Estudo Prévio

Entrevista a Inês Lobo . Formação

É com enorme prazer que temos como convidada a arquiteta e professora Inês Lobo. Seja bem-vinda! Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico, de alguns professores marcantes, de alguns exercícios que foram importantes e que ainda hoje se recorde.

Eu entrei para a Escola do Porto e isso começa por ser a coisa mais marcante do meu percurso académico. Infelizmente, tive que me vir embora ao fim de um ano, por razões familiares. Mas tive a sorte de apanhar um conjunto de professores dos quais ainda hoje sou amiga. Professores como o Sérgio Fernandez (que era o coordenador do primeiro ano) e o Professor Henrique Carvalho (que infelizmente já faleceu). E tinha História com o Professor Fernando Távora.

O curso era semelhante ao curso da Universidade Autónoma de hoje. Era um curso muito pequeno. Nós éramos uns setenta alunos no primeiro ano e tínhamos aulas dentro da mesma sala, num pavilhão muito bonito. E era bastante intenso, com uma relação muito direta com os professores, que eram incansáveis. Foi uma experiência muito interessante. A maior parte dos alunos era de fora do Porto e isso gerou uma cumplicidade muito grande, estávamos todos fora de casa, o que aumentou muito a intensidade de como aquele ano foi vivido. Depois, outra coisa interessante é que maior parte dos meus colegas, hoje em dia, são pessoas que todos nós reconhecemos: Nuno Grande, João Pedro Serôdio, Cristina Guedes, Francisco Vieira de Campos, Pedro Cortesão…

Quando vim para Lisboa foi um choque terrível, porque cheguei e as coisas não se passavam da mesma maneira. Era uma escola muito diferente e para mim foi difícil. Mas tinha de ser e lá continuei. E tive professores dos quais me recordo bastante bem… uma figura bastante importante foi o Daciano Costa, a Desenho – com quem tive uma relação difícil, mas bastante intensa. A Projeto só com o professor Silva Dias, no quarto ano, é que voltei a entusiasmar-me pela faculdade. Depois, com muita sorte, apanhei o Carrilho da Graça no último ano, que valeu a escola toda.. O arquiteto Carrilho da Graça “picava-nos” imenso, as aulas eram duríssimas, ele estava sempre a pôr-nos em cheque. Mas correu muito bem, foi muitíssimo interessante. E foi bastante importante porque depois acabei por ir trabalhar com ele, portanto foi a passagem para o mundo profissional a partir da escola.

A escolha pela arquitetura como curso, foi muito pensada ou foi mais intuitiva?

Eu não tenho arquitetos na família. O meu pai sempre foi um homem muito ligado ao universo das artes. Trabalhava nas bibliotecas da Gulbenkian e é um homem muito culto, foi talvez o meu principal professor ao longo da vida, tanto neste universo da arquitetura, como em muitos outros. E continua a ser! Ele diz-me que quando eu era pequenina, dizia: “Eu quando for grande quero construir casas!” Eu não me lembro nada disso, nem vivi a pensar nisso. Mas também não me recordo de viver a pensar em fazer outra coisa qualquer. Quando cheguei à altura de escolher, escolhi só Arquitectura no Porto e em Lisboa. Nunca pus a hipótese de ir para outra coisa. Mas isso não quer dizer que não me veja a fazer mil e uma coisas com o mesmo encanto e a achar que podiam ser formas de vida tão interessantes como Arquitetura.

Houve algumas ideias e experiências académicas que trouxe para as discussões no começo do curso da UAL?

A criação do curso da UAL foi muito interessante. Quando eu acabei o curso, existiam quatro cursos de arquitectura, o curso do Porto, de Lisboa, a Lusíada estava a arrancar e a Árvore, no Porto. E rapidamente começaram a aparecer cursos de arquitectura por todo o lado. Eu comecei a dar aulas na Lusíada, logo no ano que acabei o curso. E quando se forma o curso da Autónoma, havia algo fundamental que era não se querer fazer um curso igual a todas as outras universidades privadas que tinham aparecido entretanto. E juntam-se um grupo de arquitectos de Lisboa que não tinham tido uma experiência académica tão interessante quanto os arquitectos que tinham frequentado a escola do Porto, que, queiramos ou não, era uma Escola.

