Antonio Covas

O urbanismo do futuro e a inteligência do território

A cidade tipológica do mundo urbano-industrial é, como sabemos, a cidade do automóvel e das grandes densidades urbanísticas, cuja massa e volumetria se sobrepõem à morfologia e aos valores patrimoniais e culturais do território. As fronteiras da cidade foram ultrapassadas e os perímetros urbanos alargados, as infraestruturas rasgaram o território envolvente e as barreiras naturais em todas as direções, a alteração do uso dos solos promoveu a especulação imobiliária e a irracionalidade urbanísticas. Nesta sequência desordenada desapareceu, quase por completo, a antiga unidade espacial da urbe-ager-saltus-silva, num tempo em que a cidade era um ponto no meio do campo e a cultura da cidade uma tradição comum à cultura do campo.

Na terceira década do século XXI, o urbanismo do futuro só pode ser um espaço socialmente construído para o exercício da cidadania plena, um cadinho de humanidade em permanente construção. Neste urbanismo do futuro as tecnologias digitais contribuem para tornar a cidade mais inteligente e criativa, mas é o urbanismo nas suas várias dimensões que torna as tecnologias digitais muito mais inteligentes, humanas e criativas. É esta transação fundamental, do urbanismo à urbanidade, que não podemos nunca perder de vista. Senão, vejamos:

– Em primeiro lugar, o urbanismo do futuro aprovará uma cidade com maior conexão das suas funções urbanas, sempre que possível uma cidade coproduzida com os seus cidadãos, com maior hibridação de funções públicas e privadas, mais aberta e com maior escrutínio por via do acesso dos cidadãos aos dados públicos, que estão disponíveis na plataforma analítica territorial da cidade;

– Em segundo lugar, o urbanismo do futuro aprovará uma cidade mais circular e solidária, não apenas pela mutualização de áreas de trabalho com outras cidades, mas, sobretudo, uma cidade em interação constante com um cidadão multitarefas e multifunções e que respeita uma ética do cuidado em direção aos grupos mais desprotegidos da população;

– Em terceiro lugar, o urbanismo do futuro aprovará um modelo de economia do território de proximidade e ajustado à natureza de cada bem comum e bem público e em que as infraestruturas e equipamentos serão concebidos e realizados para apresentarem um risco sistémico mínimo entre os seus concidadãos, ou seja, onde todos os custos e benefícios externos são conhecidos, explicitados e auditados;

– Em quarto lugar, o urbanismo do futuro aprovará uma tipologia de programação e planeamento em que as novas funcionalidades e utilizações permitidas pelas tecnologias digitais interagem com a arquitetura do espaço público e as aglomerações habitacionais e mantêm uma relação privilegiada com a sociedade sénior, não apenas na sua mobilidade, mas em todos os aspetos relativos à sua qualidade de vida;

– Em quinto lugar, o urbanismo do futuro aprovará uma relação cidade-campo inteligente e criativa, isto é, uma relação privilegiada com as áreas naturais e agrícolas adjacentes, tendo em vista a construção de um sistema produtivo local (SPL), a criação de mercados de nicho, a promoção de consumos de proximidade e o lançamento de espaços terapêuticos de recreio, lazer e turismo;

– Por último, o urbanismo do futuro aprovará uma cidade muito interativa em termos culturais, artísticos e recreativos e contribuindo para uma nova estética urbana, isto é, uma cidade que utiliza o seu virtuosismo tecnológico e digital e a liberdade criativa dos seus cidadãos para construir o génio e espírito dos lugares que a rodeiam.

Aqui chegados, parece claro que o urbanismo do futuro, o urbanismo da urbanidade, não se confunde com o determinismo tecnológico de uma Smart City. Seja como for, teremos, doravante, muito provavelmente, duas cidades a correr ao mesmo tempo e, por vezes, lado a lado. Uma cidade mais determinística e instrumental onde as tecnologias digitais irão condicionar a engenharia das infraestruturas, a arquitetura urbana e o metabolismo da cidade e onde a nova cultura tecno-digital criará não apenas uma outra estética urbana, mas, sobretudo, um novo contrato social com os cidadãos. Por outro lado, uma cidade mais compreensiva, complexa e humana, com várias velocidades e serviços de proximidade e mais adaptada aos diferentes estratos e grupos vulneráveis de uma população em declínio demográfico. No final, assistiremos a uma pequena revolução na governação política da cidade do futuro, uma cidade a duas velocidades e coabitando pacificamente e eficazmente.

