Estudo Prévio

Entrevista a João Santa-Rita

Categorias: Entrevistas

É com enorme prazer que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor João Santa-Rita. Seja bem-vindo! Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico como aluno, como foi o seu curso de Arquitetura e se houve alguns professores ou exercícios marcantes de que ainda se lembra e que traz até hoje consigo.

Antes de mais, quero agradecer o convite para participar na revista Estudo Prévio. Eu ainda faço parte do grupo formado na Escola de Belas-Artes de Lisboa, do primeiro grupo expressivo de Lisboa, que no final dos anos setenta, iniciou o curso na Escola do Porto acabando por formar-se na sua maioria na Escola de Lisboa. Historicamente, o que era normal era precisamente o contrário. Os arquitetos de Lisboa, por motivos não só de qualidade mas também políticos, iam para o Porto completar o curso (porque, supostamente, o Porto acolhia os alunos expulsos de Lisboa).

Portanto, eu iniciei o curso no Porto. Foi um período curto mas muito marcante, sobretudo porque era um curso muito intenso – curiosamente era parecido com o curso que tínhamos na Autónoma, quando o curso se formou – porque, contrariamente ao curso de Lisboa, que na altura tinha dois ou três turnos, o curso do Porto tinha um só turno, tínhamos aulas das oito da manhã até às seis da tarde. Mas eram aulas de grande intensidade, de muito trabalho em atelier, onde trabalhávamos com o apoio dos professores. E eu tive nesse ano dois professores muito marcantes, o Sérgio Fernandez e a Luísa Brandão, sem eles nem sei se teria continuado em Arquitetura. A minha intenção nunca foi ter ido para Arquitetura, queria ter seguido Arquitetura Naval, era aí que estava focado o meu interesse, desenhar navios… mas o Sérgio Fernandez e a Luísa eram professores excecionais e com uma grande relação com o que era o estudo do projeto e com a importância do desenho, no processo do projeto.

Outro professor que tive foi o Fernando Távora. O Távora era um homem excecional, que nos falava de viagens que nós ainda não imaginávamos, que nos reportava a conhecimentos com os quais não tínhamos ainda qualquer espécie de familiaridade. Era um homem de um conhecimento profundo mas de uma simplicidade muito grande na comunicação e na proximidade com os alunos. Isto passa-se no final dos anos 70, o Távora já devia ter uns sessenta e tal anos e aquela distância que poderia naturalmente existir entre o Mestre e os alunos recém-chegados era destruída pela sua grande proximidade, pela sua facilidade de comunicação e por uma grande disponibilidade.
Um dos momentos muito importantes na Escola do Porto foi uma aula aberta em que fomos todos, durante uma semana, acampar para o Convento de Santa Maria – estavam a iniciar-se as obras da pousada, em Guimarães. Fomos todos para lá, chovia e fazia frio, mas nós eramos novos e resistíamos a tudo! E aquilo tudo, com os almoços em conjunto com os operários, era sempre bastante animado e com uma atmosfera muito intensa. Foi um momento bastante importante para perceber toda aquela envolvência da Escola do Porto, a relação que se estabelecia com os diversos contextos, com a realização de uma obra e aquilo que era, naturalmente, a forma de o Távora projetar. Foi para mim o ano mais marcante.

Depois disso havia um fenómeno que acontecia, até meados dos anos 80, em que quase todos nós estávamos integrados num atelier durante o curso. E “saltava-se” muito entre ateliers, trabalhava-se uns dias nuns, outros dias noutros. Se havia um atelier que estava a fazer um concurso, mobilizávamo-nos para participar e ajudar. E eu sentia necessidade de não ficar apenas ligado ao ensino da escola, era importante que este entrosasse naturalmente com a prática e aprendizagem nos ateliers.
Em Lisboa a escola era, naquele período, bastante mais fragmentada. Não possuía a coesão que existia no Porto. Uma das caraterísticas da escola de Lisboa dessa altura é que os anos eram muito diversos, as matérias eram diversas e a continuidade perdia-se muito facilmente. E por isso também era mais natural haver uma maior dificuldade em encontrar o mesmo grau de entusiasmo dos professores, que era uma coisa que se ia perdendo…
O que mais me marcou em Lisboa foi a continuidade da aprendizagem do Desenho. De facto, com a Luísa Brandão, no Porto, foi o grande momento, mas em Lisboa, o Daciano Costa – que era um homem que também tinha uma grande capacidade de ligação com os alunos – foi essencial para perceber para que é que servia esse suporte, essa ferramenta como extensão do nosso pensamento, procurando registá-lo.
A História também foi muito importante para mim, sobretudo no 3ºano, porque descobri uma quantidade de coisas que até lá me diziam muito pouco, do ponto de vista da ligação com a Arquitetura, tudo por causa e através da Maria Calado que é uma professora incrível, com um conhecimento e entusiasmo impressionantes, que nos provocava com um conjunto de matérias. Lembro-me que, nesse ano, introduziu-nos a leitura do Giullio Carlo Argan, sobretudo acerca do Neoclassicismo e os revivalismos – leituras que faziam parte do espírito daquele início dos anos 80, finais dos anos 70 – mas também nos introduziu os arquitetos, ditos revolucionários, como o Ledoux, e também arquitetos que tinham iniciado as revisitações da Arquitetura Romana, entre os quais, muito concretamente, o Piranesi. Foi esse 3ºano que me fez ter ainda mais paixão pelo curso de arquitetura.

E depois, mais tardiamente, um outro professor que entrou no nosso curso, o José Manuel Fernandes – curiosamente, depois, veio a ser um dos fundadores da Autónoma e pilar essencial naquilo que foi a construção da Universidade – trazia um olhar com leituras muito próprias que fazia sobre a Arquitetura, nos temas que trazia, que acabaram por ser extremamente importantes para um final de curso.
A escola, para mim, foi muito mais marcante naquilo que falávamos entre colegas e nessa construção que se foi fazendo, ao longo dos anos, da aproximação ao Desenho, da aproximação aos temas da História, através da vontade de aprofundar o conhecimento.