Quando se pensa o curso da Autónoma, não se pensa em fazer como as outras universidades privadas andavam a fazer, que era acima de tudo fazer cursos com muita gente para ganhar dinheiro. Tenta-se inventar de raiz um curso que vai buscar gente a todo o lado e que apareça como uma Escola de Arquitetura. Neste grupo estavam pessoas com experiências diversificadas, mas com uma ideia muito clara daquilo que uma escola não deveria ser. E isso foi extremamente importante.

E com o passar destes 14 anos, em que ponto é que acha que está o curso da UAL?

É uma pergunta muito difícil… nós não sabíamos o que iria ser o mundo e o mundo da arquitetura nos anos que se seguiram à formação do curso e eu penso que não estamos a atravessar um momento muito interessante, nem no ensino da arquitetura, nem na arquitetura propriamente dita, nem na vida do arquiteto… e penso que as universidades estão a padecer desse problema.

O primeiro problema com que acho que a UAL se está a debater e com o qual se continua a debater, tem a ver com a quantidade de alunos. E não é porque entram poucos alunos, é porque não há possibilidade de escolha dos alunos e quando eu digo “escolha”, não é que se deva selecionar. O importante era aparecer muita gente, para depois ficarem os “bons” dessa gente que aparecia. E quando eu digo os “bons” são os que querem ficar, os que têm vontade de ficar e fazer o curso.

A esse problema junta-se outro que é o dos cursos estarem a desaparecer e os alunos também. Há menos alunos a entrar para Arquitetura e há também mais escolas públicas, eu penso que nos últimos catorze anos apareceram uma série de outras escolas públicas, que estão sempre antes das escolas privadas – por razões variadas mas sobretudo por razões económicas. Portanto, por muito que se queira, uma universidade privada de Arquitetura em Portugal, neste momento, não tem uma vida fácil, por muito boa que se seja, enquanto existirem tantas públicas como existem.

Com Bolonha, pensou-se que estas coisas podiam inverter-se um bocadinho abrindo livre concorrência nos últimos os alunos passariam a circular mais entre privadas ou públicas, mas não é isso que está a acontecer. Ainda não chegámos a esse ponto porque ainda não se paga nas públicas como numa privada.

Também é evidente que a Autónoma evoluiu imenso! Quando começou estava muito ligado àquele núcleo central – o arquiteto Manuel Graça Dias, o arquitecto João Luís Carrilho da Graça e o arquiteto José Manuel Fernandes – que foram figuras muito importantes nos primeiros anos da Autónoma – e juntaram-se pessoas mais novas, pessoas mais velhas, e de diversas áreas disciplinares também, para o discutir. Sempre foi um dos grandes objetivos da Autónoma dizer que um curso de arquitectura não pode ser só feito por arquitectos. E tentou-se sempre que as outras áreas disciplinares tivessem um certo peso. Depois, e penso que passados estes catorzes anos, com um olhar critico, não deixamos de estar com um curso em que o Projecto é o tema central e que ocupa, se calhar, espaço excessivo em relação às outras disciplinas. Outra coisa que é importante é que a Autónoma sempre defendeu que estávamos ali para formar arquitectos projectistas. Como é uma escola pequena, acho que foi isso que sempre quisemos fazer e funciona. De qualquer maneira, se olharmos para a quantidade de arquitectos que estamos a formar, hoje em dia, eu penso que o ensino da arquitectura não pode continuar a imaginar que vamos ser todos arquitectos projetistas, porque não vamos. Eu acho que a formação dos arquitetos tem de se reinventar um bocadinho e tem de passar por outras coisas. Não quer dizer que seja a Autónoma a fazê-lo, porque tem um perfil para formar esses arquitectos projetistas, mas temos de pensar um bocadinho sobre qual deve ser a formação dos jovens arquitetos neste momento.

O teu ano do Porto foi muito marcante, e citaste vários nomes que são bastante conhecidos no mundo da arquitectura em Portugal – achas que foi uma coisa casuística? Foi um espirito de geração? Teve a ver com a arquitectura naquela época?

