Entrevista a José Mateus

Categorias: Arquitetura

Entrevista a José Mateus, presidente da Trienal de Arquitectura e fundador do ateliê que assina o projeto de reabilitação do edifício Castilho 203, que integra a penthouse de Ronaldo em Lisboa, um dos fortes candidatos a ganhar o prestigiado prémio de arquitetura Mies van der Rohe 2022.

“Em Portugal existe pouca consciência de que a arquitetura, como em outras áreas da arte e da cultura,
também tem um autor.”

Controlada que estará a pandemia em 2022 (assim se espera), a urgência de salvar o planeta voltará em força às agendas internacionais, relançando o debate sobre as alterações climáticas e a necessidade de mudar o paradigma das “cidades-máquinas”, assentes nas economias lineares para as “cidades-organismos”, orientadas para as economias circulares.

Indissociável deste debate, a Trienal de Arquitetura, a mais mediática instituição nacional de divulgação e reflexão do papel da arquitetura dentro e além-fronteiras, lançou recentemente o tema Terra e as linhas de orientação da programação da próxima edição da Trienal que vai realizar-se em outono de 2022. À frente da Trienal desde a primeira edição, em 2007, José Mateus é também o arquiteto fundador do ARX Portugal Arquitectos, ateliê com várias obras premiadas (entre as quais o Museu Marítimo de Ilhavo ou o Forum Sintra, por exemplo) e que assina também o projeto de reabilitação do edifício Castilho 203, um dos fortes candidatos a ganhar o prestigiado prémio de arquitetura Mies van der Rohe 2022 e que integra o apartamento de Cristiano Ronaldo, cuja construção de uma ‘marquise’ esteve recentemente no centro de uma polémica.

– Esteve recentemente envolvido na polémica da marquise do apartamento de Cristiano Ronaldo, assunto que entretanto já está apaziguado. Mas, pergunto, diria que há pouca cultura arquitetónica em Portugal?

Sim, acho que em Portugal existe pouca consciência de que a arquitetura, como em outras áreas da arte e da cultura, também tem um autor, existe uma autoria. E contrariamente ao que é normal em muitos outros países (e nem é preciso ir aos países do Norte da Europa), basta irmos a França, por exemplo, onde existe não só um respeito maior pela arquitetura como esta é valorizada pelo seu papel público. A arquitetura desenha cidades e mesmo quando se limita a peças privadas, como uma moradia, uma habitação de família, constrói-se uma ideia de rua com os edifícios vizinhos. E essa rua é de todos, é um espaço coletivo. E a qualidade do espaço coletivo, para lá de uma ideia de um somatório de autorias, é um bem público. E transformar, sem regras, esse espaço coletivo é extraordinariamente pernicioso porque coloca, desde logo, em causa os direitos dos vizinhos e os direitos dos cidadãos em geral. Portanto, há essas duas questões que têm que estar presentes quando falamos em cultura arquitetónica.

Evidentemente, como outro tipo de composições, há autores que todos reconhecemos – quando lemos um livro rapidamente percebemos que este autor é o Gonçalo M. Tavares ou é o Fernando Pessoa e não passa pela cabeça de ninguém alterar um capítulo…

No fundo, a Trienal trabalha muito com essa consciência, de trazer programação e fazer a divulgação da cultura da arquitetura e de como ela é importante para a vida das pessoas. A Arquitetura é a manifestação, eu diria, mais abrangente – e deverá ser também a mais democrática – porque todos vivem na arquitetura. Por isso mesmo, merece respeito, merece uma reflexão extraordinariamente profunda e, sobretudo, um empenho de todos.

O tema desta próxima edição é a Terra. Tendo em conta que a arquitetura sustentável é cada vez mais uma realidade, como avalia a implantação da mesma em Portugal? Estamos a conseguir acompanhar?

