Estudo Prévio

Entrevista a João Gomes da Silva

Categorias: Entrevistas

É com enorme prazer que temos como nosso convidado, o professor e arquiteto paisagista João Gomes da Silva. Seja bem-vindo. Queríamos começar por pedir que nos contassem um pouco do seu percurso académico, como foi o seu curso, que professores ou exercícios marcantes é que teve.

Estudei arquitetura paisagista. Licenciei-me na Universidade de Évora. Durante o liceu estava muito interessado em estudar a floresta, estava na área de ciências. Conhecia muito bem o arquiteto Silva Dias e os filhos, fiz para ele umas maquetes e ganhei uma certa curiosidade pela arquitetura. A certa altura, o Silva Dias disse-me: “Tens de falar com uma colega, a arquiteta paisagista Celeste Ramos – com quem ele colaborava – para ela te explicar o que é a arquitetura paisagista, porque é provavelmente algo que te interessa mais do que a arquitetura”. Um dia encontrámo-nos, e foi uma coisa muito imediata! Eu fiquei muito curioso, ela falou-me do que fazia no Gabinete da Área de Sines, que era um processo muito complexo, com várias escalas de trabalho, e aquilo interessou-me bastante. E decidi, a meio do 7ºano (que era o último ano de liceu), estudar arquitetura paisagista.

Na época, em 1978/79, havia um curso aqui em Lisboa, no Instituto de Agronomia, que implicava um estudo de agronomia durante dois anos. Eu não estava interessado nisso, nem em engenharia – e decidi ir para Évora, onde estava a figura de Ribeiro Telles, que é uma figura com uma energia incrível, com uma luminosidade incrível! Na sociedade, e também dentro deste campo disciplinar. Ele tinha participado na refundação da Universidade de Évora, instalando o curso de arquitetura paisagista em 1972/3 e eu não tive dúvidas! Concorri para Évora (enganei os meus pais, disse-lhes que estava a concorrer para Lisboa e para Évora, mas era apenas para Évora) porque era exatamente para ali que eu queria ir. Estive 5 anos na Universidade de Évora, ainda muito no início da universidade, e foi uma experiência muito interessante, com um conjunto de professores fascinantes, excelentes professores, agrónomos, arquitetos paisagistas, historiadores de arte – Ário Lobo de Azevedo, Eduardo Cruz de Carvalho, Alexandre Cancella de Abreu…o próprio Fernando de Mascarenhas foi meu professor de filosofia e de estética. Acho que apanhei, talvez, o melhor período que a escola teve, que foi o período inicial.

 

 

Era uma época em que ainda estava tudo por fazer…

Sim, no fundo sim. Se bem que já tinha passado a primeira geração, a do Ribeiro Telles, e já havia uma geração acima da minha, que tinha entrado, fundamentalmente, na administração pública local ou central, e havia dois ou três ateliers. Portanto a profissão tinha um enraizamento de duas/três décadas, mas estava em pleno desenvolvimento. E, de facto, a minha geração – que é também a do João Nunes (da Proap) – começa a apostar noutra vertente, que é a da construção de ateliers. A apostar na construção de um tecido criativo onde se faz arquitetura paisagista.

Quando acabei o curso, fui trabalhar para a Malagueira. Fui trabalhar fora do meu campo, para uma equipa coordenada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, com quem, no fundo, iniciei o período de estágio, e com quem depois continuei a trabalhar durante sete anos. No fundo, transferi-me diretamente do curso para a realidade profissional. Em 1987 terminei o curso (já tinha dois anos de prática na Malagueira), em integrei na equipa de uma maneira mais permanente e estive lá até 1981 – no atelier que o Álvaro Siza criou em Évora para trabalhar no projeto no plano da Malagueira. Também em 1987, eu concorro para assistente na Universidade de Évora, no meu curso, e fui assistente até 1994. Comecei a trabalhar e a ensinar – lembro-me de, quando fiz a entrevista para ser assistente, disse que não podia ensinar projeto sem estar a trabalhar, a minha intenção era fazer essas duas coisas. Portanto, o meu início de profissão coincide não só com uma prática profissional, relacionada com o projeto e com a obra, mas também com o ensino, como assistente do Prof. Ribeiro Telles. Tive uma entrada bastante abrangente na minha profissão. E em várias dimensões, uma mais prática e outra mais teórica.