Eu não acredito muito no acaso! Acho que as coisas acontecem porque alguma coisa se construiu para que elas acontecessem. O que acontecia na Escola do Porto, naquela altura, é que o curso era muito bem estruturado, muito bem feito. Acho que nós fomos os felizes contemplados por termos sido alunos, naquele momento, na Escola do Porto. Estava agora a lembrar-me de que o Ricardo Bak Gordon também lá andou no ano a seguir e, portanto, mais do que o meu ano, é aquele momento. Também pode ter acontecido que se tenha juntado um grupo de pessoas mais interessada na matéria e que agora se tenha a sensação de que se formaram muitas pessoas na mesma altura das quais sobreviveu muita gente. Se eu me quiser lembrar dos meus colegas da escola de Lisboa daquela altura, os que sobreviveram já são muito menos.

Se eu acho que isso pode acontecer hoje em dia? Não sei se pode e se acontece da mesma maneira. Há uma coisa que continuo a achar que a Autónoma tem conseguido; tem conseguido que muitos alunos trabalhem em conjunto, se proponham a fazer coisas… nem todos os anos acontece, porque também tem a ver com o grupo de alunos e como a turma funciona, mas acontece muitas vezes. Como o curso tem muita intensidade durante esses cinco anos, as pessoas não querem perder as coisas boas que essa intensidade produz, essa relação entre as pessoas e essa vontade de trabalhar em conjunto. Têm uma certa tendência em prolongar isso no tempo e penso que isso é extremamente importante para a vida profissional a seguir.

Que princípios tem na disciplina que leciona – Projeto, no quinto ano – e que alterações tem havido ao longo destes catorze anos?

Como disse há pouco, eu dava aulas na Lusíada e comecei a dar aulas ao 2º ano, que é um ano de que eu gosto particularmente, porque os alunos ainda não estão “deformados” e já não é o 1ºano, em que se apanha o embate da chegada à faculdade, que é mais difícil. Ali, já estão mais tranquilos, já houve uma primeira seleção feita e ainda estão bastante disponíveis para tudo o que possa acontecer.

Eu lembro-me de qu, quando andava no quinto ano, o João Luis tinha sido professor, no ano anterior ao meu, do 1ºano. Então resolveu fazer uma coisa altamente subversiva que foi fazer o mesmo exercício que tinha feito no 1ºano, mas agora no 5ºano e ir buscar os alunos do 1ºano para discutir o trabalho connosco. E os trabalhos do 1ºano eram bastante mais intererssante do que os nossos. Foi o primeiro embate com o João Luis, com ele a explicar-nos: “ Vocês estão aqui há cinco anos mas o que aprenderam tem pouco interesse! Vamos lá voltar atrás!”. Foi para tentar limpar o atrito acumulado ao longo dos quatro anos anteriores. Mas foi uma experiência bastante engraçada.

Eu acho que os primeiros anos são anos muito interessantes. É evidente que os últimos anos dão possibilidades de fazer outras coisas, que não se conseguem fazer no 1ºano. Eu sou um bocadinho irrequieta sobre o que fazer durante as aulas e acho que aquilo nunca funciona e nunca está bem e ando ali sempre a pensar no que é que, e em como é que hei-de dar as aulas e fazer os exercícios.

Os exercícios dos alunos devem ou não adequar-se à eventual realidade, ou ao potencial mercado existente, ou, por outro lado, devem ser exercícios completamente livres onde os alunos têm a última vez oportunidade de fazer aquilo que sonham fazer?

Em relação ao que são as possibilidades de um arquiteto hoje em dia, ninguém imaginava há vinte anos atrás que o que iríamos ter agora era isto. O que é mais terrível, mas simultaneamente muito fascinante, daquilo que estamos a atravessar é pensar que nem sabemos bem o que é que é isto. O arquiteto tem de se posicionar como uma espécie de investigador, neste momento, olhar para o mundo – as questões para pensar são mais que muitas -, é um trabalho sem fim, a todas as escalas possíveis do trabalho de um arquiteto. Em grupos de trabalho muito mais do que como individuo, em grupos de reflexão.

