Angola tem muitas condicionantes, mas o empresário português está bem preparado

Aos 40 anos, Gonçalo Nobre da Veiga está perto de completar uma década da aventura que o fez arrumar as malas e trocar Lisboa por Luanda e abrir o seu atelier de arquitetura.

A carreira internacional que arrancou em 2010, apoiando e desenvolvendo projetos de grandes empresas nacionais e multinacionais, e se divide entre a GV+A Arquitetos e a Speisse, trá-lo agora para Portugal, onde, a par de Angola, quer investir o seu know how. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, conta como tem crescido e como vê as privatizações em Angola.

O percurso do Gonçalo foi o inverso do que é comum: em vez de consolidar-se aqui e depois internacionalizar-se, optou por começar pelo mais difícil, arrancando com o atelier em Angola, em 2010. Porque tomou essa decisão e, quase uma década depois, valeu a pena esse esforço?

Estou em crer que tomei uma boa decisão e valeu a pena o esforço. Não posso adivinhar o que teria sido o meu percurso se tivesse sido ao contrário, mas acredito que tive mais oportunidades naquela altura em Angola do que teria tido no mercado português, que vivia uma crise grave e com pouca oferta. À semelhança de muitos portugueses, fui para Angola a convite de um gabinete de arquitetura, fruto de uma decisão mais tática do que estratégica e fiz um percurso num mercado florescente, com outras oportunidades. Pouco tempo depois de ter ido para Angola fui convidado a assumir o desafio de chefiar o departamento técnico da maior empresa angolana de construção do país, o que fiz durante cerca de três anos e onde acumulei uma vasta experiência e um conjunto de competências muito importantes na execução de uma obra.

Foi essa experiência, em conjunto com a rede de conhecimentos que fui adquirindo, que me levou a arriscar num negócio em nome próprio. Foi fácil arrancar com o – atelier precisou de sócios locais…?

Embora atualmente já seja permitido a um estrangeiro abrir e deter uma empresa em Angola, na altura, para tal acontecer, era exigido um longo e complexo processo de candidatura através da Agência de Investimento Estrangeiro, e simultaneamente realizar investimentos no que podiam totalizar 1 milhão de dólares. Foi necessário encontrar sócios, mas fui bastante feliz nesse aspeto, pois tive a sorte de poder contar com pessoas amigas que, de forma desinteressada e descomprometida, me ajudaram sem pedir nada em troca. Pode-se dizer que, se usufruí de uma grande liberdade, também assumi um grau de responsabilidade pouco usual para a minha idade. Neste momento trabalham nos dois gabinetes que lidero cerca de 24 pessoas que visam responder às várias necessidades dos mercados onde estamos implantados.

Que vantagens tem a arquitetura em Angola sobre o que se faz e se pode fazer em Portugal? O potencial é muito maior, os projetos, os valores, a liberdade?

O Souto Moura disse há pouco tempo que a arquitetura que ele aprendeu tinha terminado, que já não era uma arte. Acredito que ele se estava a referir à existência, em Portugal, de um conjunto tão desordenado de regras que criam condicionamentos à própria atividade e que o valor estético e funcional de um projeto está totalmente subalternizado, em face de uma miríade de imposições legais nem sempre claras ou adequadas. Nesse aspeto, alguma falta de maturidade da legislação angolana permite uma maior liberdade de criação, mas note que no caso português estamos a falar de um mercado com uma baixa volumetria, não há arranha-céus, mas onde acho que nas pequenas e médias intervenções, a arquitetura é uma das mais bonitas do mundo. Angola pode ter um mercado menos maduro e onde há muito por fazer, mas tem um enorme potencial e é um local onde surgem projetos com dimensões que nunca teremos em Portugal.

Com que tipo de clientes e empresas tem trabalhado e em que tipo de projetos?