Também houve um acontecimento importante no curso de Arquitetura, que aconteceu no meu 4º e 5ºanos, que foram as primeiras grandes conferências internacionais de Arquitetura em Portugal. Estamos a reportar-nos a tempos em que a divulgação da arquitetura chegava a Portugal com grande dificuldade, mesmo para os ateliers, não era fácil obter publicações, livros, etc. Para já não falar que antes de 1974, muitos dos livros tinham de entrar em Portugal por baixo dos bancos dos carros por serem considerados subversivos… O “Complexidade e Contradição”, do Robert Venturi, era subversivo…

As grandes conferências que tiveram lugar nas Belas Artes trouxeram personagens como o Peter Eisenman, penso que o Aldo Rossi, o Charles Jencks, o Charles Moore, não me lembro se veio ainda o Robert Stern, o Paolo Portughesi… Passaram todos pela Escola de Belas Artes e isso marcou-nos muito. Do ponto de vista de algum isolamento que conhecíamos em relação ao resto do mundo… era difícil chegar aqui e também era difícil sair daqui, não era fácil atravessar Espanha e os Pirenéus para chegar ao outro lado da Europa. Foi a primeira vez que ouvimos, em direto, falar um conjunto de personagens. Houve até um jornal diário que acompanhou uma polémica entre dois desses arquitetos e que publicou qualquer coisa relativa a diferentes posições sobre intervenções na cidade de Lisboa e isso não era, de facto, algo a que estivéssemos habituados no nosso quotidiano. E foram importantes porque nos deram a conhecer modos diferentes de viver e pensar a arquitetura e, sobretudo, modos radicalmente distintos, nalguns dos casos.

Mas havia sempre esta questão sobre o que é que tinha mais peso na nossa formação. Se era realmente a escola ou se era a formação fora da escola, nos ateliers.

Eu, naturalmente, estava próximo de vários arquitetos. Desde logo, do meu pai (José Daniel Santa-Rita). Mas também o Duarte Nuno Simões (meu tio), o Alberto Oliveira, e ainda o Manuel Vicente, foram pessoas com as quais trabalhei e convivi e com as quais naturalmente ia mantendo dialogo… e por isso há sempre a questão sobre o que, para mim, pesou mais, se foi a formação académica ou se foi esta formação. Ainda no outro dia falava com o Gonçalo Byrne e dizia-lhe: “Lembro-me de uma coisa na qual participou e que, hoje em dia, se contássemos parece quase impossível (mas isso revela a proximidade dos arquitetos nesses anos ): uma das equipas constituídas para o concurso do Martim Moniz foi uma equipa o meu pai, o Bartolomeu Costa Cabral, o Manuel Vicente, o Raúl Hestnes Ferreira e o Gonçalo Byrne!” Isto é uma coisa que ninguém imagina! Que equipa! Com este leque tão poderoso e diverso!

O João Santa-Rita fez parte do 1º grupo de professores que formou o curso de Arquitetura da UAL – Universidade Autónoma de Lisboa. Trouxe, certamente, várias ideias que eram consequência dessas experiências que teve…

Sim. Penso que apenas não estive nas reuniões iniciais, restritas, entre os três fundadores do curso. Estive sempre presente nas várias reuniões que se fizeram para criar e estruturar o curso, para discutir quais eram as matérias, como é que iam ser ensinadas e integradas e a natureza das mesmas.
Desde logo colocaram-se questões. Uma coisa é um curso que está em continuidade e que se reformula, outra coisa é um curso que vai iniciar-se. Foram reuniões memoráveis, discutir o melhor de cada um, a pertinência de determinadas atribuições, procurando sempre que se encontrassem os que melhor podiam responder aos objetivos considerados. Até alguns aspetos que poderiam parecer contraditórios, de professores que tinham formações muito diversas e modos diferentes de produzir e de como é que se conjugavam, foram aspetos muito discutidos.

No início do curso – até um pouco por acaso – acabei por assumir a coordenação dos temas das Construções. O que mais me interessou nessa disciplina, acreditando na importância de a ligar ao conhecimento da História, foi, de alguma forma, procurar que fosse algo que acontecesse logo no início da formação, ao contrário do que acontecia noutros cursos. Que os alunos, independentemente de estarem preparados ou não, tivessem, o mais cedo possível, esse confronto com os aspetos informam a materialidade da arquitetura.
Isso acabou por ser algo que foi introduzido e, penso, aceite por todos. A certa altura criou uma certa distinção da estrutura da UAL, relativamente a outros cursos. Aliás não sei se será ainda hoje, dos poucos cursos, ou o único, que tem essa disciplina desde o primeiro semestre (porque agora é tudo aos semestres).

Mas foram momentos bastante estimulantes. Estivemos uns meses largos a pensar no curso, em ideias e em soluções e isso permitiu – graças à intervenção do José Manuel Fernandes, do Manuel Graça Dias e do João Luís Carrilho da Graça – pensar o curso e, se calhar, é graças a isso que ainda hoje tem o sucesso que tem. Pese embora as dificuldades todas, permitiu lançar um curso com bases sólidas.

Todos nós, de um modo mais ou menos continuo, tínhamos conseguido estar ligados ao ensino, ao longo da nossa vida, e transportámos para o curso aquilo que cada um idealmente imaginava que poderia ser o ensino de uma determinada disciplina. Eu, pessoalmente, não pensei no que é que eu gostava de ensinar, pensei no que é que eu gostava de aprender. Pensava assim: “O que é que me faltou, quando eu era aluno destas disciplinas?”, “Do que gostaria que um professor me falasse?”, “De que forma é que gostaria que este se tivesse relacionado comigo numa matéria tão específica quanto esta? “Que margem é que tenho para inovar o ensino em matérias para as quais é mais difícil cativar o interesse e a disponibilidade dos alunos, uma vez que não entendem de imediato o seu objetivo e a sua utilidade?”. E é preciso sublinhar aquilo que é extremamente importante, que é a antecipação da materialidade da arquitetura, perante uma fase de representação bidimensional, e como é que isso se transmite aos alunos, logo de início. E foi isso que eu procurei.