O que é que isto deve ser no último ano da faculdade? Eu tenho uma postura um bocado egoísta em relação áquilo que é a faculdade, porque acho que estou sempre a fazer aquilo que me interessa fazer. Nem consigo fazer outra coisa. E aquilo que eu tenho tentado fazer no último ano da faculdade, principalmente desde há quatro/cinco anos, é tentar colocar os alunos perante um problema que ainda não está claramente enunciado e eu também ainda não sei enunciar sequer. Por exemplo, este ano o tema que lancei foi Monsanto. Monsanto é uma coisa que não funciona na cidade de Lisboa, neste momento. Tem problemas de acessibilidades, porque está cortado em todos os seus limites. É uma grande estrutura que foi inventada, de uma forma um bocadinho romântica, pelo Keil do Amaral para ser um Parque em que se passeia de automóvel, numa altura em que até havia poucos automóveis… hoje em dia não faz parte dos hábitos das pessoas que vivem esta cidade. É um espaço de uma dimensão gigantesca, completamente abandonado. E aquilo que eu tento fazer com os alunos é dizer: “Há este problema! Vamos lá perceber como é que isto se pode resolver.” É evidente que é um problema gigante, que não é resolúvel, nem por mim, nem por eles, em seis meses de aulas. Portanto, a ideia não é resolver o problema, é enunciar estratégias possíveis e experimentar, numa pequena escala, uma possível resolução de uma parte dessa estratégia. E a mim o que me interessa é a construção deste raciocínio todo, que ocupa mais de 50% do tempo, até eles encontrarem, finalmente, uma forma de actuar, com a qual estão muito entusiasmados, e encontram também possibilidades de construir naquele território. É um exercício difícil, que depende muito do grupo que se tem a funcionar. Há alturas em que funciona muitíssimo bem e há alturas em que é um desatre!

A estratégia de um professor cresce com ele próprio. O que fazes agora não era o que fazias há 15 anos atrás e hoje em dia o teu “eu” é mais diverso e ele transporta-se para o que os teus alunos fazem. Essa diversidade e experiência adquiridas com o tempo ajudam a colmatar a diferença geracional?

O que me une aos meus alunos não é a cadeira de Projeto são os problemas a que temos de responder hoje, que são os mesmos – independentemente de termos 20 anos, 40, 60 ou 80. Estamos todos a responder à mesma coisa. Portanto, une-nos o tempo em que isto está a acontecer. Estamos todos aqui a reflectir em simultâneo sobre as possibilidades de trabalho que temos agora. Tive uma experiência nova há pouco tempo, que foi ser curadora da Bienal de Veneza. Tive de montar um trabalho em dois/três meses e, se calhar, sem pensar muito nisso, acabei por fazer um exercício como faço na universidade – só me dei conta disso depois de já estar feito. Foi, mais uma vez, pegar num território, que era a cidade de Lisboa, e em vez de fazer com os alunos fiz com os arquitetos e disse-lhes: “Vamos lá fazer uma reflexão sobre uma série de temas sobre esta cidade!”.

O arquitecto Nuno Portas, numa visita guiada à sua exposição no CCB, dizia que na altura dele havia menos estudos e menos acontecimentos, mas que os que havia eram publicados e toda a gente os conhecia, e tinham continuidade e impacto. E agora produz-se muito mais e desaparece tudo. É o contraponto deste excesso de informação…

Produz-se muito em pouco tempo e depois não se dá continuidade. Não se aprofunda. Eu gostava imenso de ter um centro de estudos só sobre Lisboa e não me importava de estar sempre a fazer isto, porque não se esgota. E o mais importante é que cada vez que queres fazer um trabalho sobre Lisboa, tens de começar do zero. Tens de ir à procura das plantas, nunca se encontra nada… em qualquer período da história, as coisas não estão bem documentadas, organizadas. A informação até está aí, mas dá um trabalhão encontrá-la, perde-se imenso tempo.

Estamos a falar dos alunos e do seu trabalho final de curso e de que eles a seguir se vão logo embora. Vão embora para onde?

