Antonio Covas

Patrimonialização, digitalização e turistificação de ABD

Categorias: Território

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As diversas classificações da UNESCO e as convenções do Conselho da Europa trouxeram à luz do dia muitos exemplares únicos do nosso património natural e cultural que, doravante, constam da agenda mediática, cultural e turística. Por outro lado, a aceleração tecnológica e digital, e em especial as artes digitais, transformam esses exemplares únicos em cristais multifacetados que nos devolvem mundos maravilhosos de encantamento paisagístico e desenvolvimento turístico. No fundo, temos à nossa disposição uma oportunidade única de associar os processos de patrimonialização e turistificação e através da sua digitalização inteligente abrir uma via rápida para a reterritorialização de áreas de baixa densidade (ABD), desta vez com mais fluxo do que stock. Os exemplos desta rede de fluxos e visitação já aí estão: os percursos de natureza, os vestígios arqueológicos, os endemismos locais, os lugares de culto e peregrinação, o nomadismo digital, os mercados de nicho como o enoturismo e o olivoturismo, a promoção do turismo residencial e dos terroirs como lugares de culto do património natural, as artes da paisagem e a valorização das artes e ofícios tradicionais, entre outros. Quer dizer, a patrimonialização, a turistificação e a digitalização territorial inteligente formam uma associação virtuosa e abrem caminho para o que poderíamos designar como uma nova geografia das interfaces territoriais das ABD.

Aqui chegados, porém, importa saber quais são os limites e as linhas vermelhas que estamos dispostos a respeitar para que não passemos em pouco tempo do círculo virtuoso ao círculo vicioso das ABD. Ora, na era da transição digital o processo de patrimonialização tem uma cadeia de valor própria que não é, todavia, independente do conceito que prevalecer em matéria de cidade inteligente e criativa e, mesmo, da cidade-região ou da região-cidade onde o processo de patrimonialização se inscreve. E, do mesmo modo, importa não esquecer que o turismo é apenas um subsistema do sistema regional de desenvolvimento territorial e que essa interdependência lhe impõe determinadas regras de bom comportamento. Tal como, de resto, o cluster das artes e da cultura que não devemos confundir com eventos, entretenimento, recreio e pastiche turístico.

Dito isto, importa saber como a inteligência coletiva de uma determinada região ou território está organizada e quais os procedimentos deliberativos que utiliza para prevenir os efeitos externos negativos dos processos de patrimonialização, turistificação e ludificação que são abusivos e intrusivos, pouco sustentáveis e com uma pegada energética e carbónica elevada. E, neste contexto, o sucesso da candidatura da cidade de Évora a Capital Europeia da Cultura, sob o lema esse vagar que leva longe a arte da nossa existência, uma formulação algo paradoxal no tempo que corre, pode ser muito útil e inspiradora para algumas reflexões a propósito desta associação entre patrimonialização, turistificação e digitalização das ABD. Senão, vejamos.

Em primeiro lugar, importa saber o que determina a equação do processo de patrimonialização: são as mais recentes tecnologias interativas que instrumentalizam e turistificam o processo de patrimonialização, é a convencional tecnologia arqueológica e histórico-cultural que comanda, é uma abordagem mais socio-antropológica que prevalece no quadro, por exemplo, de um plano nacional de educação e cultura para os mais jovens e os menos jovens, é o sentido meramente comercial e financeiro que patrocina determinados usos e aplicações com finalidade turística ou é, finalmente, uma mistura um pouco caótica de todas estas opções, onde os vários interesses e públicos podem coabitar e mesmo colidir se não existir uma boa dose de bom senso e bom gosto para administrar todos estes fluxos de vantagens e inconvenientes. E aqui só a racionalidade política, regional ou nacional, pode fixar alguns limites em matéria de boas práticas e compromissos de sustentabilidade. Dito de outro modo, a digitalização de um território precisa de um contraponto, de um centro dotado de um mínimo de racionalidade territorial que evite a cacofonia e o ruído de fundo e seja capaz de estabelecer o ponto de equilíbrio entre uma perspetiva estritamente empresarial do negócio turístico-digital e a sua relação saudável com a perspetiva da inteligência institucional e coletiva das comunidades territoriais, em particular, com o seu património e memória coletiva.

