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Tecnologia, arte e território (VIII): A economia dos recursos criativos e a curadoria do território

Categorias: Território

Tecnologia, arte e território (VIII): A economia dos recursos criativos e a curadoria do território | António Covas

Talvez o leitor não se tenha dado conta, mas nas primeiras duas décadas do século XXI tivemos dois movimentos de fundo na sociedade portuguesa que são dignos de registo por razões diferentes. O primeiro, pelo lado negativo, diz respeito à quase estagnação da economia portuguesa e sua divergência com a média europeia, o segundo, paradoxalmente, refere-se à extraordinária expansão e expressão das iniciativas, espaços e agentes das atividades artísticas, culturais e criativas. A nossa tese é a de que a arte e a cultura, os recursos criativos em geral, dilatam os territórios e que essa dilatação é muito favorecida pela expansão das redes descentralizadas e distribuídas, um dos efeitos primordiais da transição digital em curso.

Na fase atual, as redes centralizadas, propriedade dos grandes conglomerados tecnológicos e das grandes administrações ainda prevalecem e são uma fonte gigantesca de extração de mais-valias e lucros de que os territórios, muitas vezes, não beneficiam. Isto quer dizer que a sociedade da informação e do conhecimento faz o seu caminho em direção à sua própria democratização, ou seja, em direção às redes descentralizadas e distribuídas e, logo, também, a uma maior dilatação dos territórios e seus recursos. Assim será, julgamos nós, com o acesso, mais ou menos generalizado, à constelação das redes 4G+5G e respetiva cooperação entre operadores.

Economia criativa, sinais distintivos e geografia sentimental

Os territórios são construções longas e delicadas que atravessam muitas vicissitudes e contrariedades. O seu capital social é fruto dessa história vivida e é dessa sociabilidade e experiência histórica concretas que emergem e se estruturam os recursos de um território. O universo material e simbólico de uma região contém muitos signos distintivos territoriais, muitos deles ocultos, subestimados ou ignorados. Por exemplo, o mosaico agro-silvo-pastoril e paisagístico do montado, os sítios da rede natura 2000 e as áreas de paisagem protegida, a biodiversidade, os endemismos e os serviços de ecossistema, os cursos, as fontes e as minas de água, as amenidades e os percursos de natureza, as denominações de origem protegida (DOP) e os nichos de mercado, as apelações de património imaterial da UNESCO, o estatuto de reserva da biosfera, os campos e as estações arqueológicas, os monumentos, as vistas panorâmicas, os ofícios e o artesanato, as celebrações e a cultura tradicional, a literatura oral e as paisagens literárias, todos são exemplos de signos distintivos territoriais, SDT que podem contribuir decisivamente para a construção da iconografia de uma região, a sua imagem de marca impressiva territorial.

Os signos distintivos são, portanto, informação bruta acerca de um território e, ao mesmo tempo, ângulos diferentes de abordagem da história de vida desse território. O grande desafio que se segue, é, para lá da nomenclatura estatística (NUTS) ou divisão administrativa, a descoberta e a promoção de uma geografia sentimental desejada, a busca de sentido e significado, que nos devolvam o território como paisagem orgânica global, como território-ser vivo, capaz de inteligência coletiva e, portanto, de uma direção e linha de rumo próprias. É aqui, justamente, que pode emergir o lado mais criativo da economia digital e das artes digitais em geral e o papel transversal da curadoria territorial numa espécie de montagem pós-produção do sistema produtivo local, do seu cabaz de produtos e cadeias de valor. O melhor exemplo deste exercício de montagem é aquele que está em curso com as candidaturas de 12 cidades portuguesas a capital europeia da cultura 2027. Nesta linha, vejamos, então, aquilo que poderia ser um programa de economia criativa e curadoria territorial.

Um programa de economia criativa e curadoria territorial

Com mais recursos à nossa disposição, materiais e imateriais, trata-se, agora, de montar um estaleiro de economia criativa, arquitetura e curadoria territorial em direção a um objetivo mais ambicioso, muito para lá das convencionais indústrias culturais de cariz urbano. Mais cidade no campo e mais campo na cidade é o lema fundamental do que eu costumo designar como o universo da 2ª ruralidade. Estou convencido de que a conexão das redes 4G e 5G impulsionará a convergência entre as grandes transições – climática, energética, ecológica, digital, demográfica – e essa convergência será o grande motor do universo da 2aruralidade, por exemplo, no âmbito do combate às alterações climáticas e na redefinição das relações cidade-campo. Temos, de resto, motivos para estarmos moderadamente otimistas na década que agora começa:

– Temos um país cada vez mais pequeno devido às redes digitais de comunicação, – Temos um país bem servido de boas vias de comunicação e rede logística,
– Temos muitas instituições de ensino superior espalhadas pelo país,
– Temos muitos centros tecnológicos e laboratórios associados no interior do país,
– Temos imensas estruturas municipais e associativas espalhadas pelo país,
– Temos uma grande variedade de microclimas, mosaicos e amenidades paisagísticas, – Temos meios financeiros muito substanciais para a década,
– Temos mais nomadismo digital e mais mobilidade de talento criativo.