Hoje em dia é para o estrangeiro! Mas eu acho que as possibilidades de trabalho continuam a existir. Acho que é um erro tremendo começar toda a gente a emigrar. Apesar de saber, também, que é muito dificil, neste momento, encontrar trabalho em Portugal.
Acho que há muito para fazer, mas não são coisas imediatas. Nestes momentos, em que se constrói pouco, é a altura ideal para se pensar muito. Não há poucas coisas em que se pensar, não há é dinheiro para se construir da maneira como se construiu há vinte anos atrás. Nós éramos um dos países mais atrasados da Europa no que respeita às necessidades básicas e, portanto, apanhámos a construção de tudo aquilo que é o Parque Escolar que temos, primeiro para o Ensino Superior e ainda para o Ensino Básico. Apanhámos a construção de Museus, Hospitais. Todas as necessidades básicas que Portugal não tinha, ao contrário do resto da Europa. Isso acabou. Mas no resto da Europa já acabou há muito mais tempo e não foi por isso que se deixou de construir. Aquilo que me parece, neste momento, é que se construiu muita coisa, construiu-se também imensa habitação, talvez desnecessariamente. Temos, hoje em dia, um Parque Habitacional muito maior do que precisamos, se falarmos de Lisboa especificamente. Mas Lisboa ainda continua a não funcionar bem. É uma cidade das mais bonitas que podemos encontrar pelo mundo fora – já conheço bastantes – é uma cidade fabulosa, onde se vive bastante bem, ao contrário do que se possa imaginar. É uma cidade onde é fácil viver, com imensas coisas positivas, mas é necessário continuar a pensar como pode funcionar bem. E isto tem a ver com as questões da proximidade, com as questões da mobilidade. Questões que têm sido resolvidas, não de uma forma consertada, mas de uma forma dispersa e, por isso, hoje em dia, têm imensos problemas. Que são possíveis de resolver com pequenas intervenções, subtraindo em vez de construindo. Fazendo uma série de operações que não têm só a ver com a construção, têm a ver, por exemplo, com a reflexão sobre os programas – como é que os programas se distribuem pela cidade, como é que a cidade se organiza e se estrutura, etc. E, para isto, os arquitetos são fundamentais, não há dúvida nenhuma. Portanto eu acho que nós temos de voltar a encontrar espaços de trabalho que estão disponíveis para que os arquitetos usem aquilo que sabem fazer.
E há uma coisa importantíssima que tem a ver com a separação dos saberes. Eu penso que a profissão do arquiteto tem de se reinventar outra vez porque nos últimos anos, em que estivemos ocupados a construir, separaram-se os saberes cada vez mais e mais… e na nossa área não faz nenhum sentido, nós não somos especialista de nada, nós somos exatamente o oposto – nós somos um não-especialista. Temos uma qualidade que, se calhar, muita gente já não tem porque se tornou especialista! Que é a capacidade de síntese e de pegar em todos esses saberes e construir, com isso, uma coisa. É essa a nossa profissão! E o que é que é se constrói? Podem ser variadíssimas coisas – pode ser um edifício ou um espaço da cidade, pode ser a definição de um programa de usos de um espaço qualquer, podem ser milhares de coisas. Nós temos de tomar consciência dessa capacidade que temos e sermos mais intervenientes em várias áreas, nomeadamente noutra área que eu acho que é importantíssima, que é a Política. Os arquitetos têm de se por a jeito para, também eles, estarem presentes nas decisões políticas, porque essas decisões colidem, todos os dias, com aquilo que é o espaço onde nós vivemos. E os arquitetos fugiram muito, nos últimos anos, dessas atividades, coisa a que, no tempo do Portas, mais uma vez, não fugiam. Portanto, houve um momento em que as pessoas se dedicaram a construir, porque havia muito para construir também – isto não abona nem a favor nem a desfavor de ninguém, foi um contexto. Mas as pessoas dedicaram-se a isso e perderam, claramente, espaço em áreas profissionais onde os arquitetos são importantes. Algo que não aconteceu, por exemplo, com os engenheiros, porque são muito mais e têm mais força enquanto classe profissional, estão sempre a tentar encontrar formas de se posicionarem na sociedade e terem um papel importante e ativo em todas as áreas que lhes dizem respeito. Os arquitetos perderam essa capacidade e perderam, se calhar, alguma importância também. Eu olho para os arquitetos como o Nuno Portas, o Álvaro Siza, o Fernando Távora, o Manuel Tainha, são personalidades que as multidões param para ouvir! Eles não estão só a falar de arquitetura, estão a falar do mundo! E qual é a sua relação com o mundo? E a tentar serem interventivos no mundo que é o deles!

