Entrevista ao arquiteto Gonçalo Nobre da Veiga

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Gonçalo Nobre da Veiga, arquiteto, em entrevista ao idealista/news: “Agora é hora de pensar além do próximo trimestre e como poderão recuperar e crescer”.

Gonçalo Nobre da Veiga nasceu e estudou em Santarém e terminou o sencundário (o 12º ano) em Lisboa, na António Arroio, “por ser uma escola mais virada para as Artes”. Entrou em arquitetura na Universidade Lusíada – “O ultimo ano foi feito em Florença, Itália, ao abrigo do programa Erasmus” – e mudou-se para Angola em 2006. Foi aí, em Luanda, que surgiu o atelier GV+Arquitectos, em 2010. “Temos clientes nas mais variadas áreas de atividade que vão desde a banca à habitação, da hotelaria e restauração a escritórios de grandes empresas, mas também lojas comerciais ou projetos públicos e a particulares”, conta em entrevista ao idealista/news.

Sobre a sua profissão, considera que “o trabalho dos arquitetos nem sempre é reconhecido pelo seu valor” e que “passou a existir uma guerra de preços”. Diz, no entanto, que há “muito bons – diria mesmo extraordinários – arquitetos em Portugal”, apesar de haver “uma ‘franja’ de arquitetos que se limitam a ser desenhadores, não defendendo a profissão e a classe”.

Em tempos de Covid-19, deixa um alerta e uma mensagem de esperança: “Sinto que esta é uma oportunidade de reinvenção da atividade. Sendo certo que o mercado está (no imediato) a rever as suas prioridades para fazer face a perdas, também elas imediatas e muito palpáveis, há outros que estão a pensar além do próximo trimestre e como poderão recuperar e crescer”.

Fale-nos um pouco sobre a evolução do negócio do atelier GV+Arquitectos. Vai celebrar agora em abril dez anos de existência, certo? Conte-nos como tudo aconteceu?

A GV+Arquitectos nasce em Angola, para onde tinha ido trabalhar em 2006. Fui convidado a ir para acompanhar a abertura do Banco Millennium BCP, para o qual já desenvolvia projetos em Portugal. Após um ano nesse projeto surgiu o convite para ser diretor do Departamento Técnico de uma empresa de construção angolana, a Siccal, que é uma das mais antigas do país, de uma família portuguesa que ali se radicou e que iniciou atividade nos anos 50.

Após três anos nessa empresa decidi dar o passo seguinte e lançar o gabinete em nome próprio. Inicialmente fiz uma parceria com um gabinete português e mais tarde criei uma estrutura própria que sempre teve o seu ‘backoffice’ de trabalho em Portugal. No entanto, comercialmente só começámos a trabalhar o mercado português em 2018 e ainda timidamente.

O que mudou na arquitetura com o passar dos anos?

Muito mudou nos últimos 50 anos, existe uma correspondência entre a história de Portugal e a forma como os arquitetos reagiram a essa mudança. A Expo 98 marcou todo um novo ritmo em Lisboa que inevitavelmente se refletiu no resto do país. Com o desenho de edifícios extraordinários, desenvolveu uma matriz urbanística simples, bem organizada e com estratégia dando lugar a uma continuidade ao que é hoje o Parque das Nações. Nesta perspetiva, interessa-me a cidade como um território e a forma como a arquitetura portuguesa se espelha nele.

“Existem muito bons – diria mesmo extraordinários – arquitetos em Portugal, mas existe também, infelizmente, uma ‘franja’ de arquitetos que se limitam a ser desenhadores, não defendendo a profissão e a classe”

Mais recentemente, com o dinamismo do mercado imobiliário que passou principalmente pela reabilitação, mas também com construção de projetos de raiz, houve um aumento do emprego no setor e a possibilidade de surgimento de novos ateliers. Mas nem tudo está bem no que à profissão diz respeito…

Ainda há muita coisa para mudar?

Sim, com o mercado em plena mutação e não só a nível local como global, o trabalho dos arquitetos nem sempre é reconhecido pelo seu valor. Melhor dizendo, passou a existir uma guerra de preços. Muitos arquitetos não têm custos fixos porque trabalham em rede sem atelier próprio, conseguem apresentar valores muito abaixo dos valores reais da concorrência. Acresce a esta realidade que como não existe uma tabela de honorários o desequilíbrio dos preços entre a classe é enorme. Existe sim uma oferta sobredimensionada para o mercado e a inevitável baixa de preços. A parte negativa é não tanto os preços, mas a inevitável descida de qualidade que isso acarreta. Existem muito bons – diria mesmo extraordinários – arquitetos em Portugal, mas existe também, infelizmente, uma “franja” de arquitetos que se limitam a ser desenhadores, não defendendo a profissão e a classe.

