Alexandra Paio

Protótipos para a Humanidade

Categorias: Arquitetura

Protótipos para a Humanidade – A escassez de recursos e o impacto negativo do ser humano no planeta estão a exigir urgentes respostas inovadoras dos designers através da tecnologia e do empreendedorismo. Tal significa que 95% dos designers do mundo, que concentram todos os seus esforços no desenvolvimento de produtos e serviços exclusivamente para 10% dos clientes, têm de atender à realidade de um público mais vasto assente em produtos com um impacto social e ambiental positivo.

O “Protótipos para a Humanidade” é um exemplo onde foram desafiados estudantes e investigadores das universidades de mais de 100 países, a apresentar ideias que resultam da inteligência coletiva com as comunidades em oito áreas temáticas: Alimentar um planeta de 8 mil milhões; Melhorar a vida dos que sofrem; Proteger o ambiente do impacto humano negativo; Salvar vidas em momentos críticos; O progresso energético e a nossa vida quotidiana; Não deixar ninguém para trás; Juntos para quebrar barreiras sociais; Tornar a aprendizagem acessível a todos.

Os 100 projetos finalistas revelam a necessidade de focar a inovação e a criatividade nos bens comuns como foco central para reimaginar a economia, a política e a cultura global. Um novo paradigma defendido pelo ativista David Bollier, que afirma que “certos recursos têm um valor acima de qualquer preço e devem manter-se à margem das forças do mercado, como a natureza, a inviolabilidade de certos lugares, o valor ecológico da vida silvestre”.

Esta perspetiva tem, também, alterado os processos criativos. O fator comum que os liga é o empenhado nos resultados que respondam cada vez mais às necessidades humanas reais, uma responsabilidade de prever e desenhar os efeitos secundários adversos dos seus projetos.

A poluição por plásticos atingiu um nível de tal forma crítico que chegou o momento de o enfrentar e concretizar soluções de baixo custo para o reverter. Os estudos revelam que 80% do plástico oceânico começa como poluição fluvial. Neste sentido, a barreira fluvial Trashboom criada por Moritz Schulz, cofundador e designer da Plastic Fischer é um meio eficaz recolher o plástico a montante, ou seja, antes de chegar ao oceano. Testada em seis locais diferentes, com 60 funcionários a tempo inteiro para cuidar da gestão de resíduos, já recolheu 340 toneladas de resíduos plásticos na Indonésia e na Índia.

As inundações, como temos tido em Portugal esta semana, são cada vez mais uma realidade e um problema em todo mundo. O designer filipino Aleksander Wieneke, recorre às memorias da sua experiência pessoal por ocasião de um tufão, quando tinha nove anos de idade, para desenhar a Raft-chair, uma cadeira que se transforma num dispositivo de flutuação que é um salva-vidas. Recorrendo às logicas da geometria dos origami, é possível em menos de um minuto ter uma jangada salva-vidas.

Outro exemplo, neste caso para reduzir o desperdício na agricultura através de uma economia circular e da criação de empregos para os jovens desempregados, foi o mote para a transformação dos restos de colheitas de banana, no Burundi, em sacos reutilizáveis. Segundo a Wege é a oportunidade de valorizar e colaborar com muitas cooperativas que cultivam bananas. Eis uma iniciativa que mostra como se pode contribuir para a alteração do paradigma num país em que o sector da agricultura representa 90%. No mesmo sentido, oAkoFresh foi desenvolvido para reduzir os 30-50% dos alimentos que são desperdiçados devido à falta de armazenamento adequado.

O mundo exige novas repostas, e os protótipos apresentados demostram que é possível repensar a estratégia da criatividade de forma a tornar os produtos mais adequados para os outros 90%.

Jornal Económico . Alexandra Paio, Docente do ISCTE-IUL . 

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