Luís Ferreira Alves: Um duro, terno e inesquecível retrato do Alentejo de 1958-59

Categorias: Entrevistas

O fotógrafo Luís Ferreira Alves, de 83 anos, recorda os dias que passou junto de quem trabalhava nas searas de Peroguarda, “uma aldeia alentejana mergulhada na pobreza” do Estado Novo – nu​ma aventura que terminou com uma detenção da PIDE. “A monda era um trabalho violentíssimo, doloroso, absolutamente desgastante”, conta. “O que mais me impressionou foi como mantinham aquele sorriso.”

“A minha voz está muito fraca, não está?”, pergunta o fotógrafo, do outro lado do ecrã, ao dar início à entrevista ao P3. Aos 83 anos não é fraca a voz, a memória ou a emoção com que o fotógrafo Luís Ferreira Alves revive aquela que guarda como uma aventura inesquecível. O seu olhar ilumina-se ao recordar os dias que passou em Peroguarda, no Alentejo, nas férias da Páscoa de 1959. “Eu era um rapaz de 18 ou 19 anos, apaixonado pelo cinema do real, que tinha, já na altura, uma forte consciência política”, refere.

Em plena ditadura fascista, Luís Ferreira Alves não foi ao Alentejo “fazer reportagem”. O então jovem fotógrafo amador portuense (que trabalhava, na altura, no banco fundado pelo seu pai), a sua esposa Helena Cardoso e o amigo Alexandre Alves Costa chegaram a Peroguarda no seu automóvel. A estadia na pacata aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo estava longe de ser fortuita – era, na verdade, fruto de um convite que teve por base a amizade improvável que floresceu durante um festival de folclore, no Porto, entre eles e os membros do grupo coral de Peroguarda. “O clima de amizade que se formou foi de tal ordem que, nessa mesma noite em que nos conhecemos, passámos a ponte Ponte Luiz I de braços dados a entoar cante alentejano”, recorda o fotógrafo, sorridente, de olhar distante. “Quando eles regressaram a Peroguarda, convidaram-nos para ir lá. Davam-nos alojamento e comida.” Assim foi.

Num contexto de pobreza extrema, a presença dos três forasteiros, “meninos bem da burguesia nortenha”, como descreve o fotógrafo, destoava grandemente. “Fomos muito bem recebidos”, refere Luís. “De manhã, saíamos para acompanhar os trabalhos no campo.” Era o tempo da monda. “O objectivo era fotografar e recolher as emoções.”

E emoções encontraram. “Vivemos na aldeia, vivemos as gentes, vivemos as crianças”, refere o fotógrafo nas páginas do fotolivro Peroguarda 58/59, que resultou da viagem que ocorreu há mais de 60 anos. As imagens descrevem as duras condições de vida no final da década de 1950 “de uma aldeia alentejana mergulhada na pobreza”. Os trajes de época ou os objectos modestos do interior das casas são suficientes para prender longamente o olhar, porém, quem se demora um pouco mais na leitura poderá ver muito para além da superfície. Crianças descalças que carregam fardos de palha, mulheres vergadas em ângulos agudos (que prometem infligir dores igualmente agudas) sorriem para a câmara com uma inocência inexplicável.

“A monda era um trabalho de mulheres”, explica o fotógrafo. “Era violentíssimo, doloroso, absolutamente desgastante. O que mais me impressionou foi como mantinham aquele sorriso, aquela raia.” Nas fotografias, as mondadeiras têm as caras mergulhadas nas searas e os homens permanecem na posição vertical. “Eles eram enviados do patrão para fiscalizar o ritmo de trabalho delas. Apenas.” Existe uma crítica implícita, refere; a legenda, original, de 1959, confirma: “O rebanho — num país de machos. O mando é masculino e vertical. A servidão é feminina e horizontal.” Uma crítica política? Em pleno Estado Novo?

A pouco discreta e algo inusitada presença dos três portuenses não passaria despercebida à Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). “Nós não estávamos ali a fazer política, embora fôssemos os três de esquerda”, refere o fotógrafo. Numa das noites, Luís acordou com uma pancada no peito e uma pistola apontada. “Levaram-nos presos.” Foram interrogados separadamente. “Como é que aquilo podia estar a acontecer?”, questiona o fotógrafo, ainda indignado. “Prenderam-nos e ficámos ali a secar.” O episódio acabou quando um dos agentes entrou na sala de interrogatório e exclamou que o pai de Luís deveria estar contente com os resultados do último jogo do Futebol Clube do Porto. Após averiguação, o agente concluiu que tinha detido o filho do dirigente do clube. À saída, os três recusaram apertar a mão de quem acabava de libertá-los. “Foi um momento perigoso”, recorda, satisfeito. Regressaram a Peroguarda, onde foram recebidos por todos com enorme alegria. “Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida”, conta o fotógrafo, com um sorriso estampado no rosto. “Havia chapéus pelo ar!”

O fotolivro Peroguarda 58/59 seria um livro diferente se a história que lhe deu origem não estivesse impressa nas suas páginas, em conjunto com as fotografias que foram realizadas no mesmo período. As duas dimensões expostas fazem o retrato do mesmo país a partir de dois pontos de vista muito distantes; essas acrescentam camadas à leitura do contexto histórico em causa. “No final, conseguimos passar por cima de todos os formalismos e ser aceites pelos habitantes de Peroguarda como irmãos”, conclui o único fotógrafo que é membro honorário da Ordem dos Arquitectos. “Conseguimos abrir a porta daqueles corações fortes, sólidos.” Sente, por isso, gratidão.

O conjunto de imagens estará, brevemente, em itinerância pelo Alentejo. A primeira exposição, na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, terminou a 31 de Setembro 2021. Sem data prevista, a que se segue irá decorrer em Serpa. Luís Ferreira Alves, um pioneiro e uma referência da fotografia de arquitectura, espera poder expor, quanto antes, na aldeia de Peroguarda.

 
 
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