 
E quando é que crias o teu próprio atelier?

Um pouco mais tarde. Em 1991, faço um concurso com a Inês Norton e com o João Sousa Mateus, para o Prémio Schinkel, na Alemanha. Ganhámos esse prémio, o que criou uma visibilidade pública e profissional e nos deu um certo alento. E foi a partir daí que começámos a fazer um atelier, que era uma coisa que quase não existia a nossa área. Em 1994, deixei de ensinar. Tive a minha primeira filha em 1993, e tomei uma decisão, que foi deixar Évora, vir para Lisboa e focar-me exclusivamente no atelier. Isto coincidiu com outro ciclo de trabalho. Fui colaborando com o Siza, até 2002, mas iniciei um outro ciclo, que foi ter um atelier e começar a colaborar com muitos outros arquitetos. É um tema da minha vida, a colaboração.

 


Em 1994… E quando é que foi a sua entrada na Universidade Autónoma, como professor?

Como é corrente, comecei de ‘mansinho’… No fundo foi o João Luís (Carrilho da Graça) que me chamou, a mim e à Inês Lobo, que estava a trabalhar como assistente. Eu já tinha colaborado com o Carrilho da Graça, primeiro pediu-me para ir fazer críticas, depois para ir fazer uma aula… E há um momento em que me convida para fazer dar uma unidade curricular, ainda no sistema pré-Bolonha, no 5ºano.

 

E queres falar um pouco mais sobre o tema da colaboração? No 5ºano também centras muito o teu ensino nesta ideia da colaboração…

A colaboração é uma espécie de tema longitudinal à minha vida profissional!

Antes de ir estudar arquitetura paisagista, de facto, de alguma maneira estava no ambiente dos ateliers de arquitetura, mas não era aluno de arquitetura, nem tenho qualquer espécie de relação familiar nem profissional, na minha família, com a arquitetura. O tema da colaboração surge de um conhecimento, que tenho, desde muito cedo, do que é a atividade em Arquitetura – por estas razões práticas, de fazer maquetes, de ajudar a montar coisas…

Quando eu termino a parte escolar do curso, tive um professor de urbanismo, o Arq.º Paulo Gouveia – que já morreu – e que foi meu professor e depois foi meu colega. E ele faz uma aula sobre vários planos que estavam a decorrer, em Sines, em Santo André, e na Malagueira. Convida o arquiteto Siza, que não estava disponível, e o Nuno Ribeiro Lopes foi lá apresentar. Eu lembro-me que a apresentação foi fascinante. Nós estávamos em Évora, víamos o que se estava a passar, (em 1983/84) e, no final dessa aula, na fase das perguntas e respostas, eu perguntei o que é que se passava com toda esta paisagem, que se cria e que se transforma ali – “Alguém está a trabalhar sobre isso? Nós estamos aqui num departamento de arquitetura paisagista… O que é que se passa?”. E, de facto, ainda não se passava nada. Eu, em seguida, faço um contacto e ofereço-me como estagiário. Há uma entrevista e essa entrevista corre bastante bem – foi uma conversa com o Siza, que semanalmente ia a Évora – e eu começo a colaborar. E começo a colaborar de uma maneira muito intensa e isso é muito determinante para este tema da colaboração – é claro que, do lado do meu departamento, dizem que vou para lá sozinho, que estava nas mãos de um arquiteto e que isso me punha numa posição frágil.

É desta forma que o tema da colaboração parte quase de um conflito; não no mau sentido, mas no sentido em que há visões que não se justapõem. Portanto, eu faço o meu estágio num campo e num espaço de discussão e de produção que é de uma outra disciplina, onde eu tenho de ser responsável por propor visões disciplinares.

E, de facto, todo o contacto que vou tendo com o Álvaro Siza, com o Nuno Ribeiro Lopes, e com todos os arquitetos que colaboram nesse plano, é muito estimulante. E apercebo-me que aquilo que vou trazendo à discussão e à análise dos problemas que se iam pondo são temas que interessam muito a todos, sobretudo ao Álvaro Siza, com quem, depois, comecei a colaborar de uma maneira mais intensa.

