Manuel Martins

Pobreza Energética

Pobreza Energética é um tema que me preocupa imenso mas que nos devia preocupar a todos pois é mais profundo do que se imagina e mais abrangente do que é, muitas vezes, considerado.

Para quem não tem ideia nenhuma, Pobreza Energética refere-se à dificuldade em garantir os serviços energéticos essenciais de um edifício tais como arrefecimento, aquecimento, iluminação (natural e artificial), ventilação dos espaços e salubridade do ar (interior).

Embora o conceito possa parecer referir-se (apenas) ao espaço interior dos edifícios e à capacidade de consumo ou produção/aproveitamento de energia, o problema começa na relação dos edifícios com o exterior, isto é, na sua “casca”, nas fachadas, vãos e cobertura. Para um edifício ter um bom comportamento térmico tem necessariamente que ter cobertura e fachadas com bom isolamento (preferencialmente pelo exterior, desde ETICS a soluções de fachada ventilada no caso das fachadas), caixilharias com bom comportamento térmico e evitar pontes térmicas (isto é, transmissões de ar entre o exterior e interior através de espaços não colmatados entre isolamento de fachada e caixilharia ou, por exemplo, através da caixa de estore). A adopção desta consciência é fundamental a começar nos projetistas e a terminar no consumidor que terá que se informar sobre as condições técnicas/térmicas do espaço que habita (casa ou trabalho e sobretudo fazer dos certificados energéticos uma ferramenta).

A pobreza energética atinge o seu esplendor nos casos em que, devido a ausência da combinação destes fatores conciliada com a falta de meios (equipamentos de aquecimento ou arrefecimento) e uma frágil condição financeira (para os adquirir e pagar as contas decorrentes do seu uso), as pessoas sujeitam-se a temperaturas extremas e a ambientes insalubres, o que tem um impacto muito negativo na sua saúde (doenças vasculares, respiratórias, stress, alergias, perturbações mentais e do sono, etc..).

A variação de temperatura assim como a fraca ventilação associada (pelo receio de acentuar o desconforto), além dos efeitos imediatos, provocam patologias nos edifícios (condensações, humidades, fungos etc) que ao longo do tempo se vão reflectir na qualidade do ar e consequentemente originar doenças, sobretudo, respiratórias.

Não sendo um tema novo, tanto é que já existe um observatório europeu (www.energypoverty.eu) de onde retirei o gráfico), é um caso de saúde pública e Portugal está em 4º lugar no ranking europeu o que, no mínimo, é vergonhoso. O cenário supra referido ganha força no interior do país, pelo agravamento, geral e estatístico, das condições financeiras associadas à amplitude térmica.

Na generalidade dos casos, e refiro-me à classe média, as pessoas muitas vezes sentem esta dificuldade em aquecer ou arrefecer as casas mas compensam com equipamentos de forma a (tentar) colmatar, no núcleo, um problema que tem origem na cas(c)a. Mas isso, além de abalar o orçamento familiar (refletido na compra dos equipamentos e nas faturas), não é solução (pelo menos sustentável).

Não é por conseguir pagar o combustível que um carro de alta cilindrada a gasolina vai ser económico. O mesmo é aplicável a este tema, isto é, o foco e o entendimento do conceito “pobreza” não deve estar na impossibilidade de pagar os equipamentos e faturas mas na (in)capacidade energética dos edifícios.

Pela nossa saúde e pela sustentabilidade do planeta, todos devemos contribuir para alterar este paradigma.

Artigo de opinião de Manuel Oliveira Martins (Architect at Jorge Gonçalves | President of General Assembly at (Section North) DECO Associação)

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