Se calhar, faz sentido tentar encontrar ideais novos por que lutar, não é?

Faz. A arquitetura confronta-se também com um problema gigante que é a perda de importância do ser humano. E nós trabalhamos para o ser humano. Nós construímos para as pessoas. Se as pessoas deixam de ter importância, a arquitetura deixa de existir. E isso é, talvez, a crise maior que nós temos neste momento. Nós temos de continuar a lutar para que o mundo exista para todos os Homens que habitam em cima dele.

Nos projetos que tens neste momento, já vês algumas mudanças, há esperança?

Eu acho que há imensas mudanças. Nós temos experiências, vindas da América do Sul, para os quais olhamos com grande entusiasmo. Mas também não podemos dizer que as grandes figuras da arquitetura, mediáticas e importantes no mundo da comunicação, não fazem o seu papel e não ajudam a que a arquitetura continue a ser discutida e a ser ouvida. Portanto, não radicalizemos as posições!
Há uma coisa que as pessoas, hoje em dia, quando saem dos cursos têm de fazer: têm de encontrar um espaço para trabalhar. Têm é de ter abertura para que o espaço que venham a encontrar seja bastante diferente daquilo que imaginaram; mas, têm de conseguir usar a sua formação para fazer um trabalho que pode ir desde estar a fiscalizar uma obra, a trabalhar numa câmara municipal e discutir problemas importantíssimos, na politica, num museu, no seu atelier, onde for… têm de ter capacidade de usar o conhecimento que adquiriram e que ainda venham adquirir em prol de um mesmo objetivo, que é que se continue a refletir, a construir e a usar os espaços da cidade que temos da melhor maneira. Desde que a postura seja essa, eu acho que tudo é possível. Não há trabalhos melhores e trabalhos piores. A arquitetura tem também esse aspeto bastante interessante que é atuar em milhares de contextos, não atua só num. Ser arquiteto é uma atividade bastante complexa e que pode ser muito diversificada. Até em áreas em que não somos a figura principal! É outra coisa que os arquitetos têm pouca capacidade para fazer. Imagino que o arquiteto possa estar a trabalhar com uma equipa que desenvolve um avião, onde não seja a pessoa fundamental, ou que possa estar a trabalhar numa equipa que está a fazer uma reflexão sobre uma comunidade que se desloca e passa a habitar um país qualquer e que as figuras principais sejam um antropólogo ou outra profissão qualquer… nós temos pouca capacidade para trabalhar dessa maneira. O que é pena. Temos sempre uma certa tendência, de formação, para liderar! O que vai deixar de acontecer…

Nessa abertura da disciplina que tem de existir, e que devia ter sempre existido, como é que vê a importância da investigação e a relação que esta pode ter com a prática?