Até porque eu, posso confessar, não gostei nada de andar na escola de Belas Artes, e se calhar estou a ser muito injusto com muitos colegas e professores, mas nunca tive uma grande relação com a escola. Não gostava muito nem dos horários, nem de cumpri-los, de cumprir tarefas, entendia a aprendizagem de uma forma mais livre do que na prática acabava por ser realizada e orientada. Mesmo numa escola como as Belas Artes, e tinha colegas nas engenharias que diziam que nós não tínhamos horas para nada, eu respondia que sim, não tínhamos horas e que as que tinha, custavam-me. Portanto, para mim foi muito difícil criar ligações à própria escola, tirando o grupo de amigos, que era o essencial. Mas, de facto, não foi uma relação fácil. O mundo do atelier dizia-me mais, desse ponto de vista. Era mais estimulante enquanto forma de aprender. E agora o ensinar obrigava-me a refletir sobre o modo de cativar o interesse e a atenção dos alunos. No início foi muito intenso e animado, até tínhamos uma oficina que nos permitiu fazer muitos trabalhos inovadores, em carpintaria e em serralharia. Lembro-me de um ano em que um grupo de alunos executou, em perfis de aço, parte da estrutura do pavilhão suíço do Corbusier, à escala de um para dois. Tudo isso deixa-me grandes recordações de um modo de ensinar muito próximo dos alunos.

Quando acabou o curso de Arquitetura, como foi o seu percurso?

Durante o curso, a nossa vida compreendia o lado da frequência da escola e participação na vida académica com o trabalho e a aprendizagem nos ateliers, como referi. Eu, quando saí da escola, tive um ano ou dois muito pouco lineares, acabei por participar em muitas coisas, com vários colegas e arquitetos. Também fiz algumas parcerias com outras áreas profissionais. E esses dois anos, entre 1983 e 1985, foram muito vividos assim… Tive a oportunidade de fazer algumas obras, sobretudo na área de reformulação de andares em Lisboa e a construção de umas casas que nunca chegaram a ser concluídas ao pé de Azeitão… E depois fui para Macau.

Conhecia o Manuel Vicente (MV) há muitos anos, o meu pai e o Manuel (MV), além de grandes amigos, até tinham tido um atelier em conjunto nos anos 70 e 80 … Acabei, de alguma forma, por provocar uma ida para Macau! Apareci lá um dia de férias na Páscoa… Estava a colaborar com o Manuel Graça Dias (MgD), que estava a preparar uma das grandes exposições de Arquitetura em Portugal, com o Carlos Duarte, a exposição Tendências da Arquitectura Portuguesa. Um dos arquitetos representado era o Manuel Vicente e havia que preparar o material para a exposição e o Manuel Graça Dias desafiou-me para colaborar na preparação desse material, estabelecer os contactos com os vários ateliers e garantir que enviavam os desenhos, fotografias, textos e dados a tempo, para, depois, o Manuel (MgD) e o Carlos Duarte, tratarem da seleção e exposição do material enviado. Isso, para mim, foi muito agradável, porque me ajudou a conhecer melhor o Manuel Graça Dias e a conhecer o seu modo de estar na Arquitetura. E um dia eu disse-lhe: “Olha o Manuel (MV) nunca mais manda as coisas, não te preocupes que eu vou passar uns dias a Macau e tento trazer ou pelo menos tento pôr lá o material em dia!” E foi o que eu fiz! Fui lá passar quinze dias, dos quais dediquei cerca de 70% a trabalhar e a reunir aquele material todo… que magníficas férias! No meio disso tudo, acabei por me envolver num concurso; faltavam 4 ou 5 dias para voltar, o Manuel (MV) tinha recebido um convite para participar no concurso para o World Trade Center em Macau e nós fechámo-nos no atelier e lá se fez o concurso! Passado uns meses o Manuel (MV) ligou-me (às 4 da manhã) a dizer que tinha ganho o concurso e a perguntar se eu não queria ir até lá passar uma temporada. As coisas aconteciam assim de um modo muito natural. Eu refleti um bocado e pedi uma grande ajuda ao meu pai para controlar umas obras e projetos que eu já começava a fazer – tinha um pequeno hotel em construção, tinha mais umas habitações para uns amigos. E pensava que ia só uns meses, ia colaborar no estudo prévio e depois regressava. Acabei por ficar quase dois anos em Macau.

Eu penso que muitos de nós não saíam, ficávamos por cá, porque tínhamos trabalho e os amigos e a vida a começar. Eu, de facto, quis sair de Portugal. Não foi uma coisa para a qual fosse impelido. Nesses anos também se viviam tempos difíceis em Portugal, até oitenta e tal, foram anos muito animados porque havia muito trabalho nos ateliers, mas também havia muita falta de dinheiro no país… Havia uma tremenda dificuldade em receber. Eu lembro-me que recebiam-se letras, os ateliers eram pagos com letras, o Estado pagava a um, dois anos… Havia muita escassez de dinheiro, mas ao contrário de hoje existia ânimo. Mas não foi exatamente isso que me levou a sair. Eu queria ir estudar para fora, e infelizmente não consegui ir para onde desejava, e a segunda opção era ir para fora trabalhar.

E acabou por ser extremamente importante para a minha formação, porque era uma relação muito diferente com a Arquitetura, com o modo de fazer… Tivemos três ou quatro momentos muito importantes no atelier, que nos marcaram mesmo muito: o segundo concurso realizado para a Baía da Praia Grande, um concurso que o Manuel (MV) fez com o meu pai para o Centro da Fundação Aga Khan em Lisboa (que não é o que está hoje construído) … Tudo foi marcante até do ponto de vista da facilidade com que as coisas aconteciam em Macau! Havia recursos muito diferentes dos que havia no nosso país e isso permitia pôr coisas em prática com muito maior facilidade.

E o atelier funcionava com uma grande presença do Manuel, da sua autoria, mas também com uma grande liberdade! E isso permitia-nos, muito facilmente, entre os que lá estavam, criar raízes e amizades profundas e trabalharmos muitíssimo! Porque era assim. Recordo-me de passarmos três ou quatro noites sem sequer dormir para acabar uns concursos e não descansávamos! E isso permitiu participar em muita coisa. Depois também permitiu outras coisas… Quando eu cheguei a Macau, o Manuel tinha sido operado e estava muito debilitado e teve que vir para Lisboa para uma convalescença relativamente grande e foi preciso que todos nós, e éramos novos, com 25/26 anos, assumíssemos responsabilidades muito grandes no atelier. Recordo-me de que eu tinha uma procuração de plenos poderes! Assinar contratos, desfazer contratos, garantir pagamentos do atelier, movimentar dinheiro, etc.! E eu tinha essa responsabilidade que até me assustava! E isto também revela a maneira como o Manuel se relacionava com as pessoas e como confiava nelas. E a forma como nós também tínhamos de saber gerir essa responsabilidade e saber honrá-la. O que é que isto também nos permitia? Era perceber, desde muito cedo, mecanismos que não percebíamos se não tivesse havido essa contingência.