No que se refere à inteligência do território, e respeitando o mesmo princípio geral de urbanismo e urbanidade, indicamos, muito sinteticamente, algumas policy-areas onde a transição tecno-digital se projeta sobre a estruturação do território e os seus modos de organização e inteligência coletiva territorial:

– Em primeiro lugar, a digitalização dos serviços públicos, da loja do cidadão in situ à loja do cidadão ex situ operada através do nosso smartphone; acrescem algumas alterações importantes na relação entre o back office e o front officemunicipal,

– Em segundo lugar, a smartificação das cidades e das redes urbanas, em múltiplos equipamentos e infraestruturas e, também, nos polos de inovação e hubs tecnológicos onde se incluem as incubadoras de start up e aceleradoras empresariais,

– Em terceiro lugar, a plataformização colaborativa na qual muitas atividades socioeconómicas vão construir uma nova vida de relação com os seus pares, fornecedores, clientes e utentes em modo de cocriação e cogestão, por exemplo, no âmbito do plano de desenvolvimento de uma CIM ou rede urbana,

– Em quarto lugar, a clusterização de uma área de atividade industrial, por exemplo, o que decorre das agendas mobilizadoras e dos consórcios empresariais do PRR, mas, também, de operações de fusão e concentração empresariais no âmbito da reestruturação de fileiras e cadeias locais e regionais,

– Em quinto lugar, a gestão do ordenamento do território e da paisagem global no subsistema crítico agroflorestal, por exemplo, na silvicultura preventiva, nas zonas de intervenção florestal e nas áreas integradas de gestão paisagística, mas, também, na gestão do mosaico paisagístico, do mix energético e da rede de economia circular,

– Em sexto lugar, a transformação da arquitetura do espaço público urbano e das relações cidade-campo, por exemplo, em matéria de sistema inteligente de mobilidade urbana, construção modular e gestão de infraestruturas, corredores verdes e do parque agroecológico urbano,

– Em sétimo lugar, a implementação de redes regionais de educação, formação e extensão (agrupamentos escolares), ensino técnico-profissional e ensino superior onde o património e a paisagem, as ciências e as tecnologias, as artes e a cultura, sejam os ativos essenciais de uma política reformista para a escola e a universidade.

Aqui chegados, só teremos uma ocupação equilibrada e harmoniosa do território se tivermos intérpretes genuínos para a inteligência coletiva territorial, ou seja, atores-rede capacitados para administrarem as várias plataformas colaborativas e os seus dispositivos tecnológicos e digitais mais diferenciados. Eis alguns desses incumbentes principais que precisam urgentemente de ver a luz do dia e ser operacionalizados:

As uniões de freguesias e as redes comunitárias de serviços ambulatórios junto dos grupos de população mais vulneráveis; a tecnologia digital favorece esta mobilidade,

As zonas de intervenção florestal (ZIF), as áreas integradas de gestão da paisagem (AIGP), os condomínios de aldeia (CA), as associações de baldios, precisam de estar no terreno para realizar com eficácia a gestão do risco de incêndio e a gestão florestal,

As áreas de paisagem protegida, os parques naturais, os geoparques, as zonas termais, conjuntamente com clubes de produtores e associações de defesa do património realizam o ordenamento e a gestão efetiva do património natural e a sua visitação turística,

Os centros de investigação, os laboratórios associados e colaborativos, precisam de estar no terreno com o apoio de jovens estagiários e estudantes de pós-graduação em projetos de investigação que tenham pontos de apoio em projetos empresariais,

As zonas industriais, os parques empresariais e os núcleos empresariais, precisam de estar no terreno para realizar a gestão coletiva de bens e serviços comuns, em especial, os novos projetos de sustentabilidade em matéria de gestão de resíduos e economia circular,

As associações empresariais, as escolas profissionais, os institutos politécnicos e as universidades, precisam de constituir plataformas colaborativas de cooperação e extensão empresarial de apoio ao reagrupamento e recapitalização de PME e explorações agrícolas,

Os agrupamentos europeus de cooperação territorial (AECT), euro-cidades e euro-regiões, precisam de estar no terreno, formar plataformas colaborativas e realizar efetivamente a cooperação transfronteiriça que está inscrita nos seus programas,

As redes de vilas e cidades, as comunidades intermunicipais (CIM) e as regiões-cidade, precisam de estar no terreno e praticar formulas de federalismo intermunicipal, utilizando, para o efeito, as plataformas digitais das cidades e regiões inteligentes e criativas.

Nota Final

Como facilmente se observa, sem estes incumbentes principais e sem o talento que é necessário para administrar a inteligência coletiva territorial torna-se muito difícil realizar efetivamente as infraestruturas, os equipamentos, as plataformas, as comunidades inteligentes, os atores-rede e as equipas que são imprescindíveis à transição digital. Ou seja, se não construirmos com zelo e competência as nossas redes e plataformas made in, à medida das nossas necessidades, recursos e objetivos, vamos ficar nas mãos do grande negócio digital operado pelos intermediários dos gigantes tecnológicos que lidam connosco como meros utilizadores e consumidores finais dos seus produtos e serviços e sempre à mercê das novidades de última moda. Fica o aviso, o nosso problema maior não é de instrumentos ou tecnologia, é de compromisso e solidariedade com a economia do bem comum de pessoas e territórios.

 

Artigo de António Covas . Professor Catedrático da Universidade do Algarve

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