O que mais se valoriza numa casa? “A relação com o exterior privado”

O que mais se valoriza numa casa? “A relação com o exterior privado” – José Carlos Nunes de Oliveira, fundador do atelier NOARQ, em entrevista sobre o presente e futuro da habitação e arquitetura.

A forma como vivemos os espaços – públicos e privados – mudou com a pandemia. O papel da casa como centro de tudo saiu reforçado, e há agora novas preocupações. Para José Carlos Nunes de Oliveira, fundador do atelier de arquitetura português NOARQ, atualmente, aquilo que é mais valorizado numa casa é “o espaço de estar”. “Não necessariamente interior. A relação com o exterior privado. A natureza que nos envolve e que desejamos que entre casa dentro. A relação com a terra”, refere em entrevista ao idealista/news.

De acordo com o responsável do premiado atelier de arquitetura, até pode “ser apenas uma dezena de metros”, mas esta conexão e relação com o exterior e natureza “devolve-nos a dimensão biológica que nos dá origem”. José Carlos Nunes de Oliveira acredita que a pandemia veio expor as insuficiências da arquitetura de menor qualidade e fez aumentar o número de potenciais novos clientes e mais críticos, e não mudar os perfis de procura.

Mas que tipo de casas é que os clientes procuram? “Os nossos clientes procuram casas sem modelos”, indica. “Procuram casas que desconhecem, mas que revelem o seu modo de estar consciente e comprometidos com a vida. Procuram o essencial sem artifícios, a luz resguardada do sol intenso, a expressão das matérias primas e mão de obra qualificada, a sustentabilidade da construção, o respeito pelo meio ambiente e pela paisagem, a simplicidade, organização, proporções…”, acrescenta.

Para o fundador do NOARQ o “design não é critério”, mas sim consequência de um conjunto de preocupações, entre as quais emerge a “sustentabilidade, a integração urbana, a maximização dos recursos mínimos, a durabilidade como pontos de partida”.

Além de fazer um balanço da atividade e projetos do atelier, nesta entrevista escrita para o idealista/news que agora reproduzimos na íntegra, José Carlos Nunes de Oliveira reflete sobre os principais desafios da arquitetura para o futuro.

Pode falar-nos um pouco sobre o NOARQ? Em que ano foi fundado o atelier, por quem e onde, qual a vossa aborgadem…

Creio que o atelier NOARQ foi fundado antes da sua constituição formal em 2006. A vontade seminal já existia à saída da faculdade em 1998. Tinha com amigos um atelier de estudo, um lugar de partilha, reflexão e elaboração dos trabalhos da faculdade. Era comum entre os estudantes de arquitetura. No meu caso partilhava-o, para além dos amigos proto-arquitetos, com designers gráficos, um designer de moda e até um criador de jardins. Éramos jovens vivos, idealistas e apaixonados, nada gestores. Dois anos após a licenciatura entrámos em insolvência ideológica, senão financeira também. Decidimos abrandar e ganhar experiência com profissionais mais experientes. Passei os anos seguintes da minha vida com o Arq. Siza, iniciei o doutoramento que nunca concluí.

Após quatro anos a full-time com o Arq. Siza, pedi-lhe meio tempo para me dedicar a um projeto de um hotel rural e fundei oficialmente o NOARQ– uma revelação de mim igualmente apaixonado, talvez mais amadurecido.

“NOARQ é o nome da vontade de fazer e pensar com as mãos”. Pode explicar-nos este conceito?

Penso com as mãos. As mãos figuram as ideias. Sem as mãos as ideias não ganham corpo, dissolvem-se no cérebro. Hoje a tecnologia dispensa o movimento das mãos. Tenho, contudo, a felicidade de possuir mãos ágeis e coloco-as ao serviço do cérebro e do espírito. A mão tem aqui o significado do ofício do desenho. Um ofício que nasce do pensamento, do compromisso e do desenho. Com as mãos desenho, escrevo e moldo. As mãos testam o cérebro. As palavras comunicam, mas comportam ambiguidades, equívocos porventura. Com as mãos esculpo e desenho. Das mãos nascem formas, as formas informam não mentem.

Baseiam a vossa prática na “atenção, reflexão e resposta”. Em que medida?

A atenção utiliza os sentidos essenciais à vida. Estar atento é fundamental para progredir. Ser atento é “Saber ver”, compreender a partir do que vemos é fundamental ao arquiteto. Mas a atenção é também o compromisso com os nossos clientes, mesmo antes de o serem. Trabalhamos para humanos. Somos atentos, críticos e comprometidos com propostas que nos parecem conscientes com as grandes preocupações dos nossos dias e com as preocupações de sempre da arquitetura.

A que tipo de projetos se dedicam?

Dedicamo-nos à arquitetura e a tudo que a sustenta e que dela deriva. Não nos interessa a especialização ou a especificidade. Temos em mãos trabalhos muito distintos em escala, complexidade e programa, seja de encomenda privada ou pública. Interessam-nos os desafios que a arquitetura nos coloca à escala do território, da paisagem, da cidade, do lugar, dos equipamentos, ou até, dos objetos quotidianos.

O residencial destaca-se no vosso portefólio. Que tipo de casas é que os clientes procuram?

Os nossos clientes procuram casas sem modelos, de modo que não lhe sei responder através de clichés. Os nossos clientes procuram casas que desconhecem, mas que revelem o seu modo de estar consciente e comprometidos com a vida. Procuram o essencial sem artifícios, a luz resguardada do sol intenso, a expressão das matérias primas e mão de obra qualificada, a sustentabilidade da construção, o respeito pelo meio ambiente e pela paisagem, a simplicidade, organização, proporções…

Quais são as principais preocupações? O design? Os materiais? A sustentabilidade?