Por outro lado, em Macau – contrariamente a Lisboa, onde se faziam muitos projetos, mas apenas uma pequena percentagem era efetivamente construída – uma grande percentagem dos projetos eram construídos. O que significa que nesses dois anos o atelier teve um conjunto de edifícios em construção, com alguma dimensão, e todos eles muito diferentes, institucionais e privados, arranjos de interiores, museus, instalações da televisão, habitação, habitação social, escritórios… tudo isso, para um jovem arquiteto era algo muito relevante. Eu lembro-me de que, no segundo dia em que cheguei ao atelier, fiquei logo encarregue de um projeto de execução para uma agência de um banco e ainda do acompanhamento de uma obra! E também me lembro que, nesse projeto de execução, tive de desenhar uma série de caixilhos, que nesse tempo eram em ferro ou em madeira – fiz uns pormenores, e o Manuel criticou-me muitíssimo, porque os meus pormenores não resistiriam à primeira leva de vento, ali não era como em Portugal, havia tufões! E, portanto, essa foi uma experiência mesmo muito marcante, que me permitiu olhar para a Arquitetura de um modo diferente!

Esse distanciamento de Portugal foi importante para ti? Também para criar uma identidade distinta do contexto familiar? Sentiste essa necessidade?

Não sei se foi tão consciente ou não. Eu fui para Macau porque queria conhecer de perto o modo de pensar e de trabalhar do Manuel e sabia que havia coisas que me interessavam que não encontrava no universo de Lisboa.
Mas posso dar uma ideia melhor do que motivou a minha saída. Por um lado, interessava-me mesmo muito alguma aprendizagem do que se estava a fazer nalgumas escolas nos Estados Unidos. Fascinava-me a Califórnia. Havia alguns jovens arquitetos que começavam a destacar-se que me interessavam pela sua liberdade construtiva, pela forma como tinham uma relação com uma espécie de arquitetura não-efémera, mas efémera simultaneamente, através da sua própria materialidade. Arquitetos como os Morphosis, alguns trabalhos iniciais do Frank Ghery, nos inícios dos anos 80. Ao mesmo tempo, o oriente tinha uma escala completamente distinta. A intensidade de Hong Kong, que é uma cidade estranha porque não tem aquilo que esperamos encontrar numa cidade ocidental – faltam-lhe praças, largos – há uma estrutura intensamente densa, que funciona muito bem com a topografia, com a paisagem, com a dinâmica comercial e a própria vivência da cidade… E eu devo dizer que gostei francamente de Macau logo no primeiro dia! Aliás, tenho tido a sorte de ir lá com alguma regularidade e sempre que vou regresso com profundas saudades e digo sempre que poderia ter vivido ali o resto da vida, sem qualquer problema. Não me incomoda o clima. Gosto que seja pequeno mas intenso, hoje além do mais tem possui um caracter cosmopolita que faltava na altura. Gostar de Macau também foi importante para construir afinidades com o território.

Obviamente, a minha saída para Macau, ajudou-me muito a entender aquilo que me interessava. Aquilo que queria e a forma como me fui aproximando da Arquitetura. E uma das coisas que me marcou, certamente, foi a própria aprendizagem daquela cidade, que era muito diferente de Lisboa. E foi, sobretudo, importante distanciar-me por algum tempo da cultura que se vivia no país.
Havia coisas que me interessavam muito, e não sei se até hoje as terei conseguido ou não incorporar no meu trabalho, que se prendem com a leitura que faço de alguns aspetos da História e da relação das construções com os locais e com a própria natureza da sua materialidade.

Eu precisava de me distanciar do trabalho, da encomenda que começava a ter em Portugal. Estava ali a trabalhar num atelier e tinha o meu tempo para ir desenhando. E foi curioso porque, este ano, realizou-se uma exposição em Macau sobre o Manuel Vicente, organizada pelo Rui Leão e pela Carlota Bruni, e convidaram vinte e tal pessoas, muito diferentes, que estiveram ligadas ao Manuel (MV), para escrever e conceber um conjunto de painéis que ilustravam o que tinha sido o seu trabalho no atelier do Manuel Vicente e o que tinha sido o seu trabalho ao longo da sua vida, desde então. E eu enviei dois painéis, que estabeleciam um paralelo, os desenhos que fazia para os projetos no ateliê do Manuel Vicente e os desenhos que elaborava livremente, ao fim de semana e à noite, a pensar num conjunto de possíveis intervenções para Macau. E agradou-me, passado quase 30 anos, cruzar esses dois momentos.

Sobre a experiência como professor, falaste sobre a disciplina de Tecnologias mas agora estás a dar Projeto (2ªano), a alunos substancialmente diferentes. Fala-nos um pouco desse desafio.

O ensino da Arquitetura pode evoluir – mas há questões que são, de facto, constantes. Fazem parte do grande corpo do ensino da Arquitetura. Há sempre matérias novas, há sempre questões novas, há a própria história que evoluí, há novos pontos de vista, diferentes dos pontos de vista de há 20 ou 30 anos atrás, há matérias novas do ponto de vista tecnológico e tudo isto é fundamental… Mas eu diria que não há uma substancial distinção entre o modo de ensinar Arquitetura há uns anos e agora. Os temas estão todos presentes, não há uma limpeza de matérias, existem é mais matérias! Mas as outras continuam. É evidente que há uma evolução do pensamento tal como do modo de pensar a arquitetura e isso, naturalmente, reflete-se no ensino, mas no modo como são abordados os temas e as matérias que surgem a propósito dos mesmos.

E, evidentemente, o curso começou com uma determinada dimensão, evoluiu e agora, de alguma forma, redefiniu-se. Há mais alunos que vêm de fora do que alunos portugueses. Há uma grande diferença face ao grupo de alunos de há alguns anos, formados em Portugal, que vinham com níveis de conhecimento do secundário que nós conhecíamos. Agora, há alunos com níveis de formação diversos, até com culturas diferentes, temos um grande contingente de alunos de Angola, no 1º ciclo. Isso obviamente traz, para o curso, um desafio grande. Para mim, não é propriamente uma novidade, uma vez que tinha dado aulas, entre 1996 e 2001, com o Pancho Guedes, na Lusófona, e era uma realidade mais ou menos parecida com a da UAL, de hoje em dia.