Vou responder, mas queria apenas dizer que esta tema Terra incorpora múltiplos significados que estão associados às várias exposições que nós vamos fazer. Terra pode-se referir ao planeta, a uma ideia de lugar, a uma cidade, a um espaço, terra firme, pode referir-se à terra que cultivamos ou à terra com a qual construímos. Portanto, é uma palavra extraordinariamente rica em termos semânticos e que tem correspondência também no termo em italiano e é muito semelhante em francês e espanhol. E na essência de tudo isto está a sustentabilidade do nosso próprio planeta. Sabemos hoje que vivemos uma crise extraordinariamente grave a nível ambiental e temos de tomar medidas muito urgentes a vários níveis, muitos dos quais não passam pela Arquitetura, como sabemos, mas esta tem um papel absolutamente crucial. O que a Trienal pretende nesta edição é dar um contributo relevante, reunindo o conhecimento mais atual, e onde se inclui não apenas a investigação dos curadores, mas também de universidades de todo o mundo. Queremos identificar os caminhos, saber quais são as formas de conhecimento, quais as visões mais relevantes em termos de sustentabilidade em todo o mundo e partilhá-lo com o público a nível mundial. Quanto à sustentabilidade em Portugal, eu diria que a realidade é semelhante a muitos outros países da Europa. Há uma legislação europeia que em si já incorpora essas preocupações ambientais, nomeadamente impondo certificação energética e soluções técnicas que respondem já a essa necessidade de mudança de paradigma em termos, não só de aquecimento e arrefecimento de edifício mas também nos meios passivos, nomeadamente de resistência à transferência de temperaturas, portanto, isolamentos, etc. Mas, e não só em Portugal, isso acontece em muitos países da Europa e também a nível mundial, por vezes fica-se muito aquém do que é preciso fazer… Pese embora não seja a regra, instituições, promotores, projetos que aparecem onde a ideia de sustentabilidade e em diversos casos projetos mesmo carbono neutral, que é obviamente um posicionamento já extraordinariamente importante,  já é uma realidade relativamente comum. Infelizmente, ainda não numa escala que possa ter uma importância decisiva, mas a evolução nos últimos dez anos tem sido muito grande a esse nível.

O que falta fazer para conquistar uma maior sustentabilidade arquitetónica?

Há toda uma cultura de fundo baseada numa economia linear, uma economia de consumo de recursos, de distâncias muito grandes entre os lugares onde se fabricam os materiais e aquele onde depois se constrói. É urgente passar para uma economia circular, assente na ideia da reciclagem, do ciclo de vida total de um edifício, desde a sua construção até à sua posterior reutilização ou demolição com reaproveitamento dos resíduos ou dos materiais com que é feito. E nesta economia circular está subjacente um aspeto fundamental: conhecer a origem dos materiais que depois vão fazer parte da construção de um edifício: de onde é que eles vêm e de que forma são produzidos, para tendencialmente encurtar a distância entre o ponto de produção dos materiais de construção e o ponto onde se constrói porque essas distâncias, que são cada vez maiores, produzem um impacto em termos de pegada de carbono absolutamente incomportável.

O Open House que abre portas de dezenas de edifícios aos visitantes será, porventura, a face mais popular da Trienal da Arquitectura. E nesta próxima edição, o objetivo é  envolver Lisboa e Almada…

O facto de abrirmos agora a Almada parece quase natural porque se pensarmos é indissociável para quem vive na cidade de Lisboa a relação com o Tejo e com a outra Margem. Aliás, se hoje em dia se chega a Lisboa muito através de automóvel ou de avião, durante séculos chegava-se a Lisboa através da Barra do Tejo. E quando se chega a partir do mar a Lisboa a porta de entrada é constituída pelas duas margens, Lisboa e Almada. E, portanto, a consciência desse espaço geográfico Lisboa, Almada e o Tejo, no centro, é uma consciência muito forte, é um espaço geográfico que tem uma unidade e, portanto, sobre o qual se deve refletir em conjunto. O Open House é um programa muito virado para a população das próprias cidades e o objetivo é que as pessoas possam conhecer melhor a arquitetura da cidade e possam visitar espaços que normalmente estão fechados ao público, tudo de uma forma orientada, ou seja, com guias que, no caso da Trienal, já são em 100% dos casos ou os autores dos projetos ou os investigadores que produziram trabalhos sobre aqueles edifícios. A informação dada é assim muito rigorosa e relevante. E a iniciativa é gratuita.