Temos trabalhado para os mais variados sectores de atividade e para uma enorme transversalidade de clientes, que vão da banca à habitação, da hotelaria e restauração a escritórios de grandes empresas, mas também lojas comerciais ou projetos públicos. Estar em Angola revelou-se em algum momento uma dificuldade? Nos tempos da transição do governo, por exemplo, ou na crise das divisas, sentiu uma quebra no negócio? Angola é um desafio permanente, creio que é o 14.º país mais difícil do mundo em termos de ambiente de negócios. Temos sempre muitos problemas para resolver no dia-a-dia. A crise das divisas é um problema muito sério, mas é apenas mais um; a simples necessidade de comprar tinteiros para a plotter pode revelar-se uma dor de cabeça. Neste momento, apenas os projetos já em andamento se mantêm e os investidores estão a retrair-se, sabendo de antemão que os seus custos em moeda local podem disparar para 20%, 30% ou mesmo 50% num curto espaço de tempo. Isto é muito limitador para a economia mas ao mesmo tempo sabemos que é necessário, pois a economia angolana não pode continuar a suportar uma valorização forçada e irreal da moeda, com custos gigantescos.

O programa de abertura da economia angolana – e que passa também por um ambicioso plano de privatizações – é também uma oportunidade para si?

É de facto uma oportunidade. O plano de privatizações é muito ambicioso e extenso, e decorrerá ainda nos próximos dois anos. Acredito que a entrada de novos investidores, irá fomentar alterações às estruturas das empresas e trará seguramente novos investimentos para as relançar. Pode dar também um novo fôlego ao setor, um pouco parado depois da vaga de investimentos feitos até 2014. No entanto, devido ao tema da desvalorização da moeda e da dificuldade de acesso às divisas, não antevejo resultados tão fulgurantes como no passado. Veremos se o Executivo consegue fazer a quadratura do círculo, pois todos estes temas estão muito interligados. Agora já tem também presença em Portugal.

A expansão é um objetivo ou vai continuar a ter Angola como centro da sua atividade?

Angola foi o ponto de partida e Portugal uma consequência lógica da ligação entre os dois países. O nosso backoffice de produção funciona já em Portugal, mas ainda temos muito caminho por desbravar em Angola e em Portugal, pelo que, por agora, acreditamos em consolidar a nossa posição nos dois mercados antes de avançar para outros.

Qual foi o projeto que até hoje lhe deu mais gozo assinar?

É sempre o último. Eu sei que a resposta que lhe estou a dar soa a um cliché, mas creio que qualquer profissional desta área lhe responderá assim. O último projeto é aquele onde colocámos as últimas ideias, testámos as últimas soluções que nos foram surgindo e experimentámos novas formas ou materiais. Há sempre um crescimento e uma aprendizagem que se acumula, que vai trazendo maior riqueza ao que fazemos, de um projeto para o outro, mas também há um momento em que a realidade dos prazos e a objetividade dos orçamentos nos impedem de introduzir mais uma “melhoria”. O que lhe posso dizer, com grande segurança, é que quando olho para trás vejo sempre algo em que não pensei ou que poderia ser melhorado; encontro sempre algo que gostaria de poder alterar.

Que conselho daria a empresários portugueses que estejam a pensar entrar no mercado angolano?

São três: o primeiro é que sejam resilientes. A resiliência é uma palavra que está muito em voga, mas é mesmo a que melhor se adequa ao mercado angolano e que prefiro face ao proverbial “desenrascanço” português. As condicionantes do mercado angolano são muitas e diárias, mas o empresário português é dos mais bem equipados para singrar naquele mercado. Para além da relação de fraternidade entre os dois países e a língua em comum, a nossa capacidade de resistência e de adaptação, dá-nos enormes vantagens em relação a outros, se nos soubermos posicionar e respeitar o povo, as entidades e os seus costumes. Este é o segundo conselho que dou. Angola é um país soberano, tem regras, leis, cultura e costumes próprios que devem ser respeitados e apreendidos por quem está lá a trabalhar. É a obrigação de qualquer pessoa de bem. Por fim, um último conselho, apostar na qualidade e na competência. Exige um grande grau de paciência e persistência, mas o mercado recompensa sempre estes valores e os clientes acabarão por surgir.

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