Entrevista ao arquiteto Nuno Capa

Entrevista ao arquiteto Nuno Capa, realizada pela Revista Spot,

Uma capela no jardim de um complexo industrial, a utilização de materiais improváveis e a certeza de que o divino e o lugar humano não se tocam, mas compreendem-se. A sua arquitetura é feita de relações improváveis?

Essas relações improváveis acabam por surgir de forma muito natural. Esta capela é um espaço de todos e para todos e não está apenas ligada ao culto religioso. Repousa no terreno como um lugar de reflexão, de descanso espiritual e de contemplação da envolvente. Os dois volumes em betão aparente que a constituem estão afastados por uma incisão de atravessamento livre, separando assim o lugar do divino e o lugar humano. Não há qualquer ponto de contacto. Optámos pela construção em arquétipo de capela, com elementos modulares pré-fabricados que se repetem, encerrados nos topos nascente e poente por Uglass, atuando como vitrais para entrada de luz natural. No seu interior, os dois planos são habitados de forma tranquila, um por um banco para contemplação e o outro pela Cruz de Cristo suspensa, uma escultura cerâmica concebida pelo artista plástico Alberto Péssimo. A utilização de materiais como o betão, o vidro, o aço e o tijolo carateriza parte dessa relação improvável, tornando nobres muitos dos materiais que são diariamente manipulados pelos trabalhadores do dstgroup.

Pelo caminho a distinção deste projeto no Architecture MasterPrize 2020… Mais do que o prémio é gratificante perceber que a mensagem foi bem interpretada?

O reconhecimento do trabalho por parte dos nossos pares é sempre gratificante para toda a equipa e é também símbolo do mérito das equipas de projeto, de gestão e de construção que demonstraram a mesma dedicação. Nesta mensagem procurámos sobretudo simplificar ao máximo: um banco, uma cruz, uma entrada aberta aos elementos naturais como a chuva, o sol, a neve e o vento, habitualmente presentes no dia-a-dia dos trabalhadores. Não podemos esquecer-nos de que este projeto está inserido num complexo industrial e empresarial ligado quase exclusivamente à construção e portanto ‘A Capela’ tinha de refletir toda essa relação.

Ver aqui o projeto Capela DST

No projeto Maison 826, para o hairstylist Pedro Remy, também distinguido no Architecture MasterPrize 2020, há uma clara viagem à herança industrial portuguesa?

Este espaço encontrava-se fechado há alguns anos e apresentava-se com sobreposições de intervenções, de memórias e de histórias. Cada parede uma história, cada janela uma passagem. Um lugar com muitos espaços. Cada espaço embrulhado em materiais e texturas sucessivamente interrompidas por outras, encontrando-se pontualmente elementos estruturais em betão despidos de revestimento. Uma complexa composição de excessos e de vazios de materiais. O conceito arquitetónico para o espaço Maison 826 surge com a interrupção da demolição no ponto onde os fragmentos desse passado poderiam coabitar com o novo programa que se pretendia implantar.

Os fragmentos do passado podem e devem coabitar com um novo programa?

Podem e devem. A Maison 826 é um exemplo comum de um espaço comercial que, no meio urbano, sem qualquer referência de destaque, pode reproduzir essa importância do lugar e da memória e acho que só assim pode contribuir com criação de memórias futuras.

Um programa de cabeleireiro, de espaço cultural e musical e de concept-store, com uma entrada comum poderia ocupar cada um dos espaços e criar relações espaciais e visuais entre eles. Uma viagem no tempo até aos anos 70: pilares sem revestimento, marcas do cerâmico nas paredes, no fundo um elogio ao inacabado, como se prolongássemos esse momento da demolição e da memória que fomos redescobrindo não só nos materiais, como nos acabamentos. Como arquitetos, procuramos aperfeiçoar a ligação dos materiais e o acabamento entre eles. Ali, foi o oposto. Um elogio ao inacabado pareceu-nos ser o novo ciclo de vida deste espaço. Um projeto que só foi possível, porque o espaço o permitiu.

Na sua opinião esse elogio ao inacabado pretende mostrar-nos que o espaço faz parte da arquitetura?

O espaço nunca está vazio. O vazio de momentos formais e espaciais é sempre muito importante na arquitetura, tal como na música, em que o silêncio é essencial para entendermos os ritmos e harmonias.

