Estudo Prévio

Levantados do chão – Ensaio visual

Categorias: Arquitetura

Gonçalo Pacheco
goncaloduartepacheco@gmail.com
Doutorando na Universidade de Évora | Gonçalo Duarte Pacheco Arquitetos | Outro Estúdio

Para citação: PACHECO, Gonçalo, Lina – Levantados do chão.
Estudo Prévio 17. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, 2020. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/17EV

Recebido a 19 de março de 2020 e aceite para publicação a 20 de abril de 2020.
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Levantados do chão

“Por mais que procuremos, nunca trabalhamos num deserto, estão lá as marcas suficientes para nós as envolvermos e as transformarmos”. (Álvaro Siza, no documentário: Bairro da Malagueira 1996)

O projeto “Levantados do Chão” surge integrado na exposição “Siza, uma Malagueira Plural”, conduzida pelo DAUÉ e CHAIA, por ocasião da 10ª edição do DO.CO.MO.MO ibérico, coordenado pelo Prof. Daniel Jiménez e curadoria de João Soares (DAUÉ), Sofia Salema (DAUÉ) e Pedro Guilherme (investigador CHAIA_UÉ).

“Levantados do Chão” é um primeiro ensaio relativo à tese de doutoramento que estou a desenvolver com o tema “O sentido de Lugar arquitetónico na experiência mediada da fotografia”, que se revela segundo a metodologia “research by design”.

As imagens captadas resultam de diversas perambulações pelo Bairro da Malagueira, projeto de Álvaro Siza Vieira em Évora, durante o ano de 2018 e faz parte de um conjunto alargado de imagens captadas entre 2017 e 2020. Assume-se como uma visão específica do Bairro, assente em imagens que nos revelam fragmentos quasi-abstratos e emergentes, à “espera de brotar, das coisas vivas, o aflorar de uma raiz, o rebentar do chão pela rocha” [1].

A etimologia da palavra emergência surge do latim “emergere” que significa “trazer à luz”, subir à superfície. Emergência apresenta um carácter multidisciplinar aplicado à filosofia, psicologia, botânica. Em todas as áreas, o fenómeno ocorre através da duração de um tempo, de carácter espontâneo, sem regra e sem padrão definido à partida.

A formação de uma nova camada que emergiu e continua a emergir de forma desordenada e espontânea gera uma nova assimilação e sobreposição ao palimpsesto que se gera numa cidade, num troço, ou neste caso, no Bairro da Malagueira. Tal como referiu Siza Vieira quando chegou ao local, a força do depósito de água, dos cursos de água, dos maciços rochosos, das árvores seculares deram inicio a uma consciente adaptação contínua do projecto inicial à medida que a perceção e registo destes “marcos da paisagem” se faziam evidenciar de forma natural.

Entende-se através da leitura do bairro que se consegue compreender a simbiose entre o meio natural e o construído, numa dialética de dimensão física do espaço planeado e construído para durar um tempo longo, e a dimensão do tempo curto e espontâneo, definido pelas apropriações (naturais e artificiais).

A visão de “Levantados do Chão” assume-se assim como um novo layer temporal, onde se revelam apropriações, emergências, artefactos de betão e pedra, texturas, limites, etc. No processo de registo suprimiu-se tudo o que é móvel e divagante, rejeitando sombras, pessoas e automóveis, reduzindo a leitura à sua essência, na dimensão material, natural e temporal.

As imagens captadas exigem assim, uma distância da visão imagética geral do bairro, uma vez que nos falam de vários lugares – em certa medida simbióticos entre sim – que, sendo representativos do bairro, nos permitem refletir sobre aspetos fulcrais como evolução, apropriação, fragmentação, tempo e deriva.

Palavras-Chave: Malagueira, Álvaro Siza, Ensaio visual, fragmento, perceção, revelação, ambiguidade, desfoque

Biografia

Gonçalo Duarte Pacheco nasceu nas Caldas da Rainha em 1988. Tirou o mestrado em Arquitetura, pela faculdade Autónoma de Lisboa em 2013, tendo o projeto referente à sua tese de mestrado sido reconhecido com o prémio Secil Universidades 2013, ano em que iniciou o estágio no atelier de Campos Costa Arquitectos. Em 2016 funda o atelier Gonçalo Duarte Pacheco Arquitectos e atualmente dedica o seu trabalho entre a Arquitetura e Fotografia, tendo criado o Outro Estúdio, dedicado à produção de fotografia de Arquitetura e Paisagem. Frequenta o Doutoramento de Arquitetura na Universidade de Évora, desde 2018.
1 Ver texto resumo da exposição “Siza, uma Malagueira Plural”, realizada no ano de 2018, de João Soares, Pedro Guilherme e Sofia Salema.

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