Entrevista: Plano Humano Arquitectos

Categorias: Entrevistas

O atelier Plano Humano Arquitectos venceu o concurso para o edifício habitacional da Quinta do Olho de Vidro, em Almada, promovido pelo IHRU e com assessoria da OASRS.

Os vencedores do concurso destacam a “simplicidade da volumetria” e a “materialidade” dos edifícios propostos. Chamam a atenção para as zonas de socialização, exterior e interna às próprias construções, como elementos muito significativos.

Sobre os concursos públicos afirmam que “não são inócuos para os gabinetes, na medida em que implicam risco e investimento, mas revestem a possibilidade de provocar o debate e trazer para análise novas considerações e novas formas de resolver programas e projectos”.

1- A habitação a custos controlados coloca questões aos projectistas (por vezes vistas como restrições) que podem reflectir-se no projecto final. Foi o que aconteceu ou essa questão não teve grande impacto sobre o vosso trabalho?

Efectivamente a habitação a custos controlados levanta uma série de questões que de alguma forma conduzem o projecto. Nesta temática, sentimos que foram sobretudo as áreas máximas permitidas, que acabaram por determinar o sentido da nossa proposta. A questão primordial foi precisamente permitir plantas que, cumprindo com todos os condicionalismos inerentes, acabam por possibilitar espaços habitáveis de qualidade. Estas regras específicas implicam sempre uma atenção e estudo redobrados, mas que encaramos, por isso mesmo, como potenciadoras de novas perspectivas sobre o assunto.

2- De que forma descreveriam os fogos projectados, no sentido da organização, habitabilidade, ligação com a envolvente e sociabilidade?

Quisemos fogos com uma planta muito simples, que tivesse uma clara separação entre zona social e a zona privada, mas sobretudo privilegiando o lado social da casa. Entendemos que a zona social deveria ligar a cozinha com a sala de uma forma muito forte, permitindo uma vivência que entendemos própria do habitar de hoje. Pretendíamos que os fogos tivessem uma franca relação com o exterior, o que nos fez também projectar espaços vazados na volumetria, ondem surgem pequenas varandas, ou terraços ajardinados, que assim valorizam e acentuam esta ligação com o exterior.

3- A inserção na malha urbana e a qualificação do espaço público eram elementos relevantes. Podem falar um pouco sobre como as encararam e como resolveram a sua adequação ao que se pretendia?

Os limites da propriedade, e sobretudo da área de implantação, condicionaram desde logo a nossa proposta final, que tem na sua origem o polígono virtual originado pelos alinhamentos dos edifícios vizinhos. Este polígono foi posteriormente transformado de forma a abrir o lote à criação de espaços verdes, e possibilitar aos edifícios um melhor sistema de vistas.

Esta implantação “dividida” minimiza o impacto dos edifícios no lote, e na própria envolvente, na medida em que aligeira a sua presença e leitura no mesmo conjunto, o que contribui para a percepção de uma maior amplitude e abertura da intervenção.

Foi também a possibilidade de criação de espaço exterior que guiou a implantação que propusemos, a par com a possibilidade de criação de um conjunto edificado que fizesse o remate do quarteirão, consolidando a área da intervenção com a envolvente. Os edifícios implantam-se de forma permeável à envolvente, favorecendo assim a progressão entre o espaço público e o espaço privado.

4- A integração na paisagem, o tipo de terreno, que considerações vos mereceram e como evoluíram para a proposta final?

Iniciamos a nossa abordagem de uma forma díspar da solução final, no que concerne à volumetria. Nessa primeira solução desenvolvíamos um único bloco alinhado com o limite do terreno com o Hospital, mas que já tinha uma enorme preocupação com o espaço público que queríamos proporcionar, e que pensava os acessos em duas cotas diferentes, usando o próprio edifício como charneira e ligação entre elas.

Após visita ao local e os esclarecimentos do concurso, já no decorrer das discussões de projecto, entendemos que fazia sentido distanciar a implantação que propúnhamos dos limites do terreno, mas garantindo na mesma que os volumes edificados iriam servir de contenção a dois espaços públicos ou semi-públicos, situados nas duas diferentes cotas. De certa forma apropriámo-nos assim das cotas já existentes no terreno. Isto permitiu-nos fazer um enquadramento muito natural com o terreno.