Ver aqui o projeto Maison 826

O Bysteel Fs, que recebeu também menção honrosa no Architecture Masterprize Awards 2020, há uma iconografia que se vai revelando à medida que o sol se põe… É como se à noite o edifício se transformasse no coração do complexo industrial?

Neste projeto há uma nave de 6 700m2, onde a luz natural flui para um trabalho dedicado de fabricação e assemblagem de envelopes arquitetónicos de fachada. Nesse jogo de transparências de materiais há um acontecimento diurno e um acontecimento noturno.

À noite todo o interior se revela em sombras. Durante o dia acontece precisamente o contrário, o exterior é projetado nas paredes de policarbonato. Numa relação muito interessante que vai revelando as diferentes fases e momentos do edifício ao longo do dia.

Ver aqui o projeto Bysteel FS

O Urbo Business Center em Matosinhos, um dos seus projetos mais premiados a nível nacional e internacional, é a prova de que conceito, criatividade e funcionalidade podem e devem comunicar entre si?

O Urbo é e foi um desafio, não só em termos construtivos, mas também de programa, por alguns conceitos inovadores que se puseram. É um edifício de estrutura metálica com alguma complexidade, caraterizado pelo volume único, com uma implantação destacada de geometria retangular.

Os pilares na fachada permitiram construir uma malha que, de alguma forma, tem uma dinâmica rítmica, de ligações e percursos. E sem dúvida que a fachada é o elemento visual mais marcante do edifício, reforçada pela composição da iluminação noturna.

Ver aqui o projeto Urbo Business Center

Distintivo também pelo seu programa que privilegia práticas de sustentabilidade…

Sim, a solução arquitetónica do edifício assenta em dois pontos-chave: num programa de espaços de escritórios flexível na sua organização espacial, permitindo a instalação de um ou múltiplos ocupantes; e num programa construtivo do edifício ao nível dos elementos de estrutura baseada nas mais recentes orientações e práticas de sustentabilidade, quer durante as fases de projeto e construção, quer na fase de vida útil do edifício.

Le Corbusier tem uma frase interessante que diz “Cem vezes pensei que Nova Iorque é uma catástrofe; cinquenta vezes, que é uma bonita catástrofe.” Estas manifestações quase poéticas em contexto industrial são a prova de que a arquitetura contemporânea pode ser uma expressão artística?

Também acho que há beleza na catástrofe visual. A mesma que podemos encontrar no rigor. Aquilo que é extremamente rigoroso tem uma certa beleza que a catástrofe também oferece. O que eu acho é que não podemos separar as duas coisas. Ao lado de algo que é simplesmente bonito haverá também algo menos agradável visualmente. Encontramos vários exemplos disso. A beleza coabita sempre com o caos e é nesse equilíbrio que se encontram.

“O vazio de momentos formais e espaciais é sempre muito importante na arquitetura, tal como na música, em que o silêncio é essencial para entendermos os ritmos e harmonias.”

O seu traço é fruto das suas próprias vivências e inspirações?

O meu traço é fruto de todas as vivências e, em particular, daquela que está a acontecer no momento.

O que é que mais o fascina no design de produto? Falo por exemplo do seu projeto 4 Cones que aborda de forma diferente a antiga relação amorosa entre bancos e mesas…

O banco e a mesa possuem uma relação eterna. Este conceito reforça a cumplicidade dessa relação permitindo o surgimento de outras, criando novos contextos de acontecimento espacial. A mesa e o banco invertem os papéis. Fundem-se numa forma geométrica que, fui explorando e que, depois, deu origem a novas formas. Os cones têm uma base de construção idêntica, variando na altura ou na sua geometria concêntrica ou excêntrica das bases circulares. No fundo, criei um sistema, um diálogo entre estas peças, permitindo múltiplas montagens. E é isso que é interessante neste projeto, o facto de as pessoas se apropriarem disso e explorarem outras montagens que eu não teria previsto.

No seu trabalho existe sempre essa marca e também marco importante da criação de novos contextos de acontecimento espacial?

Acredito que sim e que essa é a verdadeira missão de um arquiteto.

Sente que em cada projeto há uma evolução? Uma nova “história” escrita?

