Serão as cidades “pós-Covid-19” mais verdes e amigas dos peões?

Categorias: Arquitetura

Serão as cidades “pós-Covid-19” mais verdes e amigas dos peões? |  Carolina Medeiros / FAUP

Espaços mais verdes, mais zonas pedonais e valorização da escala de proximidade nas cidades. Estes são alguns dos aspetos mais valorizados pelos participantes portugueses no inquérito “A Cidade Emergente”, conforme indicam os resultados preliminares desde estudo internacional, coordenado, em Portugal, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP).

Através deste estudo inédito, que envolve 16 universidades em doze países diferentes da Europa e América do Norte e Sul, pretendeu-se aferir o impacto do isolamento social, no contexto da pandemia do novo coronavírus, no nosso modo de olhar para as cidades e para a habitação.

De acordo com os resultados agora conhecidos – e recolhidos através de um inquérito realizado a 1400 portugueses, entre 6 de abril e 5 de maio -, as condições de habitabilidade relativas ao isolamento térmico e acústico e a existência de espaços exteriores – varandas, pátios e jardins privados -, serão critérios fundamentais na escolha de uma futura habitação.

Na verdade, a maioria dos  participantes portugueses valoriza de forma expressiva a orientação solar, o isolamento térmico e acústico, a organização interior, grandes aberturas de relação com espaços exteriores privados (varandas, terraços, pátios, jardins), cuja existência é vincadamente desejada.

Já a possibilidade de viver noutra zona da cidade, noutra cidade ou num ambiente rural/natural é desvalorizada. No entanto, uma maioria expressiva dos inquiridos (90%) gostaria que a cidade fosse mais verde, mais pedonal e funcionasse com lógicas de proximidade. São no entanto poucos os que acreditam que estas mudanças possam efetivamente acontecer.

Observou-se também que, no que se refere à organização interior das habitações, apenas 26% dos participantes indicou que desejava ter uma relação mais aberta entre a sala e a cozinha, uma opção cada vez mais frequente no desenho das habitações, nos anos recentes. Já a experiência do teletrabalho – situação em que se encontravam 68% dos inquiridos –  não parece ter tido um impacto significativo na necessidade sentida pelas pessoas em ter um espaço de trabalho autónomo no interior das casas.

Relativamente à possibilidade de restrições de acesso na cidade, 50% dos participantes discordam. 36% discordam também quanto à existência de mecanismos de controlo social (a maioria dos restantes participantes não têm opinião formulada sobre estas questões).

Do total de participantes, 68% considera que o período atual os está a afetar de forma significativa, 65% demonstra ter medo do que possa acontecer no futuro, 64% considera que deve ponderar algumas opções da vida que levava até à pandemia e 61% valoriza mais a vida que levava antes, no entanto, apenas 17% considera que deve mudar totalmente de vida quando o confinamento termine.

Note-se que, dos cerca de 1400 participantes no estudo, 90% possuem formação superior e 65% são mulheres. A grande maioria vive em cidades, 41% no Porto e 23% em Lisboa. No que se refere às características da habitação, 60% dos participantes vivem em apartamentos localizados em edifícios plurifamiliares e 20% em casas unifamiliares. Note-se que 56% das habitações dispõe de 3 ou 4 quartos. Um universo que não poderá, por isso mesmo, ser generalizado à sociedade portuguesa.

Indicadores para o futuro

De acordo com Filipa Guerreiro, coordenadora do estudo em Portugal e docente e investigadora na FAUP, apesar da maioria das pessoas não valorizar a relocalização da habitação noutra cidade ou noutra zona da cidade, e apenas 25% referirem que valorizariam estar estar num ambiente rural/natural, “não podemos deixar de considerar expectável que o sentido de retorno a uma vida mais próxima da natureza e a um olhar mais atento às questões do espaço da agricultura, tema cíclico no tempo longo da História, e que tem vindo nas primeiras décadas do século XXI a marcar novamente presença, ganhe, no contexto e situação presente, uma nova dimensão”.

A docente entende que não será um êxodo, mas considera que os aspetos que possamos ter aprendido ou entendido como positivos na experiência de confinamento – a capacidade de trabalho e o acesso à informação à distância por via digital, por exemplo – “poderão tornar-se argumentos que viabilizem essa opção de vida”.

Para a docente e investigadora da FAUP, “a qualidade de acesso à internet passará assim a ser cada vez mais um elemento diferenciador nas opções de escolha da localização na habitação no território, e consequentemente deverá assumir um papel estratégico no ordenamento, planeamento e gestão do território”.

Dados internacionais

O inquérito “A Cidade Emergente”, que decorreu nos primeiros quarenta dias de confinamento devido à Covid-19, entre abril e maio, contou com a participação de mais de 12 mil pessoas em nove países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, México, Peru e Portugal.

No primeiro seminário online para debate sobre os resultados preliminares do inquérito “A Cidade Emergente”, realizado no dia 26 de maio, verificou-se que a maioria dos participantes dos nove países esteve em confinamento nas respetivas habitações devido à Covid-19, com a maior parte dos inquiridos em regime de teletrabalho, sendo a maior percentagem registada em Portugal (84%) e a mais baixa no México (72%). É de referir que as medidas de contenção de propagação da Covid-19 variaram de país para país, decorrentes do conjunto de ações implementadas e do tempo de aplicação dessas mesmas medidas.

A proporção de pessoas que considera que as cidades voltarão a ser como antes da pandemia varia em função do país. Os participantes do inquérito do México (48%), Argentina (43%) e Espanha (42%) estão entre aqueles que consideram mais provável o regresso das cidades à normalidade existente até fevereiro. Em Portugal, as respostas a esta questão situam-se nos 40%.

Por outro lado, a perceção de que a cidade mudará depois da crise atual é mais significativa no Peru (49%) e Equador (48%). No caso português, apenas 38% dos inquiridos considera que haverá mudanças nas cidades depois da Covid-19.

Liderado pelo arquiteto Luciano Alfaya e coordenado por uma equipa de docentes da Escuela de Arquitectura Cesuga-Universidad San Jorge da Corunha em aliança com o Grupo de Investigação ‘Vivienda Eficiente y Reciclaje Urbano’ da Universidad de Granada, Espanha, o estudo reúne vários parceiros em diferentes países, entre os quais a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) sob coordenação da arquiteta Filipa Guerreiro.

Para além da FAUP, conta também com a colaboração da KTWH Aachen University (Alemanha), Universidad de La Plata (Argentina), Universidade de São Paulo (Brasil), Universidad de Concepción (Chile), Pontificia Universidad Javeriana de Bogotá (Colômbia), Pontificia Universidad Católica (Equador), University of Virginia (Estados Unidos), University College of Dublín (Irlanda), Tecnológico de Monterrey (México) e Pontificia Universidad Católica (Peru).

Mais informações aqui.

Artigo de opinião de  Carolina Medeiros / FAUP

Foto: © Egidio Santos/U.Porto

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