Penso que a arquitetura é uma disciplina muito nova nessa área. Se formos para as áreas como a Biologia, a investigação é o motor da disciplina. Na arquitetura, a prática profissional dos arquitetos foi mais o motor do que a investigação. A investigação sempre foi uma coisa paralela e, muitas vezes, as pessoas que estão na prática não são as pessoas que investigam. Acho que isso também devia mudar. Eu tento que aquilo que eu faço seja também investigação. Tive a oportunidade de fazer uma série de trabalhos, que foram muito difíceis de fazer porque não estava na área de investigação – e tive de “torcer” o atelier ao contrário para dar resposta a outro tipo de trabalhos. Ultimamente, tenho estado a desenvolver um trabalho para a CML sobre a colina de Santana. Que é um trabalho de investigação – é olhar para aquele pedaço de cidade, onde já há uma série de arquitetos a trabalhar, e fazer uma reflexão sobre o que ela pode vir a ser, com a intervenção daqueles arquitetos todos, quais são as outras hipóteses que tem e porque é que se deve mudar. Para fazer isto, tive de andar não-sei-quantos anos para trás e fazer uma investigação sobre aquele pedaço de território ao longo dos tempos, tive de equacionar programas e fazer um trabalho que, no fim, é um livro com quatrocentas páginas de projeto – que, se quisermos olhar de uma forma conservadora, de projeto tem muito pouco. Mas que é um grande projeto! Portanto, a investigação que me interessa é esta. Como podes imaginar, tem-me passado muitas vezes pela cabeça – e é uma questão que se coloca muitas vezes aos arquitetos da minha geração – se vou fazer o Doutoramento ou não. E, realmente, não tenho tido tempo para fazer doutoramento nenhum, e, como a prática no atelier é intensa, põe de lado esta questão da investigação. Eu não sinto necessidade de ir fazer o doutoramento porque passo os dias a estudar!
Na altura em que se produziu mais investigação, voltamos outra vez à geração do Nuno Portas, as pessoas não se doutoravam. As pessoas faziam coisas e registavam as coisas. Não era um tema na prática, ou na vida profissional de um arquiteto, nem na vida de um arquiteto enquanto docente. Hoje em dia está mais do que provado que é importante, ou que é necessário – para se continuar a carreira de docente – passares por outras etapas que não só a Licenciatura ou, neste momento, o Mestrado. Tens de continuar a fazer esse percurso. Eu, se não precisar de fazê-lo…vou fugir dele a sete pés! Mas estou a arriscar, evidentemente. Não tenho lugar em nenhuma universidade pública, não tenho doutoramento e não estou disposta a ir a correr fazê-lo. Também acho que isto, infelizmente, tem sempre a ver com fenómenos economicistas – que é ganhar dinheiro com isto e com aquilo e esta coisa dos doutoramentos é claro que tem a ver com uma questão económica… há momentos em que está tudo atrás destas coisas mas depois acalmam outra vez. Acho que o tempo dirá como é que as coisas se vão passar na realidade. Agora, que a investigação é uma atividade crucial para o desenvolvimento das disciplinas, eu acho que sim e acho que há uma área enorme em que os arquitetos se deviam dedicar mais, mas dedicar-se cruzando com a prática, que é o que se faz nas outras áreas – pelo menos nas áreas que a mim mais me fascinam, que são as áreas das ciências em que a aplicação da investigação é direta e permanente. A investigação está ao serviço da prática. E só pode ser assim.

No universo da nossa universidade, és a única mulher com uma atividade que continua a ser predominantemente masculina. Aliás, dos nomes todos que referiste, salvo erro, só disseste uma mulher também, não foi?Achas que faz diferença, ou trabalho é trabalho…

O problema das mulheres existe, e continua a existir, claramente. No outro dia, recebi uma distinção, pela Secretaria de Estado da Cultura, e o diretor-geral das artes dizia algo com que eu concordo plenamente que era: “O que era bom era nós não termos de estar a dar estas distinções…” Porque é que se hão-de distinguir as pessoas por sexos? Não se deviam distinguir. No mundo do trabalho deviam distinguir-se por aquilo que fazem.
Porque é que isso não acontece e está longe de acontecer? Por variadíssimas razões. Muitas têm a ver com questões culturais e de educação, que estão enraizadas há séculos na nossa sociedade, como as raparigas serem educadas de maneira diferente dos rapazes, nós temos a tendência para educar os nossos filhos com o que trazemos de trás. Isso é uma coisa que constatamos rapidamente, e que é arrepiante, mas é verdade.
Eu tive a sorte de não ser educada assim! Tive a sorte de ter um pai e uma mãe que não me educaram como rapariga ou como rapaz. Devo aos meus pais o facto de ter sempre olhado para o mundo não pela minha condição feminina mas como pessoa. Depois há coisas que continuam a ser evidentes na nossa sociedade ou na nossa natureza feminina: as mulheres têm filhos, os homens não. Apesar de serem pais. Mas esta questão da maternidade é uma diferença enorme num determinado momento da vida de uma mulher. E há coisas onde não podem ser substituídas. As mulheres é que dão de mamar, não são os homens. Há ali um primeiro momento da vida das crianças em que a mulher tem um papel importantíssimo. E isso condiciona a sua atividade profissional? Condiciona. E a sociedade está preparada para isso? Não, não está. Eu consegui gerir as duas coisas porque tenho um atelier que é meu e que tem uma creche. Levámos as crianças todas para dentro do atelier – eu e as mulheres que lá trabalham e os homens também. Mas isto é uma coisa completamente contranatura e que implica um esforço enorme e que, muitas vezes, até pode nem ser a melhor situação, eu tenho essa possibilidade, mas eu não sou um exemplo. Continua a ser difícil, mas também acho que, pessoalmente, não me queria ver substituída, é a sociedade que se tem de adaptar um pouco mais a isso. E o mundo do trabalho está feito para que tu trabalhes das oito às oito e que tenhas disponibilidade permanente e estejas permanentemente disponível no telemóvel e isso não é compatível com o querer ser pai e mãe… é um problema que não se vai resolver já, nem ninguém está a tentar resolvê-lo.

