Património histórico e intervenção contemporânea | integração e oposição na reabilitação e arquitetura

Património histórico e intervenção contemporânea | integração e oposição na reabilitação e arquitetura – Bruno Martins | Arquiteto

Hoje percebemos bem a importância do nosso património histórico e da sua preservação. Hoje, felizmente, existe amplo consenso sobre a importância que tem a reabilitação dos nossos núcleos históricos, o que se tem traduzido em inúmeros apoios à sua reconstrução e a politicas que conduzam à regeneração urbana das cidades. Sempre que há uma intervenção de regeneração do espaço urbano, podemos verificar um efeito catalisador sobre o património edificado confinante, o que tem permitido que os privados se sintam com condições para também eles poderem reabilitar os seus edifícios.
Em Portugal, cidades como o Porto, Lisboa ou Funchal, entre outras, têm procurado estimular a reabilitação urbana com a implementação de politicas com incentivos, isenções fiscais, e um conjunto de instrumentos como as ARU´s (áreas de reabilitação urbanas) que têm conseguido obter resultados visíveis na reabilitação dos nossos centros históricos. Por isso mesmo, temos ouvido falar muito deste tema, que é de grande importância e premência, uma vez que os nossos núcleos históricos são parte fundamental daquilo que construiu a nossa memoria e identidade coletiva.

No meio deste turbilhão de palestras e dissertações sobre património edificado, têm surgido varias questões que têm afligido tanto arquitetos como engenheiros. Neste manancial de informação, importa refletir sobre o que de facto deve ser a reabilitação, e desmistificar alguns mitos que ainda existem. Exemplo disso é que sempre que se fala em reabilitação surge a duvida quanto à possível ampliação do edifício, ou melhor, quanto à identidade que este pode assumir. É comum ver uma recriação da traça arquitetónica que procura os traços do prédio original, mas que fracassa pela impossibilidade de recriação das antigas técnicas construtivas, ou da implementação do programa atual. Tenho visto muito frequentemente uma convicção errada de que reabilitar pode ser replicar. Não pode, não deve.

Ainda agora, no Funchal, assistimos à construção de uma réplica da capela das babosas, uma intervenção que procura copiar a antiga capela fatalmente desaparecida no fatídico 20 de Fevereiro de 2010. Ainda que compreenda as questões da fé e do que esta capela possa significar para os devotos, pergunto se a copia da antiga capela é a melhor intervenção. Será que hoje esta capela representa o mesmo do que antes? será que o aluvião que literalmente levou a igreja do seu pedestal não alterou nada na nossa memoria? será a melhor resposta a réplica da antiga capela?

Outra questão distinta será a reabilitação com ampliação. Sobretudo se essa ampliação for feita em tempos diferentes da construção original. Supondo que a intervenção é desenvolvida no tempo presente, será fundamental que a mesma não seja confundida com a pré-existência. Até porque é impossível recriar a carga que o tempo introduz nos edifícios, nem tao pouco recriar o “pensar” dos tempos passados.

A nova intervenção não deve procurar se apropriar dos princípios estéticos de edifício base, não deve replicar os seus traços, nem se confundir com a construção original. Pelo contrario, deve assumir o seu tempo, a sua contemporaneidade, o seu novo programa. E pode faze-lo em oposição ao edifício existente, sem que isso signifique uma qualquer rutura com o passado. Veja-se o exemplo da “reabilitação da antiga fabrica de manteiga” . Esta recuperação com ampliação, desenvolvida na Calheta, e que venceu o premio para “melhor projeto de reabilitação em Portugal” é um bom exemplo do que estou a falar. A nova intervenção assume uma nova pele e um novo tempo, mas destaca o antigo edificado e fá-lo sobressair enquanto edifício significante importante. No interior da casa-mãe, as antigas paredes de pedra recuperadas, não tocam na nova construção, que se afasta da fachada principal para deixar a luz verter da cobertura para o piso térreo.
O projeto, finalista do prestigiado prémio “building of the year”, da Archdaily, e que pode ser visto no link em baixo, é um bom exemplo de que reabilitar não deve ser recriar nem copiar e é hoje uma referencia de recuperação de edifícios, na Madeira, mas também no país. O reconhecimento da qualidade desta intervenção, por parte de prestigiadas publicações, ajuda a validar este caminho que venho a defender, e que passa pela valorização do nosso património edificado, mas sem medo de evoluir com soluções integradas contemporâneas, até como forma de respeitar os nossos edifícios históricos.

Poderia dar aqui outros exemplos. E muito mais haveria a dizer sobre este tema. Hoje percebemos que o nosso património edificado é um fator fundamental da nossa identidade coletiva. Por isso mesmo é importante falar de reabilitação. Mas esse desejo, essa necessidade, não nos deve deixar levar pelo receio da nova intervenção contemporânea. Pelo contrario, é fundamental saber equilibrar o que é reabilitar sem recriar, o que interessa preservar e o que pode ser novo, e respeitar as diferentes linguagens arquitetónicas que os diversos tempos introduzem. Afinal, o belo esta tanto no passado como no presente e no futuro.

 

Artigo de Opinião de Bruno Martins | Arquiteto

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