Entrevista a Duarte Franco da Rosa

Entrevista a Duarte Franco da Rosa . Correio do Ribatejo 

“A cada projecto temos a oportunidade de responder, completar ou mesmo de estabelecer uma narrativa com o território”

Duarte Franco da Rosa, estudante finalista do Mestrado Integrado em Arquitectura da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, apresentou à junta de freguesia de São Vicente do Paúl e Vale de Figueira, no concelho de Santarém, uma proposta de requalificação do Jardim.

A proposta visa a criação de uma estrutura que permita uma utilização flexível para actividades lúdicas, comerciais entre outras, sempre com o intuito de “promover o encontro e a utilização daquele espaço”.

A proposta consiste numa “pérgula metálica (removível) desenhada um pouco à imagem de uma acrópole grega, que é, do ponto de vista territorial e pela concentração de equipamentos, como se pode denominar aquele pólo que se constitui”.

“Embora saiba que não é a melhor altura para realizar obras públicas, penso que é algo que valoriza, com elegância, o espaço em causa, mediante uma intervenção com simplicidade informada mas acrescendo complexidade na vivência deste espaço público que, para todos os efeitos, tem o potencial de constituir um fórum de encontro comunitário”, afirma o estudante finalista de Arquitectura, bolseiro de Mérito pela Universidade de Lisboa.

Duarte Franco da Rosa, que tem feito de São Vicente do Paúl a sua “segunda casa”, nestes tempos de pandemia, trabalhou como estagiário no Atelier PDARQ sob recomendação do Arquitecto João Luís Carrilho da Graça, primeiro professor na faculdade, foi já distinguido com Menção Honrosa no concurso Internacional de Arquitectura Site Temple: Forte de Vera Cruz da Figueira, Algarve, em conjunto com três colegas de curso.

Porque razão decidiu apresentar um projecto para o Jardim de S. Vicente do Paúl?

Esta decisão partiu da minha consciência e dever enquanto cidadão, com interesse em cuidar do espaço que partilho com a comunidade, o que pode ser feito através das nossas diferentes valências. Sendo estudante de Arquitectura numa fase de charneira entre a faculdade e a vida profissional, foi assim que me manifestei. O que pretendi foi promover a discussão em torno deste espaço, pondo em evidencia a sua qualidade e abrindo, tanto quanto possível, caminho para mais propostas. Em momento algum pensei que a minha ideia seria aceite e concretizada de imediato, sei que há exigências no que diz respeito a intervenções no espaço público e não me sentiria bem, por exemplo, se a restante população não pudesse ter voto na matéria. Embora tenha assumido essa conotação, a proposta não consiste numa requalificação do Jardim, mas em algo complementar ao existente, que já é bastante qualificado. Caso contrário não se trataria de uma adição, mas sim de uma remodelação, o que seria presunçoso e ignorante da minha parte. Nos últimos cinco anos aprendi que o que se propõe tem de ser pensado em continuidade com o território, construído ou natural. É até uma questão de sustentabilidade, pois o solo é também um recurso cada vez mais escasso, o que obriga a repensar a profissão, que se estende cada vez mais a operações cirúrgicas que, pessoalmente, considero muito interessantes. E diria que proposta se insere nesse campo e é feita com esse espírito e não vejo problema nenhum se a prática no resto da minha vida se basear em pequenas intervenções. Com pouco se faz muito. Em Arquitectura, pelo menos, assim parece ser.

Em traços gerais, o que propõe para o espaço?

O que proponho é, na minha óptica, uma “prótese” complementar a um corpo que me parece incompleto. Tecnicamente, consiste num caramanchão que é, tradicionalmente, um elemento paisagístico ou uma peça de mobiliário urbano. Embora possa ser reduzido a um dispositivo de sombreamento, a sua dimensão e flexibilidade permitiriam sustentar diferentes actividades, podendo servir nomeadamente como ponto de venda de produtos locais, conforme é ilustrado, dada a existência de agricultura de subsistência na zona. Sobretudo, visa-se a optimização da utilização do jardim como espaço de permanência e contacto intergeracional que é, no fundo, o que constitui aquele Pólo, no qual se centram vários equipamentos, tendo o potencial de funcionar como fórum de encontro comunitário de utilização assídua.