O atelier GV+Arquitectos tem escritórios em Portugal (Lisboa) e Angola (Luanda), certo? Onde em concreto e quando é que abriram?

Começámos em Luanda, Angola, em 2010 e mais recentemente abrimos atelier também em Lisboa. A GV+A e a Speisse contam em conjunto com 24 colaboradores.

Há planos de expansão em vista para outras cidades?

A GV+A é jovem e já conta com atelier em dois países, a nossa prioridade passa por consolidar a atividade, retendo o ‘know how’ e o capital humano das nossas equipas quer em Portugal quer em Angola, mercado este que pela sua especificidade é um desafio permanente, onde a resiliência se torna indispensável a qualquer negócio seja em que área for.

É verdade que rumou a Angola por causa da crise? Como foi essa experiência? Emigrar já era hipótese?

Fui para Angola a convite de um gabinete de arquitetura, foi uma decisão mais tática que estratégica e fiz um percurso num mercado florescente, com outras oportunidades. Mas tive a sorte de contar com pessoas amigas que, de forma desinteressada e descomprometida, me ajudaram. Usufruí alias de uma grande liberdade, acumulei uma vasta experiência e um conjunto de competências muito importantes na execução de uma obra. Foi essa experiência, em conjunto com a rede de conhecimentos que fui adquirindo, que me levou a arriscar num negócio em nome próprio.

Quem são os clientes do atelier GV+Arquitectos?

Temos clientes nas mais variadas áreas de atividade que vão desde a banca à habitação, da hotelaria e restauração a escritórios de grandes empresas, mas também lojas comerciais ou projetos públicos e a particulares. Posso dar vários nomes, como a EY, o Banco BAI ou o Grupo ImuVIP, bem como outros promotores imobiliários.

É fácil lidar com a exigência cada vez maior dos clientes?

Pela mediatização que a profissão de arquiteto adquiriu recentemente, o grau de exigência dos clientes com os projetos  que lhes são apresentados aumentou exponencialmente. Muitas das vezes, o que existe é uma reação à imagem, um culto à imagem seguindo uma cultura tipo Instagram, sem de facto se perceber como é desenhada e projetada uma obra e do que ela é feita, como deve ser um projeto de arquitetura. E isto, por vezes torna-se muito  desafiante de conseguir.

O que distingue o atelier GV+Arquitectos da concorrência?

O nosso foco vai para a experiência do cliente, esta é uma das nossas prioridades. Procuramos uma relação próxima e conveniente com os nossos clientes, através da qualidade e rapidez da execução. A arquitetura muda a vida das pessoas e dos lugares que habitam. Os arquitetos são fazedores de espaços.

Fale-nos também um pouco sobre o atelier Speisse, do qual também é partner fundador. Quando surgiu e o que o diferencia do atelier GV+Arquitectos?

A Speisse começou comigo e com o Miguel Ferreira, partner da Speisse, e é um complemento à atividade que a GV+A desenvolve. Tendo A GV+A equipas em ambos os países percebi que faltava uma oferta de qualidade em Angola para executar obras e assim nasceu a Speisse – Space Reinvented. Solução que transportei igualmente para Lisboa.

Os nossos projetos passam muito por escritórios, espaços de cowork, lojas, clinicas, restaurantes, hotéis, entre outros. Entregamos muitas vezes espaços “chave-na-mão”, em que fazemos a obra e depois fornecemos o mobiliário, a decoração, etc. Chegámos a ter um cliente que nos pediu para fornecermos os computadores, material de escritório e tudo. Quando entrou foi mesmo só ligar a luz.

Creio que tenta combater, em Portugal, a ideia do arquiteto estrela que impõe uma marca ao seu cliente. O que significa isto em concreto?

Significa que tipicamente o arquiteto estrela é um arquiteto global que impõe uma arquitetura formal, sempre a mesma receita em qualquer parte do mundo. No meio entender, não se adapta à cultura, aos materiais, às condições de cada lugar.

“Os arquitetos portugueses têm a característica bastante valiosa da adaptabilidade. Usam as armas que têm aliadas a uma capacidade de estar em rede e em contacto constante com o que os profissionais de outros países fazem”

Para mim cada projeto tem três canais de influência: O local, o programa e o cliente. Qualquer um deles exerce um poder enorme sobre aquilo que projetamos e, portanto, mudando apenas um deles, pode resultar um projeto totalmente diferente. Daí que considere que cada projeto é um projeto diferente e que não há lugar para “marcas” ou “imagens” impostas da nossa parte.

Podemos afirmar, então, que tem uma ideia da arquitetura “fora da caixa”?