E estes alunos trazem ou vão construindo as suas referências de uma forma mais global, internacional, face ao que acontecia no passado?

Não sinto isso no 2º ano, mas é natural que, nos anos mais avançados, isso se sinta. Primeiro porque nós temos sempre esta eterna questão com a Arquitetura: é muito difícil, para um aluno de 2º ano, atingir níveis de cultura de conhecimento diversos, dos campos das Artes, da Literatura, da Filosofia, do Pensamento, etc. É muito difícil adquirir conhecimentos e, até, cruzar os mesmos. Um aluno até se pode interessar imenso por leitura e ler diversos autores mas, depois, entende de imediato como essa cultura, até para uma coisa tão direta como a escrita, pode contribuir para a disciplina de projeto.

Portanto, essa questão sobre o peso das suas referências ainda me parece, nos primeiros anos, muito deficiente. Falando abertamente, e é no fundo aquilo que dizemos aos alunos, falta-lhes cultura! Mas eu também acho que já faltava aos outros alunos dos anos anteriores! Se calhar, o que acontece é que para os outros algumas matérias eram pelo menos familiares. Não as conheciam tão bem quanto desejávamos, mas já lhes tinham passado pela frente, de diversas maneiras, numa visita, ou porque o professor de História já tinha falado… Agora não. Agora, para muitos, são naturalmente matérias inteiramente novas porque, a cultura dos lugares de onde vêm é distinta da nossa. Nós temos, naturalmente, um ensino muito estruturado na cultura ocidental. Não estudamos arquitetura chinesa, por exemplo. E, portanto, temos sempre esta questão, se um dia recebermos alunos chineses no 1º ou no 2º ano, para eles fará muita diferença aprender a Arquitetura através de exemplos, centrada numa determinada realidade geográfica e cultural distinta da sua. E, portanto, obviamente, são sempre questões que temos de ir limando…

Isso depois sente-se em tudo. Na própria disciplina de Projeto. Há referências que são totalmente distintas e, naturalmente, isso também gera maior interrogação da parte dos alunos.

Quanto a Projeto, eu comecei a dar aulas de Projeto na UAL com o Manuel (MV) e com a Madalena (Cardoso Menezes), os programas eram muito abrangentes e permitiram exercícios bastante pertinentes e válidos, e também muito diversos, mas foram feitos com grandes turmas, de 50/60 alunos. O que fazia com que em grupos dessa dimensão existissem sempre alunos que alavancavam outros e portanto a turma elevava, naturalmente, a sua qualidade, porque uns sentem-se forçados e impelidos a acompanhar o trabalho dos outros… Isso dava uma perspetiva do curso, ou melhor, do 2º ano, em que nós chegávamos ao final do ano e tínhamos um corpo de alunos que tinha um perceção da cidade, tinha refletido sobre as suas diversas componentes, olhado para realidades muito distintas, trabalhado sobre alguns programas e adquirido um conjunto de competências, e isso deixava-nos, razoavelmente esperançados com a sua passagem para o 3ºano de Arquitetura e, depois, para o Mestrado. Aí é que eu acho que mudou, radicalmente, o panorama da universidade, temos de dar mais atenção à aquisição de competências e de ferramentas, as quais esperávamos que, melhor ou pior, já estivessem dominadas. Nesse aspeto existe uma grande décalage entre o passado e presente.

E, por tudo isso, a disciplina teve de ser adaptada?

Sim, teve de ser um pouco adaptada. Há trabalhos que têm de ser realizados, inicialmente, para ajudar os alunos a adquirir ferramentas, do ponto de vista do desenho, da representação, da elaboração de modelos… Quase tudo é uma novidade. E isto obriga a, de uma certa forma, repensar como abordar temas que permitam adquirir um conhecimento mais abrangente e que permita obter uma noção mais precisa da relação de um objeto com um qualquer contexto.
Mas, sobretudo, eu diria que se mantém a forma como sempre estive envolvido no ensino da arquitetura – apesar de tudo eu já tinha dado Projeto em várias escolas – sempre privilegiei coisas que partissem de uma intervenção na cidade para depois ir decrescendo, até chegar a um objeto, que sairia dessa intervenção mais alargada.

No fundo, espero que os alunos aprendam a redefinir a escala e o contexto, para que, no 3ºano, possam ter uma outra competência e facilidade para lidar com desafios de outra natureza.

Mas, no fundo, o que caracteriza uma escola é o facto de os alunos poderem ter professores diferentes, com abordagens diferentes e, desse ponto de vista, eu procuro que hajam coisas singulares. Durante dois anos realizei um exercício que constitui um modo de envolver os alunos em aspetos da cultura ocidental e introduzi-los naquilo que podem ser os grandes temas do espaço e da arquitetura, e era também uma forma de colocar os alunos a pensar e repensar a representação da arquitetura, permitindo simultaneamente que evoluíssem em alguns aspetos como seja o caso da representação em desenho e através de maquetas. Este exercício fazia-se a partir da seleção de 3 ou 4 gravuras dos Carceri de Piranesi. Os alunos eram convidados a estudar as gravuras, a atribuir uma escala, a entender os paradoxos e contradições daquelas representações, o que representavam, o contexto no qual tinham sido realizadas, o que significavam naquele momento, o modo como constituíram e constituem uma constante referência. Os alunos depois tinham de fazer uma espécie de extensão daquela gravura, de imaginar e completar o que estava para lá da imagem, e de pensar como é que podia ser balizada dentro de um determinado invólucro e como poderia interagir com os espaços da cidade.

Ao longo destes anos, o curso foi-se alterando por essas circunstâncias de que fala, mas, ao mesmo tempo, a saída da universidade para o mundo laboral também é diferente. Que percursos estão disponíveis para os alunos, depois de acabarem o curso?