Ora, um dos grandes trunfos para esta década é, justamente, o hibridismo do espaço rural, um híbrido de produção, consumo e conservação, que não só alarga os mercados de futuro como a tipologia de agriculturas AAA (agricultura, ambiente, alimentação) e a gama de produtos e serviços oferecida. Os mercados de futuro serão um mix cada vez mais complexo de tecnologia, ecologia e economia com uma oferta conjunta de bens e serviços cada vez mais diversificada. Neste contexto, as comunidades locais inteligentes, apoiadas em plataformas digitais colaborativas, podem acolher muitos projetos, empreendimentos e start ups e oferecer uma gama variada de serviços de rede em diversas áreas, por exemplo:

– Os serviços ligados à agriculturas de precisão e aos modos intensivos de produção,
– Os serviços ligados às agriculturas de nicho, denominações e indicações geográficas, – Os serviços ligados à logística dos circuitos curtos e mercados locais,
– Os serviços ligados à economia circular, bioeconomia e serviços de ecossistemas,
– Os serviços ligados às bioenergias e redes energéticas,
– Os serviços ambulatórios ao domicílio e os programas de envelhecimento ativo,
– Os serviços de reabilitação e restauro do património natural e construído,
– Os serviços de produção de conteúdos para eventos criativos e culturais,
– Os serviços técnicos e tecnológicos ligados aos ambientes inteligentes e gestão SIG.

Bastaria o elenco destes serviços para demonstrar como o nosso conceito de economia criativa é muito abrangente e multidisciplinar. Dito isto, os exemplos que se seguem são algumas configurações de territórios-rede onde a curadoria e a arquitetura de interiores são fundamentais. Em cada caso, é essencial apontar um grupo de missão, um ator-rede, que seja capaz de relevar os sinais territoriais mais distintivos e, a partir deles, construir novos territórios simbólicos e uma nova arquitetura de interiores. Sem eles, e

sem a malha que eles constituem, não haverá uma verdadeira interligação de territórios e, portanto, uma genuína valorização do interior.

1) A construção de um sistema alimentar local (SAL)

A descarbonização, o abastecimento local e a economia circular podem levar uma rede de vilas e cidades, em articulação com uma escola superior agrária, a conceber um sistema alimentar local (SAL), operacionalizando um banco de terras, uma rede de circuitos curtos e a reciclagem de resíduos alimentares e requalificando o sistema de espaços e corredores verdes da estrutura ecológica municipal.

2) A construção de uma denominação de origem protegida (DOP)

Um parque natural, uma amenidade paisagística, podem constituir um excelente exemplo de território-rede e em conjunto com outros atores locais e regionais – o clube de produtores do parque e a associação ambientalista local, as aldeias que integram o parque, a associação de desenvolvimento local e a escola politécnica ou universidade mais próxima – propõem-se modernizar o sistema produtivo do parque, criando, para o efeito, uma agroecologia específica, uma denominação de origem protegida (DOP) e uma nova estratégia de visitação do parque por via de um marketing territorial mais imaginativo.

3) A construção ou requalificação de um mercado ou segmento de nicho

No quadro da sociedade sénior e do turismo de saúde e bem-estar, por exemplo, é possível conceber e criar uma pequena economia de aglomeração de atividades terapêuticas, criativas e culturais junto de um empreendimento turístico ou de uma zona termal, em associação com uma câmara municipal, uma associação de desenvolvimento local e uma escola superior politécnica; em conjunto, propõem-se requalificar vários empreendimentos e aldeamentos e criar um nicho de mercado, por exemplo, um novo espaço de qualidade para o turismo acessível, terapêutico e recreativo.

4) A construção de um complexo agroturístico com campo de férias e aventura

Na área de influência de um lago, de uma albufeira, de uma barragem ou bacia hidrográfica, é possível conceber e criar uma pequena economia de aglomeração de atividades turísticas, recreativas, desportivas e terapêuticas em redor de um complexo agroturístico com campo de férias e aventura que inclui a participação dos visitantes nas práticas agro rurais tradicionais; as aldeias vinhateiras do Alto Douro, por exemplo, mas,

também, as aldeias de xisto ou as aldeias históricas, podem ser exemplos para este tipo de território-rede.

6) A construção de uma marca coletiva para o lançamento de uma gama de produtos

Uma sub-região que foi objeto de investimentos públicos significativos, por exemplo, um regadio coletivo, uma união de cooperativas ou uma associação de agricultores, um clube de produtores ligado a uma rede de distribuição alimentar, podem associar-se tendo em vista desenhar uma estratégia conjunta de modernização agrária e comercial com o objetivo de obter uma marca coletiva que seja representativa daquele território-rede.

