Singularidade

(Publicado originalmente da Revista Rua 25.)

Conversava recentemente com Sasikala Rajeswaran, jornalista de arquitectura Indiana, que com esta pergunta revelou, sem querer, uma das mais pertinentes fragilidades da cultura arquitectónica corrente:

“Dotar cada novo projecto de novidade e de singularidade é um desígnio dificílimo: como é que o superam?”

É norma encontrarmos, hoje, arquitectura desenhada especificamente com a finalidade de causar espanto e de se apresentar como peça excepcional.

Não é surpreendente: desde as escolas (onde a ideia e a singularidade se sobrepõem frequentemente à eficácia, à execução e à integração) até à mediatização da arquitectura (assente na imagem imediata, no simplismo conceptual e na fabricação de starquitects como figuras heróicas) há a construção de uma cultura arquitectónica superficial, assente na surpresa, nas modas, na arbitrariedade e nos gimmicks.

Infelizmente a obra construída é invariavelmente mais perene do que as modas ou do que a surpresa efémera de um truque arquitectónico. O resultado, quando o edifício esgota esses seus únicos argumentos, é um enorme bibelot que a cidade suportará por décadas a fio.

É, também, uma pobre forma de fazer cidade: como se pode gerar um contínuo urbano, com uma identidade comum e uma imagem reconhecível, se todos os edifícios tentam ser uma excepção?

A boa arquitectura é, provavelmente, menos estridente, desenhada com critérios mais profundos e mais capazes de sobreviver à passagem do tempo.

São precisas mais obras atentas à envolvente e que com ela estabeleçam relações de harmonia, experiências arquitectónicas dedicadas ao uso e a quem usa, estéticas apoiadas em valores permanentes como a ordem, o ritmo, a escala e a proporção, materiais que envelhecem com dignidade e que pertencem ao lugar…

Falamos de arquitectura que -no fundo- aprenda algo do contínuo de construção que chega até aos dias de hoje, cheio de exemplos altamente qualificados, e que não tente reinventar a arte a cada segundo.

Winy Maas, do mítico estúdio holandês MVRDV, publicou recentemente “Copy Paste”, um livro em que defende que a cultura da singularidade está a prejudicar a inovação em arquitectura.

Ao contrário da ciência, que progride desenvolvendo-se sobre conclusões anteriores, a arquitectura tem recusado reconhecer e construir sobre os ensinamentos do passado. “Porque não aprofundar a nossa análise arquitectónica? Porque não sermos abertos e honestos em relação às referências que fazemos? Porque não desenvolver e melhorar as inovações, explorações e sugestões dos nossos predecessores?”, defende. “Hoje treinamos os nossos arquitectos para serem originais […] o que parcialmente é correcto, mas penso que 90 por cento do ambiente construído não é acerca da originalidade.”

Esta obsessão pela singularidade tem destruído a identidade das cidades com um conjunto de construções realmente anti-urbanas, cada uma gritando mais alto do que a outra, abafando ideias melhores e mais sustentáveis a longo prazo.

Será a má originalidade (rematando com uma pergunta de Phineas Harper) realmente melhor do que a reprodução brilhante?

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