A primeira coisa de que me lembro… Ele dá-me uma pilha de esquiços e fotocópias dos cadernos dele e diz: “Olha, estas são as minhas ideias sobre a Malagueira, sobre o espaço exterior, os espaços abertos… Diga-me o que é que pensa. Para a semana venho cá e diga-me o que é que acha sobre isto. Porque isto é um ponto de partida, para mim.”

E eu, de facto, estive a ler todos os desenhos e, no fundo, era um imaginário, o que ele me passou… E quando ele voltou eu disse-lhe: “Acho que é um conjunto de referências, que eu reconheço na minha própria vivência aqui em Évora, e tenho uma coisa a propor, que é fazermos um passeio.” E o que é que fizemos? Subimos pelo vale acima, a Malagueira é um transepto no vale da ribeira da Turgela, e fomos subindo por essa ribeira e visitando várias quintas de recreio. No fundo, era a periferia nobre da cidade, onde havia quintas, casas, sistemas de rega com caleiras, tanques e azulejos, toda essa temática… E eu fui explicando como é que aquela paisagem se tinha formado e o que é que a Malagueira representava naquela sequência, centrada sobre a ribeira – a Malagueira, de facto, corresponde a um transepto, a um corte transversal sobre esta realidade natural, que se contrapõe com um eixo urbano, que aponta até ao centro da cidade. Ele disse que era muito interessante tudo aquilo que lhe estava a dizer, descobriu uma abordagem que lhe interessou, e começou a envolver-me.

E iniciou-se um processo de trabalho, para mim fascinante. Foi uma espécie de revelação. Porque, desde a escala do planeamento à escala do projeto e à escala da obra, tudo se desenrolou. Com exigências de participação da comunidade, associações de moradores… O tema da participação, de que nos últimos anos se voltou a falar muito, ali era quase uma exigência, até por razões políticas.

Portanto, para mim, o tema da colaboração iniciou-se dessa forma, muito intensa. E quando me diziam que estava desapoiado, eu dizia que não. Não creio que haja inimizades entre disciplinas que são afins. Acho é que há uma enorme zona de contacto, e é nessa zona de interseção que me quero posicionar. Não me interessa encapsular-me, acredito que entre arquitetura e arquitetura paisagista existe uma imensa potencialidade de desenvolvimento, de produção e, sobretudo, de criação. E foi isso que eu fiz ao longo da minha vida toda, ao longo destes quase trinta anos. Foi, fundamentalmente, acreditar que a realidade é de tal maneira complexa que não há uma única disciplina que consiga a especialização. O conhecimento moderno afastou-nos de uma coisa fundamental que foi sermos capazes de voltar a submergir em várias perspetivas e de conseguir olhar para os problemas a partir da sua complexidade e não a partir da sua desmontagem, que é o que defende o paradigma do conhecimento moderno.

 

 

Nesse sentido, eras um professor diferente quando davas aulas a alunos de arquitetura paisagista e agora a alunos de arquitetura?

Isso põe problemas didáticos e de metodologia muito grandes. Eu ensino na Autónoma, numa turma de finalistas. São alunos de arquitetura, portanto são alunos que não têm uma formação de base sobre temas de paisagem. Tal como ensino os alunos de Mendrísio, onde sou também professor. Na verdade, estou a ensinar em “casa-alheia”. E faço-o com imenso gosto, apesar de saber e de sentir que existe uma enorme limitação do ponto de vista metodológico, pelo facto de estar a lidar com pessoas que não têm um background que lhes permita compreender as coisas da mesma maneira. E tenho de ser capaz, de um modo em parte empírico, em parte instrumental, de ir desmontando a realidade e ajudando a criar a capacidade de um estudante de arquitetura ser capaz de entender a paisagem como espaço, mais do que como uma imagem, um cenário onde as coisas ocorrem – que é a visão que tradicionalmente existe. A minha visão é a de que a paisagem é espaço, é arquitetura, é construção. É a construção de um espaço no território. Às vezes digo, de uma maneira simplista, que a paisagem é a arquitetura do território.

Há dois anos fui professor visitante da Universidade de Harvard, da Graduate School of Design, e aí voltei a ensinar a estudantes de arquitetura paisagista e também arquitetos, e senti que, de facto, trabalhar o projeto aí tem uma outra potencialidade. Podemos ir muito mais profundamente, abordar outras problemáticas.

