Antonio Covas

Tecnologia, arte e território (VI): A metanarrativa do sistema paisagem

Categorias: Território

Tecnologia, arte e território (VI): A metanarrativa do sistema paisagem | António Covas

Na série de textos publicada no Observador sob a designação tecnologia, arte e território é, agora, a vez da metanarrativa do sistema paisagem. A este propósito, devo dizer, em abono da verdade, que estas breves reflexões foram inspiradas pela leitura do livro A filosofia da paisagem de 2011, escrito sob a coordenação da Prof.a Adriana Veríssimo Serrão e editado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.

O que entendemos por metanarrativa do sistema paisagem? Trata-se de uma viagem ou, talvez, peregrinação com duas vias, uma via exterior através da contemplação da paisagem e uma via interior pelos nossos estados de alma e, quase sempre, com passagem por três estações fundamentais. A primeira estação é aquela que nos leva da beleza natural até à beleza artística, se quisermos, através de uma estética da paisagem. A segunda estação é aquela que nos leva da justiça ambiental até à justiça social, se quisermos, através de uma ética da paisagem aferida, por exemplo, pelos dezassete (17) objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU. A terceira estação é aquela que nos leva pelo culto da peregrinação até ao espírito do lugar e ao longo da nossa geografia sentimental em busca da nossa mais íntima paz interior.

Façamos, então, uma breve visita guiada por esta peregrinação de via dupla.

I. A paisagem, uma progressiva separação entre o Homem e a Natureza

Esta progressiva separação vai consumar-se em várias fases, desde logo no alvor da modernidade, depois no século XVIII, finalmente, com o progresso urbano-industrial. Nesta sequência a natureza vai passar por um longo processo de antropomorfização e nessa transformação há cada vez menos paisagens onde ainda reine o mistério e o silêncio da natureza. Ou seja, entre a natureza e a cultura existem muitas variantes de paisagem, a paisagem faz-se e desfaz-se em cada ato contemplativo, ao mesmo tempo que a ciência, a arte e os nossos estados de alma inscrevem mais paisagem na paisagem já existente.

II. A paisagem, terra de sofrimento e lugar de culto

A paisagem é, ao mesmo tempo, a terra comum dos camponeses, terra de sofrimento, de trabalho duro e penoso, a cultura da terra, mas, também, objeto de prazer e lazer por parte dos senhores da terra cuja apreciação do lugar os leva até uma certa associação entre

naturalidade e espiritualidade, ou seja, ao culto e ao espírito do lugar e à paisagem como identidade de um certo lugar.

III. A paisagem, uma temporalidade em três tempos

Estar, sentir, contemplar, pensar, num espaço sem tempo nunca será um ato paisagístico. Desde logo, o seu lado patrimonial e tradicional, a sua face mais romântica e artística que um certo grupo de disciplinas se encarrega de preservar. Depois, a sua faceta mais atual determinada pelo espírito do tempo, mas, sobretudo, pela relação de forças que se estabelece entre a ciência e a tecnologia, por um lado, e a constelação de interesses político-corporativos, por outro. Neste universo do tempo presente intromete-se a inovação e a liberdade criativa que nos levarão até ao tempo do futuro. Património histórico, natural e cultural, ativo territorial de desenvolvimento sustentável, o respeito pela estética e a ética dos atos paisagísticos, formam a nossa temporalidade paisagística.

IV. A paisagem, alterações climáticas e tragédia dos comuns

Somos assaltados pelo sentido de emergência climática e o perigo iminente de uma tragédia dos comuns. As feridas abertas pelas alterações climáticas fazem com que a tecnologia e as artes da paisagem sejam instrumentos primordiais de cura e tratamento ao serviço de uma ecologia de reabilitação e restauração da paisagem. A terra-mãe é só uma e só há uma saúde global que nos afeta a todos. Sem uma ética do cuidado global, como agora se comprova com a covid 19, as alterações climáticas vão não apenas ter um custo e impacto devastadores como nos aproxima perigosamente de uma tragédia dos comuns sem retorno à vista. Neste sentido, podemos dizer que as tecnologias e as artes são um forte motivo de reconciliação e que estão embarcadas no mesmo barco da vida.

