Ilha da Madeira: Arquitetura num contexto dramático

Categorias: Arquitetura

A orografia da Ilha como desafio à humanização da paisagem

Estas são sempre as casas.
E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as correntes infindáveis
das rosas, ou das águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Herberto Hélder, Poesia Toda (1953–1980), Lisboa, Assírio e Alvim, 1981, p. 14

Embora seja uma pequena ilha num vasto oceano, a Madeira não deixa de espantar no dramatismo com que surge, emergindo de forma imponente, manifestando a sua formação vulcânica, afirmando a sua identidade com convicção.

Na orografia da ilha destaca-se um maciço central em linha de escarpa, mas também as arribas cortadas a pique de rocha basáltica de cor escura. A paisagem cruza-se entre o cenário infinito que nos é transmitido pelo mar, e o dramatismo destas escarpas que emergem de forma imponente. A natureza exuberante encontra-se em todos os lugares, o território assume contornos que tornam a humanização da paisagem num exercício de grande dificuldade, que desmotiva os menos otimistas à intervenção, mesmo à mais básica forma de atividade agrícola. Esta limitação não impediu o homem de se apropriar do território e de aqui construir ao longo de 5 séculos de história, páginas de conquistas sobre um relevo difícil.

A paisagem reflete esta conquista, por vezes de forma ostensiva. Os poios não são mais do que socalcos de encostas escavados e agricultados, seguindo a tecnologia tradicional, onde a pedra da região se encontra emparelhada em muros de contenção.

Assim se faz a agricultura, em várias tonalidades que apresentam os mais diversos cultivos agrícolas, constituindo-se como uma afirmação de vitória sobre a natureza inóspita, à custa de grande esforço.

Como é fácil entender, esta contrariedade determinou todo o registo edificado na ilha da Madeira. Podemos até dizer que moldou o próprio carácter de todo um povo, que foi esculpindo as montanhas para poder viver e habitar.

Da própria matéria de pedra basáltica usada nos poios agrícolas, até às formas mais sofisticadas de habitação, a construção na ilha da Madeira foi sendo feita num território tão diferente que os seus valores construtivos e formais teriam de ser necessariamente diferentes.

É verdade que alguns dos elementos usados na arquitetura popular portuguesa se mantêm, tais como os telhados de 2 e de 4 águas, cobertos a telha, ou os vulgares “tapa-sóis” de madeira. Mas as guarnições de pedra da região ou os muros de pedra emparelhada são registos originais de formas de edificação.

No entanto, aquilo que verdadeiramente distingue a moradia que é construída na Madeira encontra-se na forma como o seu programa se articula e cose com o lugar. Assiste-se por vezes a uma inversão completa dos seus valores. É comum a casa começar na garagem, uma espécie de mausoléu no topo da moradia, sob o qual se desenvolve o restante programa, num exercício vertical que acompanha o relevo dramático. A casa ganha uma expressão que só pode ser entendida vista de vários ângulos, no seu acesso superior, mas também à distância, num registo que interpreta a dificuldade do terreno sobre o qual se desenvolve, e que na repetição define os contornos da nossa paisagem.

Hoje, as técnicas adquiridas na construção permitem enfrentar o desafio da modernidade com confiança. Embora as dificuldades se mantenham, elas representam a arte e engenho das gerações passadas. A sua determinação confere-nos um conjunto de valores que podem ser aproveitados como registo edificado de um património muito interessante, mas sobretudo de um potencial enorme para que os jovens arquitetos possam pensar os seus projetos num cenário de grande beleza e dramatismo, tirando partido das características intrínsecas da orografia da Madeira.

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