Posso estar errado, mas eu acredito que a formação do arquiteto é algo, mais ou menos, universal. Ou seja, há colegas e universidades que entendem que a formação deve ser dirigida para uma determinada realidade. A verdade é que a realidade é uma coisa circunstancial e pode ser alterada a qualquer momento. A formação não é para uma realidade estática… Neste momento, em Portugal, assim como em muitos países europeus, não há muito mais a fazer do que a reabilitação das construções existentes. Isso não faz de nós professores orientados apenas para essa realidade. Essa possibilidade de intervenção existiu sempre, mas a verdade é que essa preocupação nem sempre fez parte do nosso olhar sobre a realidade, compreender o que existe, compreender como é que se vive agora e compreender, sobretudo, numa realidade como a europeia, como é que se intervém num contexto para o qual concorrem inúmeras questões.

O mesmo acontece do ponto de vista das saídas profissionais. E aí sim, como dizia, há matérias que são novas. A realidade não é mais complexa mas não tenho hesitação em dizer que tem uma complexidade diferente. A nossa realidade é muito distinta do que era há 20/30 anos atrás. Há dias, para um trabalho que estou a iniciar, tive a curiosidade, de olhar para a lista dos projetos a elaborar e cheguei à conclusão que o projeto tem 27 especialidades envolvidas! O que significa que, se calhar, 30% do tempo que se vai utilizar é para gerir equipas, e ver se o vigésimo sétimo está em dia, se o vigésimo quinto não se esqueceu de três papéis… e depois incorporar toda essa informação num projeto! É muito diferente! O mesmo projeto, há 20 anos atrás, tinha quatro especialidades, quatro técnicos envolvidos e esgotava-se aí. Portanto, desse ponto de vista, são as tais matérias que concorrem para o projeto e que acredito que são ensinadas, relativamente ao passado, com uma atenção maior. E até, quem sabe, com uma competência maior. Há matérias do foro da tecnologia que acredito que sejam ensinadas com outra competência. Muitas delas têm, hoje em dia, um conhecimento científico que não tinham, tinham um conhecimento mais empírico E, para que os arquitetos mantivessem a sua visão integradora, é evidente que as universidades acabaram por incluir esse tipo de conhecimento. E isso parece-me bem porque é, de facto, uma possibilidade que permite que os arquitetos, quando saem de uma universidade e quando decidem iniciar a sua atividade profissional, acabarem por ter várias opções. Porque a Arquitetura permite isso. A Arquitetura permite não só possibilidades fora do seu campo – todos nós temos colegas que acabaram por ser fantásticos profissionais em áreas completamente distintas, na escrita, na produção de televisão, como realizadores de cenários para filmes, como músicos, como pessoas ligadas à moda – porque o curso permite também uma apreensão muito particular de outras realidades, a par de aspetos mais concretos, relacionados com a Arquitetura, mas nunca se esgotam apenas na área do Projeto. E, de facto, há pessoas que têm apetência para coisas completamente distintas. E, desse ponto de vista, é natural que os cursos integrem mais um conjunto de novas matérias.

Uma dúvida que tenho, é relativa à relação que existe entre aquilo que se passa dentro da universidade e aquilo que se passa fora. Por exemplo: acho que uma das grandes lacunas que as universidades parecem ter, são as visitas a obras. O João (Caria Lopes) fez parte de uns anos em que nós tínhamos na disciplina de Tecnologias uma coisa que se chamava Diário de Obra. No 1º ano, os alunos começavam a ir a obras. Independentemente da qualidade da obra, porque era impossível encontrar 30 obras com a mesma qualidade, permitia que os alunos pudessem, desde o início, ter uma linguagem comum, saber de que se estava a falar, perceber o que é o trabalho. Havia um caminho que se ia percorrendo, apercebiam-se dos trabalhos que se realizavam e da sua evolução, aprendiam o que era a realidade de uma obra.

Tudo isso se modificou. Há três ou quatro anos fizemos umas visitas a obras da Parque Escolar e foi muito mais complexo… garantir que todos têm seguros e vão com os capacetes, com os coletes, com as botas, que ninguém pode chegar atrasado. E a visita é como um carreiro de formigas porque é difícil fazer a visita com os trabalhos em obra – se se interrompem os trabalhos vem a fiscalização e diz que estão atrasados porque receberam a visita de estudo! Isto é uma realidade completamente distinta! Mas é algo que faz falta! Não sei bem como é que isso se pode colmatar, se é através de protocolos com duas ou três grandes empresas de construção… Não é fácil levar uma grande quantidade de alunos para visitas de estudo, sobretudo em continuidade, porque isso é que interessava! Mas eu percebo que para uma obra, ter a UAL, ou a Lusófona a pedir dez visitas, só em Lisboa, se as universidades todas pedirem dez visitas, são sessenta visitas num ano e eles dizem logo: “Bom, ou pára a obra ou então temos de pedir ao dono de obra mais dois meses só para incorporar as visitas de estudo!”.

Mas eu penso que era um aspeto importante porque sendo as saídas profissionais tão diversas, parecer-me-ia importante que os alunos tivessem essa oportunidade. Sobretudo porque eu estou convencido de que os alunos formados em arquitetura continuam a ter uma visão global do processo de uma construção, do que é a arquitetura e do que é um edifício, e isso permite-lhes estarem melhor preparados. São mais integradores, não têm uma visão muito específica.

Por outro lado, há inúmeras coisas que os arquitetos, hoje em dia, também podem fazer, por exemplo, no campo da visualização em 3D, que é um mundo enorme, há muita gente que faz disso a sua atividade. Há também trabalhos mais efémeros e há os do planeamento, por exemplo, que são fundamentais. E nessa área os arquitetos têm uma grande importância no papel de olhar e intervir no território. A esse respeito, se olharmos para a exposição que está agora a acontecer no CCB, do João Luís Carrilho da Graça, é uma tradução disso. O território de um edifício acaba por ser uma cidade inteira, depois há o lugar em específico, mas em última instancia, é a cidade que importa.
E, até por estas particularidades, temos tido a nossa profissão muito reconhecida no exterior, porque temos um território muito diverso, temos uma história muito diversa, temos cidades muito distintas, realidades muito distintas, o que nos permite ter uma formação muito particular no olhar e no saber ver, que, de alguma forma, nos torna aptos para intervir em contexto muito diversos, ter essa capacidade de, facilmente, os apreender. Se calhar outros países estarão mais presos a uma realidade menos heterogênea, e isso não lhes permite essa faculdade.