Mas, voltando à Autónoma, o trabalho que tento fazer é, em primeiro lugar, criar linguagem, noções, significados – o que é fundamental quando queremos lidar com determinado tema. Em segundo lugar, criar uma visão crítica – propor aos alunos que comecem a olhar criticamente para o espaço e que comecem a interpretá-lo. E, para tal, há determinados exercícios de representação, que levam necessariamente a uma análise. Em terceiro lugar, trabalhamos, de alguma maneira, um tema fundamental do projeto de arquitetura que, nesta vertente, tem a ver com as ideias de localização e de implantação – são dois temas fundamentais para a arquitetura, sobretudo o tema da implantação – é um tema que o Vitrúvio define como um dos princípios da arquitetura. O tema da localização requer uma escala mais territorial e o tema da implantação uma escala mais local. No fundo, aquilo que faço no segundo semestre com os meus alunos é obrigá-los a olhar, criticamente, o projeto que estão a desenvolver na disciplina de Projeto. E aquilo que eu tento fazer é deslocá-los para uma zona de desconforto, levá-los a observar o seu projeto de arquitetura por outro prisma – que é a escolha de um lugar, as relações que se estabelecem e a transformação do lugar através do tema da implantação.

 

 

E ainda adiciona a tudo isso, o tema da colaboração…

É evidente que tento ir explicando quais são os potenciais que ali estão a criar e que evidentemente podiam ser aprofundados. Assim como, naturalmente, eles sentem a necessidade de ir falar com o professor de Estruturas, porque percebem que a ideia fundamental do projeto necessita de uma visão da física, da estática e, portanto, vão procurar o professor.

Em Mendrísio passa-se a mesma coisa, até de uma forma mais instituída, porque a escola nomeia, em cada área de conhecimento, um professor que tem de prestar assistência tutorial aos alunos que estão a desenvolver o projeto final. No fundo, informalmente, é o que se passa na Autónoma.

O perfil dos nossos alunos mudou bastante, nos últimos anos, e a tua experiência com alunos de outros países, leva-me a perguntar – sendo a paisagem também uma construção cultural – se é um desafio diferente, trabalhar com alunos, cujas referências não são as mesmas. Ou seja, lecionares a alunos de países diferentes, com backgrounds diferentes, levanta desafios novos?

Levanta, até porque metade dos alunos que tenho na Autónoma não são Portugueses. Uns vêm de África, outros da Europa… Muitos da Itália, espanhóis, do norte da Europa, noruegueses… O conhecimento que os alunos têm, que as pessoas, em geral, têm sobre a paisagem é empírico. É sobre a sua experiência de vida, nós transportamos aquilo que vamos construindo sobre a nossa experiência de vida. Todos nós temos uma espécie de construção mental, um imaginário que construímos sobre aquilo que é a paisagem, ou porque vivemos nela, ou porque viajamos, ou porque parte da nossa família está noutro sítio… Este conhecimento faz-nos construir esta espécie de memória, que nos estrutura e que estabiliza a nossa visão do mundo. A partir da nossa memória, estamos constantemente a interpretar a realidade e a analisá-la, mesmo que o façamos inconscientemente. E, portanto, aquilo que a universidade tem de fazer, e é isso que a distingue de uma formação intermédia, é preparar as pessoas para, num certo grau de abstração, elas conseguirem confrontar-se com a realidade. Aquilo que a universidade faz é dotar-nos de uma certa capacidade de sermos capazes de olhar o mundo, de nos relacionarmos com ele, de melhorá-lo, de conseguirmos intervir no mundo e transformá-lo. É isso que faz um arquiteto. É transformar o mundo!

A certa altura, o Siza, quando lhe perguntaram como era um arquiteto português a fazer casas em Berlim e na Holanda, ele dizia: “Na verdade, eu transporto sempre comigo os meus fantasmas, as minhas referências. Mas, na verdade, na Holanda, não estou a trabalhar para uma comunidade de holandeses, mas de imigrantes turcos. E eu tenho de ser capaz de entender o seu modo de vida e tenho de inventar uma arquitetura onde sou capaz de sintetizar essas comunidades todas.

E eu acho que isso é muito verdade. O que é isso de arquiteturas portuguesas? São questões que sempre foram muito discutidas e que têm muitas respostas… Isto para dizer que, na verdade, aquilo que eu espero é que os alunos que saem da escola sejam capazes de se localizar em qualquer parte do mundo, e que sejam capazes de criar, independentemente do local onde estão, considerando sempre a sua memória e as suas raízes, serem capazes de intervir nessas realidades.