Como avalia a revitalização urbanística que tem vindo a ser feita em Lisboa e Porto?

Eu acho que, como todos os processos de grande escala – e aquilo que tivemos em Lisboa, mas também no Porto foram processos de reabilitação urbana de grande escala, como não tivemos no passado – há sempre aspetos positivos e negativos. Em Lisboa posso dizer-lhe que até há oito anos, os ateliês mais competentes da cidade praticamente não desenhavam para Lisboa. E hoje na prática o que observamos é que há uma quantidade muito grande de projetos em Lisboa feitos por ateliês de grande competência, sejam estes já mais reconhecidos ou com arquitetos bastante jovens, mas com uma competência elevadíssima. E isso é muito bom. Sobretudo, nós arquitetos e quem vive no mundo da construção e que entramos nos edifícios degradados, que vemos o que se passa para trás das fachadas e quantas vezes encontramos uma realidade desastrosa, é gratificante poder acompanhar este  processo de regeneração urbana com esta escala. Mas há também o outro lado. Na questão da habitação temos uma contradição: há muitos projetos de grande qualidade construídos nestas cidades, do ponto de vista arquitetónico, mas do ponto de vista sociológico e do ponto de vista dos ganhos para a população da cidade, os resultados ficam muito aquém do que deveria acontecer. Se a arquitetura tem como foco principal as pessoas, neste momento esse foco está demasiado concentrado numa faixa muito, muito pequena e elitista da população de Lisboa e deveria, portanto, ser alargado para a classe média, para a população real, que são, no fundo, 90% dos lisboetas.

E como se pode alterar esse rumo?

Para se garantir uma resposta urgente, rápida e eficaz em termos de habitação para a classe média lisboeta tem que ser dada uma resposta com uma escala muito, muito diferente daquela que tem sido dada até hoje. É preciso trabalhar ao nível do quadro legal para criar incentivos, prémios, situações de parceria, para criar apoios a cooperativas como existe por exemplo em Espanha. Em Lisboa, por exemplo, os incentivos que são dados a promotores que proponham a construção de apartamentos de rendas acessíveis são completamente desfasados das necessidades que a cidade enfrenta. Portanto, mais uma vez, é preciso uma resposta política e uma resposta no quadro legal para se conseguir espoletar um processo com uma escala que corresponda às reais necessidades da classe média.

A primeira edição da Trienal de Arquitetura foi em 2007. Que balanço faz da vossa atividade até agora?

Quando iniciámos o projeto da Trienal, em primeiro lugar tínhamos a ambição de fundar uma instituição cultural centrada na arquitetura, que é uma arte, uma profissão, que em Portugal atinge níveis de competência muito elevados, como é conhecido, mas que pudesse ser uma instituição que divulga, não apenas junto dos especialistas, mas também da população em geral, o que é a arquitetura e que procura envolver os especialistas e a população nessa reflexão sobre a arquitetura.

Havia também o objetivo que em Portugal existisse uma instituição que estabelecesse esse debate a nível mundial, que não se cingisse, portanto, ao território nacional. E eu diria que a partir da 4ª edição, em 2016,  já sentimos claramente esse reconhecimento, tanto através da participação de inúmeros arquitetos e pensadores de outros países que vieram até nós e partilharam a sua opinião, mas também através dos resultados da crítica que nos foram chegando, tanto crítica de publicações generalistas, mas também especializada de vários países.

 

Entrevista  publicada na revista Visão . Realizada por Marisa Antunes . Jornalista

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