Como é mostrado nas imagens, a estrutura define tridimensionalmente um espaço que já é sugerido (em planta) pela materialidade no pavimento que varia em relação à calçada, predominante. Isto indicia uma hierarquia no desenho, dando até contorno a uma espécie de palco. Embora seja compreensível a necessidade de impermeabilizar a área, a falta de sombreamento torna quase impossível uma permanência longa durante o dia em grande ou maior parte do jardim, sobretudo no Verão em que se atingem altas temperaturas.

Conforme aprendi com o Arq. João Luís Carrilho da Graça, o território é o ponto de partida. A cada projecto há a oportunidade de estabelecer, completar e reactivar uma narrativa ou significado e poética que o território, de modo mais ou menos evidente, comunica e que podem ser clarificados pelas nossas intervenções, invocando ideias ou estabelecendo metáforas que ultrapassam a própria Arquitectura. E isto não é necessariamente um exercício difícil. O jardim de S. Vicente do Paúl, por exemplo, não está ali por acaso. A sua posição geográfica determina um domínio sobre o território que o antecede. Isto obedece a princípios já há muito aplicados. No tempo da Grécia Antiga, as acrópoles eram construídas no ponto mais elevado, que concentravam vários equipamentos, nomeadamente os grandes templos que constituíam (e ainda constituem) notáveis marcos territoriais. Esta associação estende-se ao desenho da proposta, que invoca essa mesma ideia sem mimetizar uma linguagem com um tempo próprio.

Ao mesmo tempo, conserva-se a dualidade entre o desenho racional patente no jardim e a vegetação que, mesmo dentro dos confinamentos desse desenho, introduz uma dose de “descontrolo”, intrínseco à Natureza. Na estação fria o jardim tem uma imagem, na estação quente tem outra: o espaço transfigura-se reagindo ao tempo, como nós também reagimos, por sermos sensíveis ao mundo. E este mesmo fenómeno é então resgatado e transposto para a proposta: uma cobertura com um desenho racional, completado pelas plantas que a trepam a partir dos canteiros que servem de embasamento para a estrutura. Além disso o tipo de construção permitiria que, por hipótese, esta fosse assemblada no Verão e retirada no Inverno, se assim se quisesse.

O título “Modernidade Rural” é uma resposta à afirmação, em tom pejorativo, que Portugal ainda é um “país rural”, assumindo que o progresso implica a expansão das cidades e reduzindo a Cultura ao mediatismo e entretenimento. Penso, em primeiro lugar, que o meio rural se tem modernizado, por abraçar o progresso tecnológico sem espelhar necessariamente as dinâmicas das grandes cidades. Além disso, em contacto com os meus vizinhos, identifico uma face da Cultura para a qual Agostinho da Silva nos alertava: um Conhecimento que se prende com a Vida, de quem cultiva o próprio alimento, de quem resolve os problemas com um pragmatismo ingénuo ou talvez genial, traduzido em soluções que nos desarmam por serem tão radicais e inesperadas. A solução mais óbvia e simples é muitas vezes a mais correta, mas facilmente é descartada pela vontade de marcar a diferença, que acaba por complicar tudo. Conforme tenho experienciado, muitas vezes a chegada é o que se imaginaria ser a resposta mais imediata. Felizmente ganhei essa consciência a tempo de poder usar isso a meu favor ao longo de todo o curso.

Como surgiu o interesse pela arquitectura?

Eu só me apaixonei verdadeiramente pela Arquitectura na faculdade, com uma ideia mais clara sobre a disciplina. Antes de contactarmos com a atividade, pensamos que um dia vamos conceber grandes obras de arte pensamos que toda a gente nos respeitará por isso. Mas antes que tivesse idade para sequer pensar assim, o que me fez ficar interessado à partida foi testemunhar a construção da minha casa em S. Vicente do Paúl. Lembro-me perfeitamente desses tempos e do “cheiro de obra” que ficou impregnado na minha memória. Lembro-me também de ver o meu pai a desenhar a casa em conjunto com a minha mãe e este processo criador é incrivelmente contagiante. O que fiz face a isto foi também desenhar sucessivamente a mesma casa, tentando idealizar como esta ficaria. Em jeito de brincadeira, as pessoas diziam “este vai ser arquitecto”, o que para uma criança é altamente estimulante e queremos inocentemente responder a essa espectativa de modo mais sério do que o próprio palpite. Mas não houve nem uma certeza nem uma pressão até aproximadamente ao tempo em que tive de optar por uma área de estudos no ensino secundário. Curiosamente isto coincide com a altura em que Eduardo Souto de Moura recebe o Pritzker. Sendo um Arquitecto Português com tal distinção, penso que isso terá consolidado a minha motivação face a esta ideia.