Em segundo lugar, não há dúvida de que a preparação técnico-científica de uma candidatura, como aquela que a cidade de Évora liderou, recoloca o triângulo virtuoso entre tecnologia, património e turismo num patamar mais elevado e exigente uma vez que o estudo técnico-científico dos nossos recursos patrimoniais é uma espécie de linha vermelha para os excessos de turistificação ao mesmo tempo que funciona como um instrumento precioso de marketing territorial. Acresce que, no caso de Évora, fica igualmente o alerta acerca de uma eventual vertigem turístico-cultural e seu impacto sobre a arte da nossa existência. De facto, é preciso salvaguardar o consenso social e a legitimação simbólica que são fundamentais para uma transmissão benigna da herança patrimonial, razão pela qual os processos de classificação, denominação e certificação se afiguram fundamentais para uma transmissão patrimonial que não ofenda a memória histórica.

Em terceiro lugar, as novas opções de reabilitação e restauração, mas, também, a introdução das tecnologias digitais, alteram a repartição dos rendimentos internos à cadeia de valor, um problema que o território necessita de acautelar. Acresce que a profissionalização em redor do processo de patrimonialização pode não ser nada pacífica, uma vez que os processos de industrialização e turistificação do património atraem novas profissões e interesses e a coabitação entre algumas delas, por exemplo, entre conservadores, gestores, animadores e operadores turísticos e curadores pode ser algo problemática. Em especial, a relação entre valoração e valorização é crítica no processo de patrimonialização e na formação de uma justa cadeia de valor. A valoração reporta-se ao sistema de valores dominante e à respetiva cultura do património, porém, nem sempre é fácil que lhe corresponda uma medida de valorização que respeite aqueles valores e cultura.

Finalmente, a ligação hipertextual que o património mantém com muitas outras disciplinas e linguagens cria as condições contextuais favoráveis para a produção de conteúdos artísticos e culturais de maior valor acrescentado, desde logo, a valorização das artes e ofícios tradicionais e sua incorporação nos produtos e serviços produzidos localmente, mas, igualmente, todos os sinais distintivos patrimoniais que podem ser conectados com os percursos de natureza, lugares de culto e peregrinação, endemismos locais, mercados de nicho como o enoturismo e o olivoturismo, os terroirs como lugares de culto do património natural e promoção do turismo residencial, as amenidades, artes da paisagem e os serviços de ecossistema, os recursos endógenos e a valorização das artes e ofícios tradicionais, entre outros

Notas Finais

A terminar, volto à cidade de Évora capital europeia da cultura 2027 e ao seu lema aparentemente tão peculiar e paradoxal. A sua filosofia diz-me que a nova governação das cidades inteligentes, justas e criativas deve fazer prova de vida também no que se refere aos processos de patrimonialização, turistificação e digitalização, em especial, o seu virtuosismo, moderação e justa medida, de tal modo que não sejam irreversíveis os danos causados sobre os recursos patrimoniais por via de uma espécie de industrialização do património pressionada, quantas vezes, pelo processo atribulado de turistificação.

O que Évora CEC 2027 nos diz é que, neste intervalo de tempo até 2027, o que está verdadeiramente em causa é a smartificação do território liderado por Évora e a nova relação entre o ator e o sistema, ou seja, o papel criativo dos novos incumbentes das comunidades inteligentes online e offline na animação e desenvolvimento das ABD. Neste sentido, há ainda muitos fatores críticos da transição digital que importará acautelar, por exemplo: o grau de cobertura da infraestrutura digital, o grau de literacia digital da população, o acesso, a regulamentação, a regulação e a segurança dos dados, os novos modelos de negócio digital e os novos formatos de empreendedorismo, as novas modalidades de serviços em coprodução e cogestão, os novos instrumentos de smartificação do território, as novas relações laborais e socioprofissionais e, por último, os modos de prevenir e lidar com os excessos de digitalismo e adição digital. Daqui até 2027, iremos assistir à formação e proliferação de inúmeras interfaces territoriais sob a forma de territórios-plataforma, comunidades inteligentes de âmbito geográfico muito variado e uma nova geração de atores-rede administrando uma nova geração de bens e serviços comuns no quadro de redes descentralizadas e distribuídas de âmbito e escala muito variáveis que procuram tirar partido dos diversos estímulos postos a concurso pela CEC 2027.

Évora CEC 2027 é, sem qualquer dúvida, uma cadeia de valor que interliga intensivamente património, natural e cultural, tecnologia, material e imaterial, e turistificação, massificada e diferenciada, numa área territorial de baixa densidade. Será um excelente local de observação e uma experiência rica de ensinamentos antes e depois de 2027 e um momento único no que diz respeito à formação, administração e exercício da inteligência coletiva territorial da era digital.

Artigo de António Covas publicado no JN

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