Alexandra Paio

O que pode (e não pode) fazer a arquitetura?

O que pode (e não pode) fazer a arquitetura? – O problema dos sem-abrigo não é um tema fácil e não tem sido relevante nas discussões públicas em torno das cidades e da arquitetura, essencialmente porque a perceção geral é de negação.

É aceitável que as cidades europeias tenham pessoas a dormir na rua? Esta questão surge no âmbito da divulgação do inquérito de caracterização das pessoas em situação de sem-abrigo publicado na semana passada no portal da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA). Portugal tem cerca de 8.200 pessoas nesta situação e as áreas metropolitanas de Lisboa (AML) e Porto (AMP) concentram mais de metade dessa população.

O problema dos sem-abrigo não é um tema fácil e não tem sido relevante nas discussões públicas em torno das cidades e da arquitetura, essencialmente porque a perceção geral é de negação. Tal cenário significa que é fundamental mudar a forma como as pessoas pensam sobre os sem-abrigo, concentrando mais a atenção na resolução do problema, em vez de continuar a ver a questão apenas como um problema.

Redesenhar o combate à pobreza e à exclusão social desta população vulnerável deve começar a fazer parte não apenas do discurso mas da ação dos municípios. Não é aceitável que se continue a fazer inúmeros estudos, e não se apresentem soluções simples: dar-lhes uma casa.

O Housing First (Casas Primeiro) criado nos anos 90 em Nova Iorque por Sam Tsemberis tem tido um papel muito importante na criação de soluções inovadoras no respeito pelo indivíduo e pelas suas escolhas.

O sucesso do desenho de soluções centradas na pessoa  para proporcionar alojamento estável, muitas vezes em situações de sem-abrigo crónicas, levou a que a Europa esteja, também, a testar em muitos Estados-membros programas piloto.  O projeto é um interlocutor e tem uma posição única para gerar contributos para a construção do pilar europeu dos direitos sociais.

Já o Skid Row Housing Trust, em Los Angeles, é um exemplo de promotores de habitação de apoio permanente. Um modelo de acessibilidade à habitação tangível economicamente. Os projetos não só fornecem alojamento acessível, como também infraestruturas sociais críticas, tais como cuidados de saúde e serviços de apoio, que ajudam os indivíduos a levar uma vida mais estável.

Dois visionários americanos se têm destacado no desenho de empreendimentos habitacionais inovadores, num trabalho prático ao longo de várias décadas,  ajudando a moldar o mercado sem fins lucrativos como promotor reconhecido e premiado.

Mike Alvidrez destaca que “a percepção pública de habitação de apoio mudou para sempre graças às nossas parcerias com arquitectos de renome para conceber belos espaços residenciais e comunitários que fomentam a reconexão, a cura e a dignidade”.  Segundo Michael Maltzan, a conceção e construção, que envolve contexto e comunidade, “exige que voltemos ao que é mais eficaz na arquitectura e à forma como ela enquadra as relações sociais”.

Os Apartamentos Rainbow e Star Apartments tornaram-se exemplos de como a arquitetura pode assumir um papel ativo na realização dos benefícios sociológicos e psicológicos para os seus residentes.

A base de conhecimento e experiência destes projetos arquitetónicos, de colaboração orientada para a comunidade, encoraja todos os que defendem o acesso a uma casa como um direito básico para todos. Neste, a arquitetura pode fazer a diferença, nas soluções a longo prazo, refletindo a mudança de pensamento sobre a forma de reintegrar os sem-abrigo na sociedade.

Artigo publicado no © Jornal Económico . Artigo de Opinião de

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