A partir de aí investi fortemente nos estudos para ingressar no curso de Arquitectura, ainda que com uma espectativa errada sobre o que me esperava. Posso dizer que o primeiro dia na faculdade foi um choque. Eu tive a sorte de ter como primeiros professores o Arq. João Luís Carrilho da Graça e a Arq. Inês Lobo, que destruíram todos os meus preconceitos. Experienciei um embate violento com a realidade e certamente não fui o único. Apesar de ter sido um processo duro e doloroso, recordo-o com muito orgulho porque culminou numa apresentação muito bem-sucedida do meu primeiro trabalho, no exame final, que acredito ter sido o momento em que me tornei adulto, o que se reflectia na maturidade que o meu interesse pela Arquitectura ganhara e que é evidenciada a partir daquilo que propomos e até pelo nosso discurso.

Como define o seu estilo?

Eu evito falar de estilos para contrariar uma vertente “pornográfica” que, neste âmbito, se traduz no conceito de “Arquitectura de Revista” em que o centro da discussão é o Arquitecto e o objecto que concebe, alheio a tudo o resto. Penso, aliás, que a imposição de um estilo ou das idiossincrasias tem sido prejudicial nomeadamente no que diz respeito a intervenções sobre o Património, à escala global.

Como faço questão de repetir, fui ensinado para tomar como ponto de partida o Território, que não se reduz à sua morfologia, mas que se estende à sua história, à população, suas dinâmicas, etc. Uma estratégia que não dispenso é a de desenhar à mão, colocando-me na posição de “criador” do lugar sobre o qual irei trabalhar. Enquanto criadores tendemos a não estragar aquilo que fizemos antes e por isso tendencialmente fazemos uma continuação natural desse “desenho”. É a minha maneira de me constranger e quantos mais limites melhor, mais certezas e menos espaço para erros tenho. É também assim que consigo desconstruir a realidade para compreendê-la e responder em conformidade, tentando não afectar a sua ordem inicial. Não conservo, assim, um estilo, mas sim uma abordagem que inviabiliza a existência de uma linguagem específica. E isso é uma vantagem, porque não me compromete nem prende a nada nem a nenhuma espectativa.

O que caracteriza as suas obras?

Insisto em idealizar cada projecto como a parte de um todo. Esse “todo” varia na sua escala, dependendo do alcance e presença do projecto, do seu propósito e outras contingências determinadas à partida. Em qualquer das situações, uma coisa é certa: a rejeição de uma análise prosaica da realidade que é combatida criando e/ou preservando um conceito forte, que pode ser perdido ao sobrepujar visualmente a proposta, comprometendo não só a sua leitura como a do lugar no seu todo. Por isso tento manter uma certa pureza e não empregar todas as ideias de uma só vez, algo com que temos de nos conformar, mais tarde ou mais cedo, a bem ou a mal.

Qual é a obra de arquitectura que mais admira e considera uma referência no panorama mundial?

Há várias obras que admiro e me inspiram, não necessariamente do ponto de vista formal/estético, mas a nível conceptual, pela apropriação e aplicação de determinadas ideias traduzidas numa solução arquitetónica. Estas inserem-se num largo espectro temporal, do Panteão de Roma ao Campo das Cebolas. Enumerá-las todas seria impossível e eu descubro obras novas todos os dias.

No tempo em que trabalhei para o Arq. Pedro Domingos, sob recomendação do Arq. Carrilho da Graça, desenvolvi um especial interesse pela tipologia das Cartuxas que, a propósito do concurso para o Centro de Educação e Cultura da Quarteira, foi elegantemente reinterpretada, à luz de um programa específico, na proposta que acabou por ser a vencedora. Nesse contexto, foi-me designada a tarefa de pesquisar sobre a mesma, e a partir de aí desenvolvi uma paixão obsessiva à qual dei continuidade até hoje porque constitui uma das melhores hipóteses de resposta à abordagem que me proponho a respeitar.