Vejo a arquitetura que faço como uma arquitetura de método, não tanto como uma ideia e com um carater acentuadamente universalista, reflexo da nossa abertura e permanente contato com outras culturas. Neste sentido, os arquitetos portugueses têm a característica bastante valiosa da adaptabilidade. Usam as armas que têm aliadas a uma capacidade de estar em rede e em contacto constante com o que os profissionais de outros países fazem. A minha perspectiva é sempre de olhar para o mundo sem muros, sem paredes.

O que é fundamental antes e durante a realização de um projeto?

A proximidade e diálogo constante com o cliente aliada ao cuidado e preocupação com o valor de investimento permitido. Todos os projetos têm de ter um budget para que não haja surpresas desagradáveis no final. Tenho também a preocupação em potenciar o talento das pessoas que fazem parte da GV+A, a par com a eficiência, compromisso em cumprir os prazos e orçamentos e rigor na escolha dos materiais.

Siza Vieira disse recentemente que a “arquitetura em Portugal está em agonia”. Concorda com esta visão? 

Em Portugal, existe um conjunto tão imenso e restritivo de regras que inevitavelmente criam condicionamentos à própria atividade, tornando o valor estético e funcional de um projeto subalternizado, em face de uma miríade de imposições legais que, nem sempre são claras ou adequadas.

Penso que o Siza Vieira se referia à pesada burocracia que se faz sentir em Portugal. Nesse aspeto, alguma falta de maturidade da legislação angolana permite uma maior liberdade de criação, mas no caso português estamos a falar de um mercado com uma baixa volumetria, não há arranha-céus, mas onde acho que nas pequenas e médias intervenções, a arquitetura é uma das mais bonitas do mundo. Angola pode ter um mercado menos maduro e onde há muito por fazer, mas tem um enorme potencial.

Pode Portugal voltar a ter um arquiteto galardoado com o prémio Pritzker?

Sem duvida. Passa muito pela maturidade que a nossa arquitetura adquiriu nos últimos 50 anos. Em ambos os Pritzker atribuídos a arquitetos portugueses, enaltecia-se a sua capacidade de diálogo com o lugar, com o mundo, com as outras culturas, de ligar os elementos que compõem esta disciplina.

Que impacto terá o Covid-19 no setor em Portugal e no mundo?

Sendo esta uma situação completamente nova, é impossível antecipar os impactos reais e concretos que a pandemia poderá vir ter. Não sendo difícil prever impactos negativos em todos os setores da economia, a arquitetura não será excepção, apesar do exercício da profissão ser perfeitamente possível com as novas tecnologias, através de teletrabalho, videoconferência, servidores remotos de ficheiros…

“Sinto sobretudo que esta é uma oportunidade de reinvenção da atividade. Sendo certo que o mercado está (no imediato) a rever as suas prioridades para fazer face a perdas também elas imediatas e muito palpáveis, há outros que estão a pensar além do próximo trimestre e como poderão recuperar e crescer”

A verdade é que uma quebra económica desta dimensão irá levar a uma imediata diminuição da quantidade de trabalho contratada, e nos tempos mais próximos à necessidade de ajustamentos. Não quero deixar de mencionar que esta é também uma situação nunca vivida antes e que podemos estar a menosprezar a capacidade de recuperação de negócios e atividades económicas.

Há menos interesse nos seus serviços (e do seu gabinete) devido a esta crise?

Sinto, sobretudo, que esta é uma oportunidade de reinvenção da atividade. Sendo certo que o mercado está (no imediato) a rever as suas prioridades para fazer face a perdas também elas imediatas e muito palpáveis, há outros que estão a pensar além do próximo trimestre e como poderão recuperar e crescer.

Existem muitas lições a retirar de uma crise como esta e entre elas está a de perceber como pode ser possível dar resposta ao mercado, clientes e projetos com igual qualidade e eficiência.

Como pode a arquitetura “sobreviver” a uma situação como esta?

Da mesma forma como todas as outras áreas: temos de nos adaptar, evoluir e preparar para o pior, esperando sempre o melhor. O ser humano é de uma resiliência e capacidade incríveis, e acredito que iremos ultrapassar este obstáculo, mais cedo ou mais tarde e com maiores ou menores reflexos e implicações.

O trabalho dos arquitetos é extremamente sensível aos movimentos económicos, pois é seguido da obra, que acarreta grandes investimentos. Logo, alturas de contenção económica refletem-se com particular impacto na arquitecura (como em outras áreas), resultando na diminuição imediata da carteira de encomendas.

Esperemos que o bom momento que se vivia antes consiga ser um forte contraponto à crise que agora se seguirá, e que passado este periodo de confinamento e isolamento social, se consiga retomar da melhor forma a atividade que estava em curso com mais e melhores ferramentas.

Entrevista ao arquiteto Gonçalo Nobre da Veiga por © idealista/news

Imagens © Atelier GV+Arquitectos

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