5- O que destacariam como mais relevante da vossa proposta, independentemente da valorização do júri?

Gostávamos de destacar a simplicidade da volumetria e da materialidade dos três edifícios que propomos, e o espaço público que eles provocam entre si e os edifícios vizinhos, natural e humanizado. Queríamos possibilitar edifícios simples, mas que trouxessem dignidade a quem os vai habitar futuramente, e espaços exteriores que não se limitassem a ser meros passeios e acessos, mas antes espaços caracterizados, de estadia, lazer e socialização, e que efectivamente sejam vividos e apropriados pela futura comunidade.

6- Que importância associam a este 1.º concurso para um empreendimento habitacional lançado pelo IHRU em Almada?

Sendo o 1.º concurso para um empreendimento desta natureza, sentimos que é a possibilidade de arranque de uma nova abordagem sobre a matéria da habitação de custos controlados, o que é por si muito importante, e que também fundamentou a nossa participação.

Se por um lado, o concurso vem atender a necessidades prementes de habitação em Portugal, por outro lado verificamos uma grande preocupação do IHRU em proporcionar essa habitação com uma oferta de qualidade, ao recorrer a concursos de ideias, que potenciam a investigação sobre este tema.

Os concursos de ideias não são inócuos para os gabinetes, na medida em que implicam risco e investimento, mas revestem a possibilidade de provocar o debate e trazer para análise novas considerações e novas formas de resolver programas e projectos.

Temos vindo a acompanhar os vários concursos promovidos com assessoria da OASRS e por isso mesmo tivemos confiança neste concurso, que apresentava um programa muito bem definido e estruturado, com critérios de selecção maioritariamente sustentados na qualidade das propostas.

 

Os arquitectos responsáveis:

Pedro Ferreira (Lisboa, 1981) licenciado em 2006 pela Universidade Lusófona. Colaborou em vários gabinetes como “Limite Aedificandi”, “Santos Pinheiro Arquitectos” e “Atelier João e Luísa Sequeira”. Neste último participou em vários concursos internacionais e foi premiado em 2007 com o 1º prémio “Ares Competition” promovido pela UIA – União Internacional de Arquitectos, e em 2008 com o 1º prémio “What If New York City…” promovido pelo gabinete de gestão e planeamento de emergência de Nova Iorque.

Co-fundador do atelier Plano Humano Arquitectos tem os seus trabalhos divulgados em diversas publicações Nacionais e Internacionais, tendo sido distinguido com vários prémios como: The American Architecture Prize 2017, Inovação na Construção 2018, Architizer A+ Award 2018 e 2019, Archizinc Trophy 2018, The International Architecture Award 2019, The MasterPrize 2019.

Foi ainda nomeado aos Dezeen Awards 2018, Prémios Construir 2017, 2018 e 2019, finalista dos prémios WAF – “World Architecture Festival Awards 2018”, Prémio Nacional do Imobiliário 2019 e 2020, e nomeado ao Prémio de Arquitectura Contemporânea da União Europeia Mies van der Rohe 2019.

Helena Vieira (Lisboa, 1981) licenciada em 2006 pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Estagiou no Departamento de Urbanismo da Câmara Municipal de Loures. Colaborou nos gabinetes “Limite Aedificandi”, “Coreplan” e GMCS.

Co-fundadora do atelier Plano Humano Arquitectos tem os seus trabalhos divulgados em diversas publicações Nacionais e Internacionais, tendo sido distinguida com vários prémios como: The American Architecture Prize 2017, Inovação na Construção 2018, Architizer A+ Award 2018 e 2019, Archizinc Trophy 2018, The International Architecture Award 2019, The MasterPrize 2019.

Foi ainda nomeada aos Dezeen Awards 2018, Prémios Construir 2017, 2018 e 2019, finalista dos prémios WAF – “World Architecture Festival Awards 2018”, Prémio Nacional do Imobiliário 2019 e 2020, e nomeada ao Prémio de Arquitectura Contemporânea da União Europeia Mies van der Rohe 2019.

Foto Equipa PLANO HUMANO ARQUITECTOS ©João Morgado, 2019

Entrevista . Ordem dos Arquitectos Secção Regional Sul

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