Esta é uma espécie de ambiguidade que me parece perfeita para explicar aquilo que é o nosso papel no mundo global.

 

 

Estava a pensar se conhecia alguma publicação sobre arquitetura paisagista… Há muito pouca disseminação de projetos de arquitetura paisagista, pelo menos em comparação com a arquitetura… Lembro-me que só no 1º ano de doutoramento é que li o artigo Terra Fluxus, do James Corner, por exemplo. A quantidade de informação que me chega sobre arquitetura paisagista é muito pouca.
Tem os seus circuitos e as suas especificidades. Eu diria que já houve muito mais comunicação, mas isto é igual para a arquitetura. Quando digo comunicação, falo de comunicação estruturada em forma de publicações regulares. Na Europa existem várias revistas que, no fundo, são as referências, que tiveram o seu período de ouro e que hoje estão bastante mais reduzidas. Existem também muitos sites online, há um muito conhecido chamado Landzine.
Agora o problema que se põe em relação à arquitetura paisagista e também se põe à arquitetura e às outras artes, é que, apesar de termos muito mais informação disponível, essa informação está muito menos filtrada, estruturada, criticada. E, na verdade, nós temos cada vez mais informação, mas é informação de caráter genérico, a ponto de ser hoje muito difícil a um aluno, e estou a falar de alunos do 5ºano que já deviam ter alguma experiência, ter uma visão crítica sobre a informação que recolhem na internet. Tanto que a certa altura tive de obrigá-los a definir a origem dessas fontes e a veracidade da informação, dado que há uma certa perda de consistência e de visão crítica sobre a quantidade de informação que está disponível.

 

Já agora pergunto-lhe qual a relação que tens com a investigação, na tua prática?
Acho que todos os arquitetos que fazem projeto podem fazer investigação. Não digo que todos o fazem porque muitos de nós, em certos momentos, não estamos a investigar nada, estamos apenas a reproduzir modelos, arquétipos, ou projetos que já construímos e que achamos que são replicáveis… Às vezes, deparamo-nos com problemas novos e temos que investigar. E essa investigação faz-se nos ateliers e não nas universidades. Isto traz-nos ao problema do que é investigação em arquitetura, ou arquitetura paisagista. Quando estamos no domínio da teoria, da história, isso é fácil de responder. Quando se passa para a arquitetura em si, como prática, as coisas começam a ficar muito mais difíceis.
Tive a possibilidade de assistir a uma conferencia em Mendrisio de dois arquitetos Suíços (Burkhalter e Sumi) que se jubilaram este ano, que fizeram uma apresentação notável sobre a investigação que tinham feito ao longo dos últimos doze ou treze anos em tinham estado na Academia, em ambiente de aulas, com os seus alunos, e em que medida é que isso tinha construído um corpo de conhecimento relevante para a escola. Eles fizeram, sistematicamente, o mesmo exercício com os alunos, que consistia em representar com a mesma técnica de representação uma série de obras, quase todas modernas, tentando explicar a relação entre espaço, estrutura e infraestrutura. E fizeram um conjunto de diagramas, que partiam da representação da estrutura em corte, e depois em perspetiva, das instalações e usavam sempre o mesmo sistema gráfico. E o que é um facto, é que, ao fim destes 13 anos, eles foram capazes de agrupar um conjunto de edifícios que tinham analisado e criar uma espécie de tipologia sobre esta relação entre o espaço, estrutura, luz e infraestrutura. E eu achei verdadeiramente evidente e claro, pela primeira vez, o que significa investigar arquitetura.

Há investigação atual que influencie os projetos do atelier?

