Fernando Guerra: um pioneiro na fotografia de arquitetura

Categorias: Entrevistas

Desde cedo que Fernando trata a fotografia por tu. Começou como um hobby quando tinha 16 anos, hoje é a sua profissão. O olhar perspicaz de Fernando Guerra tem-lhe valido uma carreira de sucesso, não só nacional como internacional.

Numa época em que ninguém queria colocar indivíduos na fotografia de arquitetura, Fernando Guerra disse basta e começou a introduzir o ser humano nos seus trabalhos – mesmo que muitos lhe dissessem para não o fazer. Sem medos, Guerra já experimentou de tudo. A curiosidade é tanta e tão grande que é aqui mesmo que encontra muita da sua inspiração para o trabalho que faz diariamente.

Hoje, é o protagonista da nossa rubrica semanal #DaringStories. Ei-lo em discurso direto.

Estudou arquitetura, voou até Macau onde exerceu a profissão, depois regressou a Portugal e deu aulas na Escola Universitária das Artes de Coimbra. Em que momento da vida do Fernando – e de que modo – é que a fotografia passou de hobby de adolescente a profissão?
Aconteceu tudo lentamente. Quando comecei a fotografar arquitetura não era um serviço como é hoje. Quando eu comecei, existiam duas pessoas em Portugal a fazer esse tipo de serviço e eu introduzi uma forma um bocadinho diferente de fazer, se calhar mais contemporânea e mais parecida com aquilo que existe hoje. Mas foi de forma muito lenta. Era muito difícil para uma pessoa em 1999 pensar que isto poderia ser um negócio sustentável. Mas, acima de tudo, tem que ver com a minha paixão pela fotografia misturado com o olhar das fotografias de rua e, claro, com o tirar partido do momento decisivo. O meu irmão juntou-se a mim em 1999 e juntos pensámos que isto poderia ter algum interesse. Portanto, foi assim uma mistura do gosto dele pela arquitetura com a minha vontade de continuar a fotografar. Começámos de uma forma muito amadora, ou pouco definida, porque nunca pensámos que isto pudesse ser de facto um trabalho.

Quando vai fotografar existe algum tipo de preparação com o objeto de trabalho? Como é um dia de trabalho com o Fernando?
Eu gosto de saber a escala ou o que é que vou fotografar. Eu gosto de saber se é um prédio, se é uma escola, uma casa, mas recuso-me a ver imagens, não me interessa nada. O primeiro olhar de encantamento é aquilo que me guia durante um dia numa sessão. Vou atrás daquilo que me estimula ou daquilo que acho que é mais importante e mais fácil de partilhar. Gosto muito do momento surpresa. Todos os dias tenho sessões em sítios diferentes de coisas diferentes. O processo é sempre mais ou menos igual: começo numa ponta e é o sol que me guia e me diz o que é que eu vou fazer. Mas é o meu olhar que me faz vibrar e me orienta.

No início dos anos 2000, poucos eram aquelas que colocavam indivíduos junto dos edifícios/obras arquitectónicas que fotografavam. Quando é que percebeu que o ser humano era um elemento crucial nas suas fotografias?
Eu fui dos primeiros a nível global, desde o início da minha carreira nesta área que comecei a fotografar para revistas lá fora e nenhuma queria pessoas na arquitetura. A escola que se vendia na fotografia de arquitetura era uma fotografia do objeto pelo objeto, era tudo despovoado porque se considerava que introduzir outros elementos iria estragar a percepção daquilo que era a obra. Uma obra para mim só interessa se estiver ocupada. Fotografar uma biblioteca sem livros não tem qualquer interesse, e isso já me aconteceu muitas vezes. Ou seja, um biblioteca que está pronta e não está ocupada, e a mesma coisa com uma casa, isso não me dá qualquer gozo ou prazer. Só tem graça se estiver a família. Só tem graça se as cosias tiverem sentido. Eu gosto de fotografar os ritmos dessas peças, sejam prédios ou casas. Gosto de chegar cedo e sair tarde, gosto de ver as pessoas a sair para o trabalho. Gosto de ficar com o jardineiro, ou com os animais de estimação, ou com as empregadas que arrumam a casa. Porque a graça é essa coisa da vida.

De que modo é que o Fernando encarou as novas tecnologias e o universo digital que está cada vez mais presente?
Eu sempre fui muito aberto a tudo o que é novidade. Aliás, quando comecei a fotografar arquitetura comecei a fazê-lo de uma forma diferente, também pela tecnologia que estava a usar. De repente comecei a usar máquinas pequenas de 35 mm que muitas vezes dispensavam o tripé e que me permitiam, nas obras, circular com um à vontade e com uma liberdade que os fotógrafos daquela altura não tinham, porque precisavam de bancos óticos, tripés gigantescos e tinham que pôr um pano em cima da cabeça para fazer uma exposição. Eu comecei a fazer fotografia de arquitetura como se fotografava moda ou como se fotografava reportagem do dia a dia. Porque, realmente, era aquilo que eu gostava de fazer desde miúdo. Quando passei para a arquitetura, foi isso que eu comecei a fazer: fotografar a vida num dia daquela casa, ou a vida num dia daquele prédio. E foi essa vontade de ter esse registo de manhã à noite que, penso eu, fez a diferença. Quanto às novas tecnologias, sempre fui muito recetivo. Os drones, por exemplo, fui o primeiro fotógrafo de arquitetura a fotografar prédios e casas com esta tecnologia, e estou a falar a nível internacional. O único motivo de ter sido o primeiro tem que ver com a curiosidade, [tem a ver com] estar sempre atento àquilo que o mercado nos dá e utilizar estas novas ferramentas.

Falemos agora de desafios. Qual foi o trabalho mais desafiante? Porquê e como é que o superou?
É fácil. São todos. [Risos] O último foi um prédio em Paris que fiz a semana passada e foi muito desafiante. Tinha todos os ingredientes para dar errado. Era um cliente novo, estava um tempo terrível e estava em fim de obra. Eu acho que fui cedo demais, mas a culpa foi do arquiteto que me chamou nesta altura. Este é um exemplo de um projeto que foi complicado. Outro? Será amanhã. A minha perspetiva quando vou para uma obra é ir sempre de mente muito aberta, mas também com consciência de que o falhar e o vencer assentam num equilíbrio muito débil, muito perigoso de ser estragado. Porque eu sei do que sou capaz, mas há muitos elementos externos que condicionam: seja o tempo, seja os donos da casa, ou os vizinhos, aquilo que se passa na rua, posso ter uma camião a tapar o meu objeto de trabalho.

© Entrevista por 𝘙𝘶𝘪 𝘔𝘢𝘵𝘰𝘴

Daring Stories resulta de uma parceria entre a GQ Portugal e a Tudor e tem como propósito contar as histórias de quem se atreve a enfrentar desafios.

© Fotos Fernando Guerra

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