Entrevista: Gonçalo Nobre da Veiga – Portugal assumiu definitivamente o seu papel

Entrevista: Gonçalo Nobre da Veiga – Portugal assumiu definitivamente o seu papel na Europa e no Mundo como país de excelência para viver

O arquitecto Gonçalo Nobre da Veiga, aposta no mercado nacional mas nunca descurando os projectos internacionais. Para si, o mais importante na profissão não é ser detentor da razão ou do gosto mas sim o provedor da qualidade, tentando elevar o nível daquilo que se constrói.

Nasceu em 1977, foi viver para Angola devido à crise e ao fim de qutrao anos abriu o seu próprio atelier em Luanda, a GV+Arquitectos, onde acabou por ficar 13. A sua carreira internacional arrancou em 2010, apoiando e desenvolvendo projetos de grandes empresas nacionais e multinacionais e dividindo-se entre a GV+Arquitectos e a Speisse – Space Reinvented, empresa que criou em Angola.

Em entrevista ao Diário Imobiliário, reconhece que arquitectura tem um futuro difícil pela frente, referindo que a classe não se defende como um todo e não existe sentido de “interesse comum”. Ao contrário do imobiliário que vê um futuro positivo.

Como vê a arquitectura actual?

A actividade vive um período de grande dificuldade e mesmo agonia.  Os honorários são cada vez mais baixos, com uma consequente baixa nas horas que se dedicam a cada projecto ditando naturalmente uma menor qualidade dos mesmos. Quando a grande maioria dos concursos públicos que são lançados, é o preço o critério principal e muitas vezes único, para a atribuição estamos a colocar de lado qualidade, estética, competência técnica. Não é preciso fazer um exercício de grande imaginação para adivinhar que os projectos vencedores não serão os que melhor servem o mercado imobiliário.

É bom que se perceba que não existe um mercado imobiliário saudável e de qualidade, capaz de crescer mesmo em tempos de crise, sem perceber que o papel do arquitecto não pode ser dispensado. Um bom projecto arquitectónico dá resposta às principais preocupações do construtor e do cliente final; trata-se de um investimento que garante que a obra não atrasa desnecessariamente e que se mantem dentro das balizas orçamentais que estão planeadas. O problema é que existem demasiados “planos” e “desenhos” que não são projectos de arquitectura a servir de base a obras, com resultados péssimos no médio longo prazo.

Quais as principais dificuldades que encontra hoje na sua actividade profissional?

Enfrentar um mercado que precisa de estar informado sobre esta realidade; um bom projecto arquitectónico é um investimento caro mas que poupará semanas, meses e às vezes anos de atrasos e gastos supérfluos.  A maior qualidade de um projecto é garantia de uma obra eficiente e executada em tempo.

Outra enorme dificuldade reside no processo de aprovação de projectos nas autarquias. Não podemos pedir a confiança de investidores nacionais e estrangeiros num mercado que considera aceitável que alguns projectos demorem um a dois anos a serem aprovados

Como vê o papel do arquitecto no momento actual do mercado imobiliário?

O arquitecto tem que assumir o seu papel de arauto da qualidade. É assim que eu o vejo. Não que sejamos os detentores da razão ou do gosto, não é isso, mas que sejamos o provedor da qualidade, tentando elevar o nível daquilo que se constrói, em termos estéticos e principalmente em termos de qualidade de construção.

E o futuro da arquitectura e do imobiliário?

Acho que esses dois futuros, embora interligados têm que ser separados.

A arquitectura tem um futuro difícil pela frente. A classe não se defende como um todo e não existe sentido de “interesse comum”. Espero que a Ordem recentemente eleita possa vir mudar algo no paradigma actual e melhorar alguns dos temas já mencionados.

No imobiliário, vejo um futuro positivo. Acho que Portugal assumiu definitivamente o seu papel na Europa e no Mundo enquanto local de residência principal ou secundária, seja pelo clima, pela hospitalidade do povo português, pela segurança e até pelo custo de vida acessível, concorrendo para um aumento do investimento imobiliário.  As grandes recuperações do parque imobiliário português dos últimos 4/5 anos é uma tendência que não irá diminuir, pelo contrário, acredito que vá aumentar.

© Diário Imobiliário

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