Entrevista a Pedro Vasco Ferreira, Founder do Pedro Ferreira Architecture Studio

Dividido entre os escritórios de Esposende e Porto, Pedro Ferreira Architecture Studio tem uma vasta experiência nos vários sectores do mercado da construção. Para o arquiteto Pedro Vasco Ferreira, Founder do Pedro Ferreira Architecture Studio, «a habitação e a saúde serão os setores no mercado da construção com maior crescimento no futuro próximo».

Para quem não conhece o nome Pedro Ferreira Architecture Studio, consegue sugerir um projeto como cartão de visita do vosso trabalho?

Essa é uma pergunta de difícil resposta, na medida em que vemos cada projeto como uma parte do processo de crescimento e amadurecimento do atelier. Nesse sentido mantemos mais presentes os projetos que não resultaram da forma que esperávamos do que os que ultrapassaram as expetativas.

Ainda assim, e porque esta conversa anda à volta do Prémio Nacional de Reabilitação, sugeria o projeto da Casa dos Pátios, finalista do prémio em 2018; é um projeto que faz uma síntese bastante representativa daquele que é o nosso método de intervenção em preexistências.

Onde estão sedeados? Quais as áreas de especialização? E qual a dimensão da equipa?

Sendo sediado na cidade Esposende o atelier divide a equipa entre dois escritórios, Esposende e Porto, tendo neste momento 18 colaboradores, divididos nos departamentos de arquitetura e interiores.

Relativamente à especialização, embora tenhamos em desenvolvimento vários projetos de construção de raiz, diria que é na intervenção em preexistências que temos trabalhado maioritariamente e onde nos sentimos mais capazes tanto do ponto de vista teórico como técnico e construtivo.

Quais as principais características que marcam as vossas obras?

Acredito que nossa prática ainda não possui uma extensão temporal que nos permita teorizar acerca do nosso posicionamento. Ainda assim, e entendendo cada projeto e cada processo como únicos e irrepetíveis, sintetizamos em três momentos um fio condutor das nossas obras: uma estreita relação com o cliente, um forte respeito pelo sitio ou preexistência e uma enorme vontade de construir bem.

No contexto da reabilitação acreditamos que todas as respostas às questões que o projeto levanta são dadas pelo próprio edifício e a nós compete-nos conhecê-lo, e escutá-lo com cuidado.

E, entre os projetos mais emblemáticos do vosso portfólio, quais destacariam?

Por questões emocionais uma vez que foi o nosso primeiro projeto no contexto da reabilitação da baixa do Porto destacaria o projeto de Santa Teresa.

Este projeto deu início a uma reflexão teórica e construtiva à volta da intervenção em preexistências que nos acompanha até hoje.

Destacaria pelo desafio que constituiu à altura o projeto da Casas da Baixa, que consistiu na reabilitação integral de um pequeno quarteirão com 11 fogos independentes, localizado na rua de D. João IV no Porto. Um pequeno núcleo de caráter rural bem no coração da cidade.

Encerraríamos com um dos projetos apresentados ao Prémio Nacional de Reabilitação 2021, a Casa da Marginal. Este processo estendeu-se ao longo de 12 anos e possibilitou um diálogo muito estreito e íntimo com os proprietários. Uma pequena casa de férias originalmente projetada por Viana de Lima que nos lançou na discussão do tema da reabilitação do património moderno.

Cumprido um ano desde a chegada da Covid-19, como têm sentido o impacto da pandemia no mercado da arquitetura? E, especificamente, na prática do vosso atelier?

Julgo que à semelhança da maior parte dos ateliers não sentimos (ainda) uma redução no volume de trabalho ou da encomenda.

Estando a nossa prática muito assente na promoção imobiliária assistimos a uma deslocação do investimento dos centros históricos para áreas mais periféricas das cidades. No fundo um certo retorno aquilo que conhecemos como promoção imobiliária tradicional. O COVID-19 trouxe também uma nova realidade de encomenda ao atelier (que eventualmente aconteceria sem a pandemia) que se concretiza num aumento muito significativo da encomenda privada.

Relativamente à dinâmica do escritório, o facto da empresa se dividir em dois espaços físicos e trabalhar regularmente com clientes internacionais, há muito que nos obrigou a adotar metodologias e procedimentos de trabalho assentes na virtualidade, pelo que do ponto de vista formal e produtivo não tivemos grande dificuldade em nos adaptarmos ao tele-tratrabalho.