Como foi o seu percurso até montar o atelier próprio e que princípios/programas novos adicionou ao atelier de arquitetura?

Eu nunca tive a ideia de montar um atelier sozinha. Quando saí do João Luís, foi por razões várias. Questões que até tiveram a ver com questões pessoais e que me obrigaram a ter que arranjar uma outra forma de ganhar dinheiro, numa altura específica. E montei o atelier com o Pedro Domingos. Depois, acabámos por nos separar, por razões pessoais e não por questões de incompatibilidade de trabalho, e nessa altura voltei a montar um atelier mas tenho um sócio, que não é arquiteto, e que é uma peça crucial no meu atelier. Sem ele, aquele atelier não existia porque ele é uma pessoa que gosta de ter uma empresa, e eu não tenho grande vocação para isso. Esta conjugação é uma coisa maravilhosa. Mas, muito sinceramente eu nunca tive aquela vontade de “agora vou fazer um atelier!”; aliás, quando montei este atelier, colocou-se a questão do nome (e isto agora vai colar à pergunta das mulheres) e eu dizia “Pomos um nome qualquer…” e toda a gente disse “Não, não! O atelier vai-se chamar Inês Lobo Arquitectos porque isso de ser gaja dá imensa saída!”. De certa forma, foi uma visão oportunista do problema!

Se pudesses escolher, sem constrangimento, o que irias fazer no próximo ano, o que escolherias?

Há duas coisas que, para mim, com o atelier que tenho e com o que tenho para fazer neste momento, são extremamente importantes: por um lado, continuar a poder construir – que é uma coisa que, a um arquiteto que está habituado a fazê-lo há não-sei-quantos anos, custa imaginar que vai deixar de ter essa possibilidade. Por outro lado, aquilo que eu gostava, também, era de dar continuidade a estes trabalhos que tenho desenvolvido na cidade de Lisboa. O que é interessante quando se faz um trabalho de investigação é que ele não acaba e, portanto, poder continuar a avançar naquilo que fiz até agora, para mim, era talvez o mais importante.

O que é que eu gostava mesmo? Gostava de continuar a manter o atelier que tenho! Que não sou só eu, é uma estrutura com várias pessoas, já há muitos anos. Continuar a conseguir que este conjunto de pessoas possa trabalhar, possa ter as suas vidas, é o mais importante. Temos conseguido, até agora – apesar de estarmos a atravessar um mau bocado…o atelier reduziu imenso. Mas, apesar disso, eu neste momento estou a fazer os trabalhos mais interessantes de sempre! Estou com trabalhos em mão que eu não imaginava que fosse possível. Não dão muito dinheiro, obrigaram-nos a reduzir o atelier, mas as propostas são talvez as mais entusiasmantes que já tive, desde que comecei a trabalhar. Tenho esse trabalho na Colina de Santana, estou a fazer uma Mesquita na Almirantes Reis, são trabalhos únicos e que são muito gratificantes. Se isto continuasse assim, já não era mau!

Fotografias © João Carmo Simões .com – Todos os direitos reservados

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