Há. E acho que isso já foi mais fácil e agora é mais difícil porque há uma espécie de desaceleração na produção de Arquitetura. Desaceleração, porque tivemos uma década que fundamentalmente reproduziu cânones. Na Arquitetura Paisagista isso é muito evidente. Se começarmos a ver o que foi publicado nas últimas duas décadas percebemos que há projetos-chave que, a dado momento, apontam caminhos muito interessantes. Há pouco falámos de James Corner, e há uma determinada obra dele onde, pela primeira vez, a construção de um parque é feita a partir da tentativa de incorporação de sistemas de depuração de água, espaço tecnologicamente fundamentais na vida de uma cidade ou de uma região – e ele propõe a reconfiguração e a integração desses espaços na organização de um parque. Nós temos o produto desse arquétipo aqui em Lisboa, no Parque do Tejo e Trancão, do João Nunes (da Proap em colaboração com George Hargreaves), em que um aterro sanitário e uma central de tratamento de águas fazem parte do desenho e da estrutura do parque, e, se tivesse havido uma terceira parte, essa integração entre infraestrutura e paisagem ainda tinha sido mais consequente, espacialmente. Tal como uma colaboração que o atelier dele tem com o do Manuel Aires Mateus e um grupo de engenharia, transformando uma ETAR numa obra de paisagem urbana. Não sendo um espaço público, não deixa de ser um espaço fundamental e referencial no Vale de Alcântara. Portanto, há de facto arquétipos que existem porque lhes foi permitido refletir sobre a realidade e propor algo de novo, um novo modelo, uma nova tipologia de organização do espaço, de uma nova expressão. E eu diria que temos vindo a ser menos solicitados para a reflexão sobre a realidade e mais para a produção em massa – mas isso teve a ver com um momento em que havia uma enorme acumulação de capital e havia a possibilidade realizar obras que repetiram modelos e que, não trazendo nada de muito novo, disseminaram uma outra qualidade. Diria que, agora, estamos noutro ciclo. Menos meios, já não produzimos da mesma maneira, os objetivos já não são os mesmos.
O tipo de encomenda que tenho no atelier já não tem nada a ver com o que tinha há uns anos atrás. Neste momento estamos a trabalhar para empresas de agricultura. Temos dois ou três projetos realizados em espaço agrário, em espaços produtivos, em vinhas, paisagens vitícolas. Reformular essas paisagens, introduzir a função do enoturismo, que é uma função importante para a economia desses processos produtivos, melhorar ecologicamente o próprio processo produtivo, resolver problemas de tratamento e escoamento de águas, organizar o espaço de trabalho, segmentar as visitas… São temas que há 10/15 anos não existiam.
Eu fui treinado na escola em ambiente de paisagem rural, com toda a problemática que então existia. Hoje as problemáticas são completamente distintas. Se há algum setor onde esteja a existir um enorme investimento, é, precisamente, na paisagem produtiva. E diria que é um campo de trabalho incrível.
Houve, de facto, no campo da disciplina da Arquitetura Paisagista, dois ou três momentos importantes nas duas ultimas décadas, e que produziram algumas obras muito interessantes – obras de coletâneas de textos. Uma delas, penso eu, é a que tem esse texto de que falavas, Terra Fluxus, do James Corner. E eu diria que foi possível, nestas duas últimas décadas, reconstruir um corpo teórico, não já moderno, mas contemporâneo, e eu acho que há duas ou três obras que são fundamentais para expor aquilo que é Arquitetura Paisagista contemporânea.
Uma delas é o Recovering Landscape, onde está esse texto do James Corner, outra é uma compilação de artigos de vários autores, Theory in Landscape Architecture: a reader, do Simon Swaffield. Aliás, é um dos livros que usamos na UAL.
Isto para dizer que há ciclos de um certo progresso e de uma certa construção e depois há ciclos de uma certa reprodução. E acho que estamos a chegar assim a uma espécie de fim de ciclo, num momento em que nos questionamos: “para que é que servimos?”

 