Contudo a arquitetura é feita de pessoas e para pessoas e a falta de proximidade, de reflexão e discussão conjunta, de gargalhadas, de esquiços em papel e tudo aquilo que encerra o espirito de partilha e união do atelier, tem sido, a titulo pessoal um dos aspetos de mais difíceis de gerir emocionalmente nesta pandemia.

Atualmente, quantos projetos têm em carteira (em que setores e em que localizações)? E quais as perspectivas ao nível de novas encomendas para este ano?

Entre projeto, licenciamento e obra temos neste momento cerca de 55 processos em andamento, aproximadamente 40 no Grande Porto, maioritariamente reabilitação de habitação multifamiliar e turismo e os restantes um pouco por todo o pais com incidência maior no Norte. Saliento também um projeto que temos em São Miguel e outro no Faial, que representam uma aposta do atelier no contexto insular, que esperamos venha a ganhar mais escala no decorrer deste ano.

As perspetivas para o segundo semestre de 2021 são bastante incertas, contudo temos a expectativa de continuar em linha com os anos anteriores com uma eventual redução de intervenções nos centros históricos e um aumento da encomenda fora dos centros urbanos.

Olhando para o estado atual do mercado imobiliário e da construção, onde identificam o maior potencial de crescimento em Portugal?

Acreditamos que a habitação e a saúde serão os setores no mercado da construção com maior crescimento no futuro próximo. A saúde por razões obvias e a habitação porque esteve praticamente dez anos estagnada o que contribuiu para uma problemática escassez na oferta. Ainda dentro da habitação acreditamos que a renovação do parque habitacional existente (edifícios dos anos 70, 80, 90 do séc. XX) e a sua dotação de condições de conforto, eficiência energética e não raras vezes enquadramento urbano serão um dos grandes desafios para os arquitetos num futuro próximo.

Nesta fase, o mercado continua muito voltado para a reabilitação e a regeneração urbana. A seu ver, qual é o papel do arquiteto nesse processo que, afinal, é uma prioridade a nível nacional?

Não querendo sobrevalorizar ou romantizar o papel do arquiteto, temos uma forte convicção que o nosso envolvimento nos distintos processos de intervenção, construção ou organização do espaço (publico ou privado) deverá (ou deveria) ir muito para além do momento do projeto. O conhecimento do território aliado à capacidade de leitura transdisciplinar da realidade que a nossa formação nos oferece, capacitam-nos para dar uma resposta universal aos problemas da cidade, as suas dinâmicas e regenerações.

Outra questão-chave e que é cada vez mais incontornável é a sustentabilidade do edificado, não só do ponto de vista energético, mas também ambiental e social. Como é que a arquitetura deve contribuir para este desígnio?

O tema da sustentabilidade nas suas variadas vertentes (ambiental, energética, social, financeira) há muito deixou de ser uma questão de opção, militância ou negacionismo. A segunda metade do séc. XX ensinou-nos que os recursos são finitos e as nossas ações têm consequências diretas já não nas gerações vindouras mas na nossa. A arquitetura desempenha um papel fundamental na mudança do paradigma que vivemos nos últimos 80 anos. Da organização do território à remodelação de uma cozinha, os arquitetos, as suas opções e a influencia que possam ter sobre clientes e decisores, podem contribuir de forma significativa para a mudança do paradigma ambiental.

E, tendo em conta o estado atual do parque edificado nacional, quais devem ser as prioridades para o tornar mais sustentável?

Diria que apesar do recente esforço legislativo e de uma real mudança de paradigma construtivo a grande maioria dos portugueses cresceu e vive em edifícios mal construídos, pessimamente isolados, com variações térmicas tremendas, preocupações acústicas nulas e consumos energéticos que representam aproximadamente 30% do consumo energético nacional.

Assim a prioridade que é na verdade uma emergência, passa num primeiro momento por uma revisão do quadro regulamentar em vigor no contexto da reabilitação acompanhada de uma formação capaz no plano académico e profissional dos diferentes atores envolvidos na indústria da construção.

Quando prescreve os materiais de construção, que características tem em consideração?

Cada projeto encerra em si exigências particulares no que à materialidade diz respeito, pelo que não poderemos generalizar a resposta. Temos contudo, uma obsessão pela intemporalidade, talvez por convivermos diariamente com edifícios que atravessaram gerações o que nos leva a procurar maioritariamente materiais naturais ou artesanais, materiais que envelhecem bem, de pegada ambiental reduzida e sempre que possível fabricados em Portugal.

 

Entrevista publicada no site (re)portugal por Susana Correia

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