V. A paisagem, a linha do horizonte, a beleza e os nossos estados de alma

A natureza sublime e transcendente e dentro dela a linha do horizonte que nos leva da beleza natural à beleza artística e estilística da arte. De cada vez que observamos e contemplamos falamos, em bom rigor, de um ato paisagístico, pois trata-se de fazer convergir o conhecimento, a arte, a nossa geografia sentimental ou estados de alma, mas, também, os acontecimentos e a conjuntura histórica, como agora o caso com o impacto das chamadas grandes transições. A paisagem é, assim, uma confluência de múltiplas perspetivas e outras tantas mediações e, nessa medida, podemos dizer que não sabemos,

verdadeiramente, o resultado final da nossa observação ou contemplação- Entre a linha do horizonte e os nossos estados de alma tudo pode acontecer.

VI. A paisagem, uma ética do desenvolvimento, os 17 ODS da ONU

Nada melhor do que recordar os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas para medir o grau de emergência em que estamos implicados e, portanto, a importância dos bens públicos globais que são necessários. Eis os 17 ODS: erradicação da pobreza (1), fome zero e agricultura sustentável (2), saúde e bem-estar (3), educação de qualidade (4), igualdade de género (5), água potável e saneamento (6), energia limpa e acessível (7), trabalho decente e crescimento (8), indústria, inovação e infraestruturas (9), redução das desigualdades (10), cidades e comunidades sustentáveis (11), consumo e produção responsáveis (12), combate contra a mudança climática (13), vida na água (14), vida na terra (15), paz, justiça e instituições eficazes (16), parcerias e meios de realização (17). Perante estes ODS, não há estética da paisagem ou estados de alma que resistam a tal emergência, ou, então, transformamos a emergência, o perigo iminente e as feridas abertas em motivos novos e fortes de uma outra estética e estilística da paisagem, talvez mais utilitária, mas, seguramente, mais decisiva.

VII. A paisagem, o culto e o espírito do lugar

Sabemos que a paisagem faz parte da identidade plena de um lugar, que ela é sempre local e irrepetível, mas, também, sabemos que nós modelamos as paisagens e que elas nos modelam a nós. No tempo das grandes transições – climáticas, ecológicas, energéticas, demográficas, digitais, laborais, culturais – a ciência, a tecnologia, a arte, a literatura, serão usadas para tentar evitar alguns desses desastres iminentes. É, não apenas, uma mudança paradigmática que está em curso, mas, também, uma memória e uma natureza que estão a desaparecer rapidamente. E quem guarda a memória das coisas desaparecidas, dos lugares e das paisagens contempladas? Onde estão os escritores e os poetas das paisagens literárias, os fotógrafos e os cineastas das imagens e testemunhos históricos, os artistas da vida quotidiana e dos bens do espírito dos lugares? Como é que a arte e a mediação estética dão conta desta memória em vias de desaparecimento?

VIII. A paisagem, um estilo, uma história do gosto, uma pedagogia

Seguindo de perto Alain Roger (p.153), as paisagens têm um estilo tal como as obras de arte, elas evocam estilos artísticos, uma história do gosto. Há modas na pintura e também

há modas na paisagem, o gosto tem intermitências que variam segundo as épocas. A arte é, antes de mais, uma pedagogia da perceção, logo, são os modelos e os esquemas percetivos próprios da arte de cada época que não só criam as paisagens como delimitam as categorias que vão predominando como esteticamente relevantes, a saber, o belo, o pitoresco, o sublime, o feio. Entre a natureza e a cultura, a dupla artialização (Roger, 153), a paisagem é, assim, uma verdadeira obra de arte.