Cada projeto é uma aventura, um novo desafio lançado. O resultado desse desafio é a experiência. E a experiência que herdamos dos vários projetos vai-nos permitindo superar novos desafios no futuro.

Considera que o conhecimento do arquiteto deve abarcar um número alargado de áreas?

Deve, e não só as ligadas à construção, mas também a outras áreas que lhe permitam inovar e criar algo novo. Por vezes podemos encontrar inspiração na leitura de um livro, ou numa viagem. Momentos que nos permitam o compor um acontecimento na nossa mente. Há múltiplas formas de conseguirmos essa inspiração, mas acho que a maior de todas são, sem dúvida, as horas que um arquiteto passa a desenhar, a projetar a tentativa e erro. O resto são contributos.

Gosta mais de integrar, ou de ‘perturbar’?

“Ambos. Há momentos em que temos de integrar, podendo a provocação estar na mesma presente, de uma forma mais subliminar.”

Ainda se recorda da primeira vez que desenhou?

Curiosamente recordo-me de ser criança e de desenhar em plena Avenida Central. Era muito comum, em determinados eventos, espalharem mesas na rua para as crianças poderem desenhar. A expressão artística era incentivada através dessas pequenas ações.

Se entrássemos na sua mente em pleno processo criativo o que é que encontraríamos? Há acima de tudo uma sensação de responsabilidade?

Acho que iam assistir a um caos, a uma catástrofe e a um fio condutor a tentar agarrar tudo isso para tornar as coisas mais coerentes (risos). Esse é o caos do processo criativo que, depois, resulta em algo que faz sentido. É um puzzle que se vai montando.

Quanto tempo tem o seu projeto mais antigo? E o que sente quando o “revê”?

Cerca de 22 anos, cruzo-me com ele todos os dias, marca o momento em que comecei trabalhar com o dstgroup. É uma responsabilidade enorme sabermos que aquilo que estamos a projetar hoje tem de perdurar no tempo…

Qual o edifício ou equipamento existente que gostaria de ter projetado? E o projeto que ainda gostaria de executar?

É o próximo trabalho que não sei qual é. Gostava de projetar o próximo desafio que me puserem à frente.

Sente que a situação atual, trazida pela pandemia, veio influenciar a arquitetura?

Tem havido da nossa parte uma preocupação em questões muito simples da rotina diária, como a abertura de uma porta e a ausência de um puxador, por exemplo, mas também questões relacionadas com o reforço da ventilação natural. Acredito que o maior impacto terá a ver, sem dúvida, com a organização e os layouts dos escritórios e das habitações no futuro.

Que projetos estão a desenvolver atualmente na região?

Estamos a desenvolver alguns projetos industriais de grande dimensão e projetos de habitação coletiva, um deles um conjunto de edifícios de habitação em Barcelinhos, cuja construção arrancará no início deste ano.

Certamente tem as suas referências. Espreitando a sua biblioteca, quem podemos encontrar?

Le Corbusier, precisamente. Ele teve e ainda tem grande impacto no meu percurso desde a faculdade. Além dele, Frank Lloyd Wright, que é um clássico da arquitetura e depois os mais contemporâneos, como John Pawson, Frank Gehry e Steven Holl.

Porquê arquitetura e não outra coisa?

É uma boa pergunta. Acho que foi o gosto pelo desenho que me levou à arquitetura. Sempre gostei de desenhar e havia algumas coisas no desenho geométrico que me fascinaram. Não foi acidente, é um percurso que aceitamos e onde acabamos por nos encontrar. E eu encontro-me muito na arquitetura.

Qual é, no seu entender, a grande função social da arquitetura?

Eu acho que a arquitetura tem uma grande responsabilidade social, juntamente com outras especialidades, como por exemplo a engenharia, entre outras. A arquitetura melhora as condições de vida das pessoas e dá um sentido à construção, à habitação e ao espaço público.

Como dizia Frank Gehry, “a Arquitetura deve falar do seu tempo e lugar, porém anseia por ser atemporal”?

A arquitetura pertence sempre a um tempo. É uma reflexão do momento. Conseguir fazer com que perdure no tempo é talvez o maior de qualquer arquiteto. Há obras que são efémeras, outras que me surpreendem por perdurarem tanto no tempo…

www.nunocapa.com

Entrevista publicada na  Revista Spot

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