O maravilhoso novo mundo da construção

Categorias: Arquitetura

Não acharíamos estranho que um jogador de futebol desempenhasse a função de avançado, árbitro e treinador na mesma partida? Ou que um médico cirurgião operasse de manhã, fosse enfermeiro à tarde e farmacêutico aos fins de semana? Ou que um piloto de aviões pudesse acumular funções de controlador aéreo e mecânico de aeronaves?

Provavelmente desconfiaríamos destes profissionais.

Não obstante, na construção tende-se a valorizar as empresas de técnicos que projetam, constroem e certificam. Sedimentou-se a ideia de que é mais rápido e barato. Repare-se nos cartazes publicitários afixados nas obras. É cada vez mais corrente ver-se empresas de construção assumirem que os seus serviços vão muito além da mera construção, ainda que isso não corresponda a um quadro de pessoal profissional distinto e/ou habilitado a dar respostas em todas as áreas.

Nos últimos meses, este processo de concentração tem vindo a ser fortemente alavancado pelo governo adjudicando milhões de euros de estudos e projetos, escondidos sob procedimentos concursais para obras. Como se chegasse a um restaurante e os únicos critérios fossem querer encher a barriga pelo preço mais baixo, independentemente do cardápio.

Aquilo que hoje parece normal na construção, e pateta noutros setores, não tardará a estender-se a outros setores. Do ponto de vista ideológico, este fenómeno é intersticial na fase de capitalismo financeiro em que vivemos, estruturando-se a partir de dois eixos: a diluição das profissões e a constituição de monopólios.

Desvalorizar o conhecimento e o estudo liberalizando as fronteiras entre profissões e saberes, dando a entender que todos podem fazer tudo independentemente da sua formação, mais não é que a construção de um sujeito modelo entre Miguel Relvas e Miguel Gonçalves. Como se percebe pelo setor da construção, a diluição das profissões é o terreno fértil para a formação de monopólios. Numa primeira fase, a partir da constituição de pequenas empresas que fazem tudo pelo menor valor – o que significa, a montante, ter os salários mais baixos ou os trabalhadores mais precários e menos formados – e, numa segunda fase, a partir da sua exploração através de subempreitadas geridas pelas grandes empresas – meros capatazes que garantem a execução de contratos e concentram as mais-valias financeiras do contrato.

©Jornal i . Artigo de opinião por Tiago Mota Saraiva . 04/06/2018

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