Na arquitetura paisagista também existem movimentos semelhantes àquilo que se está a assistir em arquitetura, que é a pequena escala, o informal, o local, a intervenção participada? Isso também é uma tendência na arquitetura paisagista?
De alguma maneira, sim, apesar de os problemas se porem de uma maneira um pouco diferente… Umas das coisas que eu tento trabalhar com os alunos é esta noção entre o local e global, ou entre o local e o regional. Que são temas que, em Arquitetura Paisagista, não são separáveis, e que são muito distintas relativamente à aproximação que na UAL ou em Mendrísio, se faz relativamente ao espaço. Aproximação em arquitetura faz-se de uma maneira muito objetual e não contextual, apesar do Contextualismo ser uma das matrizes identitárias da Arquitetura portuguesa das últimas três ou quatro décadas. Para a Arquitetura Paisagista, o contexto é a Paisagem. A Paisagem é contentor e conteúdo. Há um texto muito interessante que costumava dar aos alunos para ler, que é do Christian Norberg-Schulz – Genius Loci, Towards a Phenomenology of Architecture, onde ele fala dessa dupla condição da Paisagem, entre contentor e conteúdo. E há aspetos que se discutem muito em Arquitetura que são fundamentais para a Arquitetura Paisagista, pelo menos a partir dos anos 1950/60 em que há imensos paralelismos, porque a cultura Moderna das disciplinas de Arquitetura e de Arquitetura-Paisagista tem muito em comum. As raízes Modernas da Arquitetura Paisagista são, muitas vezes as mesmas, apesar de não serem cultivadas nos mesmos lugares, nas mesmas escolas.

E há alguns ateliers novos ou mais recentes que acompanhes? Que estejam a fazer projetos interessantes?
De alguma maneira sim. Em Portugal, a crise fez uma coisa terrível que foi a destruição do tecido produtivo da nossa área criativa. Houve imensos ateliers que fecharam ou ficaram moribundos… O meu também passou por essa crise brutal. Primeiro construiu-se, passámos vinte anos a construí-lo. Depois passámos quatro ou cinco anos a desconstruí-lo, e desconstruir significa abandonar, separar-me de pessoas com quem tinha construído uma prática em comum… mas eles geraram outros ateliers. E tenho imenso prazer em ver que há ateliers que se estão a construir de raiz, que partiram de outros ateliers. Isto significa que há uma espécie de reprodução do sistema produtivo, foi algo que a minha geração começou por construir sistematicamente. Portanto sim, existe uma regeneração, como penso que acontece no domínio da Arquitetura. Colaboro e sempre colaborei com arquitetos de uma geração acima da minha, mas também colaboro com arquitetos bastante mais novos do que eu, e isso faz-me ter uma visão bastante privilegiada sobre a realidade, percebo o que se está a passar – e gosto!

 

 

É sempre difícil, nos tempos que correm, fazer previsões, mas que tendências é que vês a acontecer? O que é que gostavas de dizer aos arquitetos que queiram colaborar com arquitetos paisagistas?
Há uma coisa que penso que tenho cultivado, e os meus colegas da mesma geração tentaram fazer o mesmo, que foi cultivar esta prática da colaboração. E o que é que significa isso? Significa que temos de ser capazes de, não abdicando dos nossos pontos de vista, nos colocarmos no ponto de vista dos outros para melhor compreendermos aquilo que estamos a tentar discutir em comum. Ou seja, descentrar da nossa prática criativa, descentrar da nossa perspetiva e sermos capazes de sair de nós próprios e centrarmo-nos sobre o objeto que estamos a trabalhar. E fazermos de um modo generoso, confiante e sobretudo sermos capazes de discutir livre e abertamente um determinado problema, beneficiando dos pontos de vista dos outros e sermos capazes de nos pormos no ponto de vista dos outros. É a isso a que eu chamo de pratica da colaboração.
Há um texto muito interessante de uma entrevista feita a Jacques Herzog e Pierre De Meuron, já há bastantes anos, em que eles falam da colaboração que tinham com Rémy Zaugg(um artista plástico que já morreu), e também daquilo que eles foram absorver de um outro artista fundamental para a prática deles, que foi JosephBeuys, e que me marcou profundamente.E, portanto, esta questão da colaboração (e da disponibilidade para a colaboração) é aquilo que eu desejo para todos os arquitetos e arquitetos paisagistas emergentes, que sejam capazes de promover como cultura comum. É serem capazes de, sem desconfiança e sem segundas intenções, genuinamente e ingenuamente, de se abrirem e de se disponibilizarem para colaborarem. Isto sem perderem as suas especificidades e as suas capacidades, pois disso nunca devemos abdicar. Espero, mesmo que esse espirito seja qualquer coisa que nunca desapareça ou que não se transforme em qualquer coisa negativa, porque deu muito trabalho criar esta confiança mutua e é muito fácil perde-la. Mas estou otimista, sempre! Agora está na altura de sermos otimistas!

 

Autores: Filipa Ramalhete e João Caria Lopes

Imagens © Pedro Frade – Todos os direitos reservados

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