O que acabei de referir, são parte das preocupações que dividimos com os nossos clientes. Estas preocupações são a nossa condição para aceitarmos um projeto. Acreditamos numa postura de serviço e de missão. Não sabemos exercer sem critério. O design não é critério. O design é consequência de um conjunto de preocupações, entre as quais emerge a sustentabilidade, a integração urbana, a maximização dos recursos mínimos, a durabilidade como pontos de partida. Por sua vez estes princípios limitam a seleção dos materiais, e estes por sua vez contêm propriedades físicas que determinam a sua forma e desenho.

A pandemia provocou alterações no perfil de procura?

Não creio. Expôs as insuficiências da arquitetura de menor qualidade, o que, creio fez aumentar o número de potenciais novos clientes e mais críticos.

Atualmente, o que é que é mais valorizado numa casa?

O espaço de estar. Não necessariamente interior. A relação com o exterior privado. A natureza que nos envolve e que desejamos que entre casa dentro. A relação com a terra. Pode ser apenas uma dezena de metros, mas devolve-nos a dimensão biológica que nos dá origem.

O NOARQ já foi reconhecido com várias distinções e prémios. O projeto HALO venceu o LOOP Design Awards 2021 recentemente. Que projeto é este?

Trata-se de um edifício constituído por elevador panorâmico urbano e duas passerelles de ligação à cobertura do novo edifício da estação de alta velocidade de Vigo. O edifício onde se apoia e desembarca este elevador e passerelles é um interface rodo-ferroviário, suportado por um centro comercial, cuja cobertura é um amplo espaço urbano numa situação dominante da panorâmica da magnífica ria de Vigo.

A nossa proposta ganhou especial relevância porque, para além assinalar o edifício desenhado pelo arquiteto Thom Mayne – Morphosis (Prémio Pritzker da arquitetura), num ponto alto da cidade, sobre uma autoestrada, o que por si lhe atribui a condição de landmark da cidade, tem um papel fundamental na resolução de um problema de mobilidade urbana, entre as cotas altas e baixas da cidade.

Apresentaram também a melhor proposta para a construção da nova ponte sobre o rio Douro entre Porto e Gaia, em parceria com o laboratório Edgar Cardoso e o Arenas y Asociados. Em que ponto está este projeto? Quais são os próximos passos?

Foi um privilégio trabalhar com ambas as célebres equipes de engenharia. Foi um privilégio ser autor da proposta de ponte escolhida num rigoroso escrutínio anónimo, por um júri tão distinto e de inatacável isenção, não obstante a frustração tomou conta das emoções de alguns dos vencidos que intentaram impugnações ao processo de concurso, de modo que momento a fase de contratualização prevista no concurso está temporariamente suspensa.

Que projetos é que o NOARQ tem atualmente ‘in progress’?

Projetos de habitação privada de autoria exclusiva NOARQ e outros em comum com o Arq. Siza. Edifícios de habitação unifamiliar e multifamiliar (ditos de apartamentos). Um edifício sede de município, um showroom, umas piscinas na Galiza e estes que acabei de referir.

Paralamente ao NOARQ, o José integra a equipa de Álvaro Siza Vieira desde 2000. Como é trabalhar com um dos grandes arquitetos portugueses?

Trabalhar com o Siza foi, é e será sempre um privilégio – uma satisfação e realização pessoal. Permita-me uma correção, um dos maiores arquitetos do mundo e de sempre.

Em que projetos esteve (ou está) envolvido?

Imensos. Trabalhei em todos os projetos do Porto 2001 – Praça da Liberdade, Museu da Cidade na Av. Da Ponte, a renovação da Fonte do Cativo; a estação de Metro de S. Bento; no plano de pormenor de Montreuil – Paris; o Grande Hotel de Vila do Conde; um condomínio de 8 casas em Vicenza – Itália; a Fundação Nadir Afonso em Chaves; o Museu Internacional de escultura contemporânea em Santo Tirso; o Quartel do Bombeiros Voluntários de Santo Tirso; Nos projetos de recuperação dos parques termais de Vidago e Pedras Salgadas, nomeadamente no hotel e nos edifícios do golfe de Vidago entre outros.

Uma última pergunta. Tendo em conta o cenário pré e pós-pandemia, quais são os principais desafios da arquitetura para o futuro?

Durante este sombrio período da história a arquitetura foi testada ao seu limite. Nunca a cidade, os espaços abertos fizeram tanta falta. As cidades foram vistas e admiradas vazias e recordadas com sofrimento pelo esplendor da vida subitamente esvaziado. O isolamento das pessoas em casa revelaram cidades vazias. Mostraram o verdadeiro estado das cidades. O vazio humano mostrou as insuficiências da cidade, a fealdade, o seu anacronismo, o desejo de se renovarem para acolher e proteger os cidadãos. Para isto é fundamental a reconversão deste corpo complexo no sentido da sua sustentabilidade integral; a digitalização do espaço urbano ao serviço da segurança dos cidadãos; a higienização dos hábitos urbanos e a qualidade dos espaços interiores privados capazes de fazer frente a períodos semelhantes ou cada vez mais em teletrabalho.

 

Fotografias © João Morgado / Fernando Guerra / NOARQ

 

Entrevista publicada no site idealista news por Leonor Santos

 

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