E depois, a formação que temos tido, ao longo dos anos é muito idêntica de escola para escola – nós não temos, em Portugal, escolas com ensino muito específico e até muito fraturante no modo de ensinar arquitetura, como têm alguns países, como os Estados Unidos, ou até algumas escolas na europa, como tinha, a certa altura, a Holanda ou até a Inglaterra. Mas temos um ensino coeso e muito bem estruturado, com um corpo forte na forma como faz o cruzamento de outras matérias e até da forma como ensina a Arquitetura e particularmente o projeto, e isso tem sido um aspeto positivo para os nossos alunos quando saem da universidade.

Com a experiência que tem tido com a Presidência da Ordem dos Arquitetos, a ideia que tinha da profissão foi alterada? Ou melhor, qual é o atual estado da profissão em Portugal?

Não é por estar dentro ou fora da O.A. que se tem uma visão diferente da profissão. Só seria muito diferente se eu estivesse muito arredado do projeto, mas como fui sempre arquiteto e nunca deixei de o ser, a realidade que eu imaginava que era a profissão não é muito diferente por eu estar na O.A. Tenho é mais dados e mais informação sobre a profissão e, sobretudo, do que é a profissão na realidade no contexto europeu. E tive uma surpresa muito grande – porque nós temos a tendência para achar que aquilo que se passa no nosso país é único, seja bom ou seja mau – que foi perceber que o mundo, do ponto de vista da arquitetura, tem uma perceção deturpada do que é a importância da realidade arquitetónica. Ou seja, se há países em que a Arquitetura é uma realidade muito estimada, na maioria dos países, a arquitetura não é nada estimada, em todos os sentidos. Em termos de processo, não importa o que se faz, nem como se faz, o que importa é fazer, importa é as coisas serem realizadas, mais do que a qualidade em si mesma e as condições que estão subjacentes.

A arquitetura como disciplina ou isso implica também uma imagem subvalorizada do próprio arquiteto?

Acho que, para a maioria das pessoas, a disciplina não existe, que é logo o primeiro grande problema. Se nem se percebe o papel do arquiteto e o que é que a arquitetura pode ter de mais-valia para uma sociedade, a disciplina então nem existe! A valorização do arquiteto não é tanto por si, mas sim pelo que ele faz. E enquanto não se valorizar o espaço onde habita-mos, onde nos encontramos, dificilmente se valoriza quem está por detrás. E isso sente-se em tudo! Sente-se na desvalorização dos próprios mecanismos, das concretizações, do próprio trabalho. Sente-se até na forma como se distribui trabalho. E nós sabemos que os concursos são sempre controversos, há sempre ideias que se confrontam, mas concursos que se baseiam na qualidade do projeto é uma realidade que nos diz muito, porque se está apenas a discutir o que é melhor para uma determinada realidade. Neste momento, sabemos que não é essa a realidade, até chegámos à fase mais crítica, lamentavelmente, que é quase um leilão. Em fases subsequentes do concurso, poder-se oferecer mais isto e considerar menos…

Acho que isso são sinais de uma enorme falha cultural e que há-de resultar, certamente, em grandes dissabores. Porque, no fundo, nós somos, eventualmente, mais exigentes do que eram os nossos antepassados próximos. Temos noções do que é a comunidade e do que é estar e do que é participar, completamente distintas, mas acabamos por ser menos exigentes, do ponto de vista da qualidade do que nos rodeia. Isso verifica-se muitas vezes por parte de quem toma decisões, quem tem muita força nestas questões, acabando por, em muitos momentos, revelar verdadeiros retrocessos em muitas matérias. Eu penso que isso vem muito dessa falta de reconhecimento da importância e da relevância da arquitetura para a construção da nossa realidade.

Mas a culpa não é só de quem decide, também é nossa, dos arquitetos. Nós também faze-mos parte desse problema. Eu estive há dias no DAC, Danish Architectural Center, e fiquei perplexo, porque eles têm um centro com alguma dimensão e com qualidade e estão a fazer um centro ainda maior, que é um projeto do Rem Koolhaas, na margem do porto de Copenhaga. Fica uma questão: “Como é que um centro de arquitetura na Dinamarca – porque há vários em França, em Londres, há a Casa de Arquitetura em Portugal… – consegue neste momento lançar-se na realização de uma obra de tão grande dimensão? É que grande parte do sucesso do DAC resulta justamente da forma como foi capaz de entrosar todos os diversos aspetos e componentes da sociedade com os seus programas de divulgação e promoção da arquitetura. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que aquilo não é um centro exclusivamente para arquitetos, é um centro para todas as pessoas, para todos os profissionais. Tem eventos de natureza muito diversa ainda que dirigidos para a arquitetura, mas que colhem um interesse mais alargado, visitas temáticas… É um centro onde acolhem desde crianças de 4/5 anos – que estão no infantário e podem ir para lá brincar em ateliers – até aos cidadãos mais velhos, que podem ir lá em visitas ou almoçar. E o que é que isto significa? Significa que o DAC consegue ter uma grande importância na comunidade, tal como um grande reconhecimento da sua atividade . É claro que sabemos que isto é fácil em países que têm níveis e hábitos culturais diferentes dos nossos, até do ponto de vista das suas relações e da forma como constroem o seu dia-a-dia, e na forma como tecem as relações da sociedade, mas é uma realidade que nos faz pensar, não é?

Mas a verdade é que estaremos entre os povos europeus em que a relação com a arquitetura é muito intensa, porque temos cidades com centros muito antigos, com muita história, e também com muitas realizações recentes, mas a verdade é que, no dia-a-dia, a relação com a arquitetura é de um total desinteresse. Não há uma preocupação, a todos os níveis, pela qualidade do que se oferece. É tudo um pouco indiferente. É uma espécie de “tanto faz” que faz muita confusão. Na arquitetura nada tanto faz! Há dias, quando estava na tal visita a Copenhaga, ia com uma pessoa que até dizia “Isto até chateia porque é raro entrar num edifício que não tenha qualidade!” Tudo tem uma espécie de uma norma de qualidade estabelecida. E isso traduz a preocupação de quem faz em fazer o melhor que sabe, traduz a preocupação de quem usufrui de encontrar coisas que tenham qualidade e onde se sinta bem. Para nós é tudo um pouco indiferente… Embora isso tenha mudado um pouco, recentemente. E acho que mudou porque as gerações mais novas se movem mais e acabam por trazer mais referências e estar mais abertas para liderar essa mudança.