Quais os grandes nomes da arquitectura que serão sempre uma referência para si?

É uma lista interminável. Há nomes que são um clichê referir, como Mies van der Rohe, Khan, Rossi, Barragán, Paulo Mendes da Rocha… Não sou alheio a esses nomes, nem a outros que marcaram a nossa Arquitectura como Nuno Teotónio Pereira e Gonçalo Byrne. Admito que tenho uma especial admiração e carinho pelo Arq. Carrilho da Graça, pela Arq. Inês Lobo e pelo Arq. Pedro Domingos, que estão na base da minha formação. Em paralelo tenho uma enorme admiração pelo Arq. Siza Vieira, assim como por Souto de Moura. Sobretudo no caso de Álvaro Siza admiro como este se reinventou ao longo da sua carreira e porque não só está por detrás de obras importantíssimas que já são tidas como Património Cultural, como nunca negligenciou o tema da Habitação.

Ultimamente tenho também estado especialmente ao trabalho de Pedro Matos Gameiro, que acredito que será cada vez mais falado, tal é a sua qualidade.

Numa fase em que o mercado se volta para a recuperação e reabilitação do património edificado, qual é o papel do arquitecto nesse processo?

Penso que não há nada a lamentar relativamente às mudanças que a profissão tem sofrido. Há problemas sérios e começo a tomar consciência deles, mas grande parte já se verificava antes. O certo é que a Arquitectura provou ser uma actividade que não é incomportável nem impraticável, capaz de se recalibrar perante as urgências de cada tempo e contexto. Os arquitectos não só têm um papel na construção da Cidade como na sua gestão, enquanto Património, que é um tema sensível e que tem assumido protagonismo, dando até lugar a algumas polémicas. Por um lado, verifica-se uma desadequação de propostas vencedoras de concursos que parecem já exigir um conjunto de parâmetros que dificultam, à partida, uma abordagem correcta. Por outro lado, há um fenómeno interessante que começa a notar-se que é a crescente participação e interesse da população através de petições que visam salvaguardar o nosso património e a saúde ambiental, tentando impedir a construção de certos edifícios e até pedindo a demolição de outros. Embora acho que isso possa constituir um perigo em certas circunstâncias e mesmo para a prática dos arquitectos, não deixa de ser um sinal de que o interesse colectivo agora dispõe de plataformas para se manifestar e as posições que possamos considerar inconvenientes são algo que temos de respeitar como uma das implicações da Liberdade de Expressão. Mas deve haver ora um respeito pela profissão, ora um cuidado acrescido nas intervenções que tocam no Património. Haja ou não uma progressiva inclusão da população, que se sinta mais transparência nas tomadas de decisão, de modo a evitar revisionismos tardios que se traduzem numa discussão sobre danos irreversíveis para a cidade, porque falamos de um processo de construção lento e dispendioso. Mas acredito que se faça o melhor possível e confio que temos entidades competentes para desempenhar esta função.

Qual é o papel que atribui à arquitectura enquanto elemento de valorização dos espaços e das experiências que proporcionam?

Uma vez, o Arq. Pedro Brandão, ex-presidente da então chamada Associação de Arquitectos, hoje Ordem dos Arquitectos, disse-me algo que não esqueci: “Não há espaço que faça feliz, quem não seja já feliz”. O meu orientador da Tese Final de Mestrado, Prof. Doutor Miguel Baptista-Bastos, complementa esta ideia ao dizer que enquanto arquitectos, não temos o papel de mudar mundo, mas sim de melhorá-lo. A ilação que faço é que não podemos pensar que conseguimos resolver todos os problemas. Provavelmente, na melhor das hipóteses, iremos substituir as questões existentes por outras, talvez mais fáceis de gerir. E o funcionamento da nossa sociedade parece mais resumir-se a uma gestão de problemas do que à sua resolução.

Enquanto arquitecto espero, pelo menos, despertar uma atenção para o valor das coisas mais mundanas. Proporcionar plataformas que sustentem as dinâmicas que já existem ou que permitam introduzir outras seriam incompatíveis, mas que se possam conciliar através da Arquitectura, um dos objectivos do meu projecto final de curso. E que seja a propósito disto que se criem experiências fortes para quem for espectador e habitante do mundo que se estende através do que construímos, revelando uma beleza que, de outro modo, permaneceria oculta.

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