Entrevista a Nuno Valentim, CEO da Nuno Valentim Arquitectura e Reabilitação

Entrevista a Nuno Valentim, CEO da Nuno Valentim Arquitectura e Reabilitação | Realizada por Susana Correia

Uma referência na arquitetura contemporânea portuguesa, Nuno Valentim é também uma referência quando o tema é a reabilitação urbana, onde assina projetos como o da Casa Andresen/Galeria da Biodiversidade e Casa Salabert no Jardim Botânico do Porto, da ampliação do Lycée Français do Porto e do Projeto de Reabilitação/Modernização do Mercado do Bolhão.

Se tivesse de escolher um projeto para apresentar o ateliê a quem ainda não o conhece, qual seria?

Não é fácil a escolha… talvez a sequência de intervenções realizadas no Jardim Botânico do Porto que contemplaram várias fases desde 2010 – da criação da Galeria da Biodiversidade na Casa Andresen à Casa Salabert (novo e-learning café da Universidade do Porto) incluindo o restauro de um conjunto de estufas notável da autoria de Franz Koepp.

Onde podemos encontrar o atelier e a equipa?

Estamos sediados no “Foco” (Parque Residencial da Boavista) no Porto e temos trabalhado em contexto patrimonial em todas as áreas – residencial, hoteleira, estruturas sénior, propriedades rurais (vinhateiras e não só)… Também temos construção de raiz na área da habitação, ensino, serviços e sobretudo em estruturas residenciais sénior. Somos cerca de 12 arquitectos.

Quais as principais características que marcam as vossas obras?

Uma grande atenção à realidade onde operamos e à sua análise física e humana – a principal matéria para construir respostas arquitetónicas com sentido.

E, entre os projetos mais emblemáticos do vosso portfólio, quais destacariam?

Inevitavelmente a Reabilitação do Mercado do Bolhão. Mas não podemos deixar de referir a sequência de intervenções no Lycée Français de Porto, a Reabilitação dos Albergues Nocturnos do Porto (primeira linha de apoio aos sem-abrigo), a sede da Conferência Episcopal Portuguesa em Lisboa e as Estruturas Residências para Pessoas Idosas na Marina de Gaia, no centro de Braga e em Coimbra (Reconversão da Fábrica “Ideal” do Arnado) que se encontram actualmente em construção.

Cumprido um ano desde a chegada da Covid-19, como têm sentido o impacto da pandemia no mercado da arquitetura? E, especificamente, na prática do vosso atelier?

Sentimos que a adjudicação de projetos demora mais tempo a confirmar-se – os promotores necessitam de mais segurança para avançar. Na prática do atelier sentimos a necessidade de promover a revisão do funcionamento de alguns programas, nomeadamente nas estruturas residenciais para pessoas idosas, dada a incidência da pandemia nesta faixa etária e na lógica de funcionamento destas estruturas.

Atualmente, quantos projetos têm em carteira (em que setores e em que localizações)? E quais as perspetivas ao nível de novas encomendas para este ano?

Temos cerca de 10 obras em curso sobretudo no Porto e cerca de 15 projectos em desenvolvimento também maioritariamente no Porto e Norte do país – nos setores habitacional, sénior e hoteleiro.

Olhando para o estado atual do mercado imobiliário e da construção, onde identificam o maior potencial de crescimento em Portugal?

Na resposta à carência habitacional e de reabilitação do edificado construído.

Nesta fase, o mercado continua muito voltado para a reabilitação e a regeneração urbana. A seu ver, qual é o papel do arquiteto nesse processo que, afinal, é uma prioridade a nível nacional?

Os arquitetos são autores e actores fundamentais nas respostas às carências sociais , ambientais e paisagísticas. O solo, a qualidade dos espaços edificados e as pessoas são o nosso maior valor e os arquitectos foram preparados para fazer esta síntese através do projecto – por isso é que são indispensáveis na qualificação da decisão política e na resposta qualitativa dos promotores públicos e privados. Na reabilitação do edificado acresce uma especificidade disciplinar que reforça a dimensão autoral deste exercício – e a necessidade de uma grande preparação cultural e técnica destes projectistas, políticos e promotores.

Outra questão-chave e que é cada vez mais incontornável é a sustentabilidade do edificado, não só do ponto de vista energético, mas também ambiental e social. Como é que a arquitetura deve contribuir para este desígnio?

A arquitectura é uma actividade de síntese entre o programa e o contexto que utiliza diversas ferramentas no seu processo de decisão como o desenho, os sistemas construtivos, as redes infraestruturais, o conforto/desempenho pretendido e, claro, o impacto ambiental destas decisões.

Esta última, a “eco-lógica”, é transversal a todas as ferramentas supracitadas e não pode ser mais uma especialidade.

Concordo consigo que deve ser um desígnio mas reconhecemos igualmente como limite a esta aproximação o valor cultural da pré-existência – o que no caso das reabilitações levanta sempre uma questão difícil: até que ponto uma questão de desempenho energético/ambiental deverá colocar em causa um valor cultural.

E, tendo em conta o estado atual do parque edificado nacional, quais devem ser as prioridades para o tornar mais sustentável?

Só com a qualificação das políticas e das práticas de projecto poderemos definir as prioridades certas – qua passam por uma correcta aferição dos valores em causa e das medidas de transformação mantendo a identidade e a autenticidade.

Para tal é necessário: 1. Rever o enquadramento regulamentar e as exigências aplicáveis aos edifícios a reabilitar porque continuamos com um quadro legal que trata as construções existentes como as construções novas; 2. Qualificar os promotores (públicos e privados) alertando para os valores em causa e para a necessidade de aferir correctamente o programa de intervenção; 3. Qualificar os projectistas (arquitectos e engenheiros) preparando-os academica e profissionalmente para as especificidades da reabilitação do edificado.

Quando prescreve os materiais de construção, que características tem em consideração?

A maior adequação possível aos princípios orientadores da proposta arquitectónica geral – se possível recorrendo a materiais com origem local/nacional.

Entrevista publicada no site (re)portugal por Susana Correia

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