Nós (arquitetos) certamente não abdicamos de fazer com qualidade e não abdicamos de entender que aquilo que temos para fazer modifica os ambientes, modifica a cidade – tem todo esse grau de intervenção – mas também é importante perceber, para quem está do lado de lá, o que é que significa. E histórias todos nós temos para contar, que na obra o diretor diz que agora quer as paredes assim e assado, e respondemos que nós é que somos o arquiteto e nos dizem que eles é que mandam… Isso são histórias que todos nós temos, desde a obra pequena à maior… Mas isso só espelha essa falta de reconhecimento.

Eu não me atrevo a dizer, se vou ao meu médico e se ele me vai operar, “Ó senhor doutor, desta vez, desculpe lá, mas eu não estou de acordo que o bisturi entre por aqui, e eu acho que deve cortar da esquerda para a direita porque não gostei nada destes cortes que me fez aqui…Isto agora tem de ser com outras laminas ou outra coisa e desculpe lá, mas não me vai dar a anestesia como deu, vai dar para mais uma hora e meia, e antes de entrar para a operação vamos lá fazer um desconto!”

A verdade é que uma coisa que é tão importante para o bem-estar como a Arquitetura, se calhar não é de compreensão imediata, nem é de vida ou morte. A diferença, em vez de acontecer imediatamente, vai-se notando ao longo da história e ao longo da nossa vida.

A Europa deixou, desse ponto de vista, de ser um referencial. Se calhar é um engano para todos nós porque temos a Europa em elevada consideração em muitas matérias. Mas deixou de o ser desse ponto de vista porque, em nome de muitas coisas, está a desvalorizar umas tantas outras. E os países que desvalorizam, de certa forma, a qualidade da sua arquitetura, desvalorizam-na porque isso já está enraizado na sua sociedade. A realidade, desse ponto de vista, é muito adversa, para algumas coisas que nós arquitetos defendemos. O mundo da arquitetura tem de estar muito atento e preocupado com aquilo que é uma visão europeia destas áreas profissionais. A excessiva vontade de burocratizar tudo, muito papel para preencher, muita carta, muito relatório para fazer, exigências e regras para tudo… Apenas com a intenção de ter alguém responsável quando a coisa der problemas… A qualidade fica só para 3 ou 4 obras mais visíveis e mais importantes e para o mundo do dia-a-dia é um pouco indiferente.

Perante todos estes desafios de que estamos a falar, prevê um futuro negro para a arquitetura ou acredita que temos caminho para andar?

Se eu não acreditasse na arquitetura, deixava de ser arquiteto! Ou seja, eu acho que não tenho uma visão pessimista. Acho que procuro ter uma visão realista, com uma grande dose de otimismo porque, no fundo, é isso que me faz querer fazer coisas e ter prazer nisso. Só com otimismo é que conseguimos combater aquilo que é mais negativo e adverso! Mas também não nos podemos iludir e pensar que é um mundo cheio de coisas positivas e de fácil resolução porque, de facto, há muita coisa negativa pelo meio e para contrariar é precisa muita perseverança e trabalho de muitos. E o que me faz mais impressão não é haver coisas negativas ou positivas, é o facto de muitas coisas negativas parecerem naturais para muitas pessoas, e por vezes até para quem tem responsabilidade nas decisões.

Mas a arquitetura há-de sempre existir! Naturalmente, vai evoluindo, como sempre evoluiu. E, certamente, vão mudando muitas coisas, como também aconteceu ao longo da história. Não vejo que por aí venha a destruição. Pode é pensar-se que o que se faz podia ser melhor. Ao longo de 40 anos de história, dos anos 70 para cá, fez-se muita coisa. Construíram-se muitas escolas, equipamentos, criaram-se melhores condições, fizeram-se centros de saúde, universidades… e, agora, com a população estudantil reduzida, há problemas, mas as universidades estão feitas! Haverá outras que ainda faltam fazer. Não se pode achar que quem vai fazer uma nova estação de caminho-de-ferro é logo um criminoso e só quer dar cabo do erário público. Haverá sempre necessidade de fazer coisas… Um exemplo concreto é o facto de nós recebermos mais estudantes de fora do que recebíamos, como sabemos, e não ter-mos estruturas de acolhimento suficientes, inclusive para os estudantes portugueses, como têm outros países, estamos muito mal preparados, e os estudantes acabam por organizar-se e alugam uns apartamentos… Se calhar são áreas em que as universidades têm uma grande falha, não têm as chamadas residências de estudantes. Portanto, há sempre áreas onde temos de investir se queremos captar outro tipo de público.

Mas também sabemos que há muito por fazer neste país. Basta percorrermos as nossas cidades e percebemos que há, de facto, muito por fazer. Agora, a natureza do trabalho é outra, são intervenções diferentes. E isso é importante para quem está aqui a estudar… A verdade é que, deste ponto de vista, como dizia, temos um país muito mais equipado do que tínhamos. Mas haverá sempre faltas. Umas bibliotecas ali, alguns espaços de cultura acolá, um museu nacional.

Por exemplo não existe um museu nacional de arquitetura, simplesmente não existe e tem sido adiado consequentemente! E isto denota bem a forma como se dá importância e se valoriza a arquitetura! Não sei quantos países da Europa não têm um museu de arquitetura, acredito que poucos, mas sei que Portugal é garantidamente um deles.

Outra coisa curiosa, que tem a ver com isso, Portugal só este ano é que teve uma resolução do Conselho de Ministros sobre uma política nacional de Arquitetura e Paisagem, que é uma coisa pela qual os arquitetos se vêm a bater há muitos anos Isso denota como estes temas são desvalorizados. E se nós queremos também acreditar que a Arquitetura é um bem e será algo que terá implicações, bem ou mal, no futuro, é importantíssimo criar políticas para a sua implementação e para a participação dos arquitetos em muitas das tomadas de decisão inclusive. E isso, obviamente, passa por esse reconhecimento e aí o museu é logo o primeiro passo. E há quanto tempo é que se fala do museu? Primeiro, ia para o Pavilhão de Portugal… O facto é que o Pavilhão está ali desde 1998, já passaram quase 20 anos… e temos espólio, produção, reconhecimento internacional, para a Arquitetura portuguesa ter um museu… Mas não tem, e o problema é esse!

Fotografias © Pedro Frade – Todos os direitos reservados

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