de alguns prédios/terrenos. Era um serviço que prestávamos aos nossos clientes, alguns estrangeiros e que, por força desta pandemia não estamos a fazer com a mesma regularidade. Isto leva-nos a crer que os promotores estão cautelosos em novos investimentos e aí a minha referência inicial. Se esta pandemia continuar, os investimentos podem não retornar como esperamos e os gabinetes podem sentir mais dificuldades num futuro próximo. De qualquer forma, sentimos da parte de clientes estrangeiros muita vontade em continuar o investimento em Portugal.

Atualmente, quantos projetos têm em carteira (em que setores e em que localizações)? E quais as perspetivas ao nível de novas encomendas para este ano?

Neste momento temos 46 projetos ativos no atelier que estão diluídos nas diversas fases desde estudo prévio, licenciamento, execução e obra. Maioritariamente são projetos residenciais, sendo vinte com a função de habitação unifamiliar e dezassete de habitação coletiva. Temos ainda um projeto ligado a uma unidade industrial, um a uma entidade de ensino superior, quatro ao turismo e um de serviços (mais propriamente a um espaço de coworking). Temos ainda dois projetos de empreendimentos mistos, com funções que juntam habitação, comércio, serviços e hotelaria. A maior parte dos nossos projetos estão localizados no Grande Porto, mas temos também projetos a decorrer em Amarante, Aveiro, Braga, Freixo de Espada-a-Cinta, Lamego, Ovar e Viseu.

Estamos muito otimistas em relação a este ano. A verdade é que a minha geração tem sobrevivido de crise em crise. Estava à espera de que 2020 fosse um dos nossos melhores anos no atelier e não foi…e por isso a resiliência é uma característica intrínseca à minha maneira de estar.

Olhando para o estado atual do mercado imobiliário e da construção, onde identificam o maior potencial de crescimento em Portugal?

Eu acredito no mercado residencial. Temos o Plano de Recuperação e Resiliência onde está previsto para Portugal muito dinheiro a fundo perdido para a habitação e onde o investimento terá de ser feito até 2026. Neste sentido a habitação será alvo de muito investimento tanto privado como público.

Com toda esta pandemia também, acredito que a habitação, a casa, será algo que vamos ter de repensar. A casa terá de ser algo que permita o teletrabalho de forma confortável, onde a família possa coabitar e exercer as funções que anteriormente não faziam com tanta frequência em casa. A casa terá de ter espaço exterior ou varandas. E nós já estamos a sentir essa vontade nas encomendas. As pessoas começaram a pensar na segunda casa, e estamos a desenvolver vários projetos de pessoas que habitam no Porto e querem uma segunda casa para resolver a necessidade de novos confinamentos em conforto.

Nesta fase, o mercado continua muito voltado para a reabilitação e a regeneração urbana. A seu ver, qual é o papel do arquiteto nesse processo que, afinal, é uma prioridade a nível nacional?

Com toda esta pandemia, esta tornou ainda mais notório a precaridade do nosso parque residencial e a reabilitação deste é urgente. As reabilitações fazem-se em décadas e Portugal ainda está muito longe de ter o seu parque residencial em condições mínimas de habitabilidade. O arquiteto deve aproveitar os recursos que tem de forma eficaz para conseguir apoiar e projetar de forma coerente a conseguir-se habitações melhores e condignas para todas as classes sociais.

Outra questão-chave e que é cada vez mais incontornável é a sustentabilidade do edificado, não só do ponto de vista energético, mas também ambiental e social. Como é que a arquitetura deve contribuir para este desígnio?

Portugal já não tem há décadas uma política de habitação. O estado aceitou o crédito facilitado concedido pela banca para se “demitir” desta função. Com isso construiu-se nas periferias, as pessoas vivem cada vez mais longe do trabalho, fazendo com o que percam horas em transportes, habitando em bairros com muito pouca qualidade construtiva. Recentemente, fala-se no modelo urbano das cidades dos 15 minutos que várias metrópoles estão a adotar. A ideia é ter tudo num raio de 15 minutos no raio da residência. O teletrabalho pode ser por isso uma ajuda para algumas pessoas. Mas esta não é a realidade de todas as famílias, nem todos os trabalhos são feitos em regime de teletrabalho e as classes sociais mais desfavorecidas são as mais afetadas porque não têm empregos que possibilitem o teletrabalho. Por isso o papel da arquitetura é importantíssimo. Temos de aproveitar este impulso do PRR para conseguir reduzir este impacto negativo na vida das pessoas. Melhorar o parque edificado é importante, mas também é preciso e criar/melhorar os espaços exteriores.

E, tendo em conta o estado atual do parque edificado nacional, quais devem ser as prioridades para o tornar mais sustentável?

A prioridade é conseguir uma habitação condigna para as famílias. Com esta pandemia foi ainda mais notório que o parque residencial está degradado, não tem conforto. Somos o país da Europa com melhor clima e onde mais frio passamos dentro das nossas casas. A reabilitação que se pretende às habitações deve conferir eficiência energética e conforto térmico. É preciso melhorar toda a envolvente dos edifícios de forma a melhorar os isolamentos, adotar caixilharias eficazes e instalar sistemas de aquecimento nas casas eficientes.

Quando prescreve os materiais de construção, que características tem em consideração?

Tento sempre dar prioridade à materiais portugueses ou fabricados em Portugal. À parte disso a manutenção e a durabilidade são características cada vez mais importantes. E por fim e, não menos importante, a estética. Quando esta é aliada às duas restantes referidas, tanto melhor.

Entrevista publicada no site (re)portugal por Susana Correia

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