IX. A paisagem, cenário e coreografia, representação de um território

A paisagem é, ao mesmo tempo, geografia, ecologia, inspiração artística, identidade, ação humana, história e cultura, uma grelha de leitura muito compreensiva. Ao ser tudo isto, a paisagem transporta-nos do território vivido até ao território representado, ela é, digamos, uma espécie de nudez original, uma realidade transcendente e universal que gera muito conhecimento e nos permite entender o mundo que nos rodeia. Onde a ciência cria a fragmentação, a paisagem cria o cenário e o palco, no qual os indivíduos e as sociedades recitam as suas próprias histórias (Turri, 169). Esta perspetiva, se quisermos, funcional da paisagem cultural leva-nos a procurar na paisagem os signos, os recursos e os ativos territoriais que fazem a fortuna da ação humana.

X. A paisagem, artefacto humano e projeto de refundação

A paisagem não é apenas património, conservação ou museu, é, também, um projeto, uma refundação dos lugares. Acresce que, no tempo das grandes transições, esta necessidade ou emergência virou um autêntico imperativo categórico. Ora, é neste equilíbrio de valores e interesses que se jogam os limites das atuais teorias da paisagem, pois o valor estético funde-se com os restantes e a razão crítica articula-se com a apreciação estética em direção a uma abordagem e leitura mais normativas da paisagem e da ação humana no atual contexto de grande transformação. É neste sentido, e por causa desta emergência, que dizemos que a paisagem é uma pedagogia crítica muito exigente e não um mero conjunto circunstancial de peças ornamentais em benefício de produtos de consumo turístico.

Notas Finais

Esta é, também, a altura, em face da emergência climática, transição energética, urgência ecológica e transformação digital, de ponderar devidamente os contributos da ciência e tecnologia e das artes e cultura para uma maior normatividade e efetividade das

políticas de ambiente e paisagem. Perante tantas feridas abertas, vamos jogar na defensiva e fazer apenas mitigação e remediação ou vamos mais longe e fazer verdadeira adaptação e transformação, por exemplo, aplicando o conceito de sistema paisagem em toda a sua extensão, tal como sugeria o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles quando se referia à paisagem global e ao plano verde, a uma ecologia mais estrutural e respetiva rede de infraestruturas e corredores ecológicos?

As paisagens tradicionais formaram-se tendo em consideração as características biofísicas do território e a necessidade de obter produtos essenciais às populações, segundo a maneira própria de cada comunidade entender a vida e o mundo. As paisagens tradicionais são, pois, um ato de criação, a marca de um povo, a memória de um país, que hoje se prolongam no plano das artes, da contemplação e da poesia. Porém, com a vertigem do quotidiano, o arco-íris das paisagens tradicionais tornou-se cada vez mais monocromático, um ponto no horizonte igual a tantos outros.

Ora, nesta matéria, a teoria do sistema paisagem diz-nos que o nosso tempo é de muitas procuras e atores emergentes, logo, também, de paisagem global, onde se intercalam e sucedem as diversas paisagens e unidades de paisagem que serão, por isso mesmo, cada vez mais, funcionalmente interdependentes em tudo o que diga respeito ao seu planeamento, gestão e avaliação do território. Uma política de paisagem, nos termos definidos, genericamente, na convenção europeia da paisagem, cria benefícios de contexto para o sistema produtivo local da unidade de paisagem ou unidades de paisagem que estamos a considerar. O que importa averiguar é se aquela unidade e este sistema são compatíveis e convergem para uma região biogeográfica ou, de outro modo, se a maior homogeneidade da unidade de paisagem é compatível com a maior heterogeneidade do sistema produtivo local. No final, a política de paisagem deve, também, procurar promover esta convergência, de tal modo que todos os efeitos externos positivos dessa política se façam sentir sobre a qualidade do sistema produtivo local. A unidade ou unidades de paisagem seria, também, nesta aceção, um território próximo de uma região biogeográfica ou ecorregião. Talvez assim pudéssemos minimizar os danos eventuais do embelezamento paisagístico levado a efeito pela indústria turística. Finalmente, é triste que a consciência ambiental e paisagística aconteça pela via do desastre e do sofrimento e não pela via da informação e do conhecimento.

 

Artigo de António Covas publicado no Observador

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