7) A construção de um sistema ou mosaico agroflorestal (SAF)

Uma ou mais Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), as associações ou clubes de produtores florestais, as reservas cinegéticas, as áreas de paisagem protegida, as empresas agroflorestais, uma escola superior agrária, as comunidades humanas implicadas, associam-se para constituir um mosaico agro-silvo-pastoril tendo em vista criar uma estratégia de intervenção integrada, desde a prevenção e recuperação de áreas ardidas à construção dos sistemas agro-silvo-pastoris com o seu cabaz completo de produtos.

8) Criação ou reforço de um centro de ecologia funcional e arquitetura paisagística

Um centro de investigação na área da ecologia e reabilitação de ecossistemas, um parque ou reserva natural, uma associação agroflorestal, empresas de turismo e termalismo, um jardim botânico, propõem-se criar um programa de investigação-ação tendo em vista a preservação da biodiversidade e dos endemismos locais, a melhoria da oferta de serviços de ecossistema relevantes e a valorização comercial destes ativos por via do lançamento de serviços turísticos, culturais e científicos.

9) A construção de um parque biológico e ambiental em zona de montanha

As associações de desenvolvimento local em cooperação com uma universidade ou escola politécnica, uma escola profissional agrícola, um parque ou reserva natural e um conjunto de aldeias serranas, os operadores de turismo de natureza e aldeia, propõem-se criar uma espécie de santuário, amenidade ou ecossistema exemplar que seja um local de visitação e recreio mas, também, de aprendizagem das técnicas de ecologia da paisagem e reabilitação de habitats; para além disso, propõem-se lançar um programa de desenvolvimento comunitário de aldeias serranas e de montanha, bem como criar um cabaz de produtos do parque que seja a sua imagem de marca.

10) Um Parque Agrícola Intermunicipal com objetivos de inclusão social

No campo da ação social, um projeto intermunicipal, associativo ou comunitário, que junte, por exemplo, as instituições particulares de solidariedade social (IPSS), o instituto de emprego e formação profissional (IEFP), uma escola profissional agrária ou escola superior agrária, tendo em vista a reinserção social em sentido amplo, a formação profissional e a realização de contratos para abastecimento de escolas, prisões, hospitais, quartéis, lares; no campo da ação pedagógica, recreativa e terapêutica, o parque pode funcionar como uma quinta pedagógica e terapêutica dirigido aos grupos mais vulneráveis da população com necessidades especiais, que junte as IPSS, os serviços hospitalares, a universidade, as ordens profissionais e os centros de investigação, tendo em vista a provisão de serviços médicos, pedagógicos, recreativos e terapêuticos.

Notas Finais

O que nos dizem todos estes exemplos que nos introduzem ao grande universo da 2ª ruralidade? Que é complexa a tarefa de montar uma plataforma digital de uma comunidade online, mas que é, porventura, muito mais difícil alimentar a força dos laços fracos de uma comunidade offline. Com efeito, em todos os casos, a construção social de uma rede de colaborações, de uma estrutura de missão, de um ator-rede, é uma tarefa que requer um grande empenhamento e muita criatividade de todos os atores que estão no terreno. Ora, a ideia-base da economia dos recursos criativos precisa tanto de inteligência racional como de inteligência emocional, seja para subir na cadeia de valor da programação territorial, seja para buscar uma certa geografia sentimental baseada nos sinais distintivos territoriais mais inspiradores. E para estas duas condições estarem preenchidas as interligações dos territórios-rede só serão bem-sucedidas se forem respeitados certos requisitos:

– Em primeiro lugar, é necessário existir um pivot regional que tenha centralidade e racionalidade suficientes, de tal modo que o foco da política seja colocado no regime de coordenação e desenvolvimento que liga o programa operacional regional (POR) das CCDR ao programa de desenvolvimento rural (PDR) das DRA (direções regionais de agricultura), intensificando e melhorando a sua conexão sub-regional e regional.

– Em segundo lugar, deve discutir-se se o nível NUTS III/CIM (sub-regiões e comunidades intermunicipais) é um nível de pertinência adequado para a gestão integrada dos instrumentos de política do território, em particular, a sua articulação com as

estratégias de desenvolvimento dos Grupos de Ação Local (GAL) e os seus programas de desenvolvimento local de base comunitária (DLBC).

– Finalmente, a inovação territorial não pode ser reduzida à informática das plataformas; é necessária uma outra cultura de ordenamento com relevo para as redes de vilas e cidades, em formatos socioinstitucionais inovadores e criativos como é o caso da curadoria dos territórios-rede que aqui já referimos.

A terminar, estou convencido de que a conexão das redes 4G e 5G impulsionará a convergência entre as grandes transições já referidas e essa convergência será o grande motor do universo da 2ª ruralidade. Se esta convergência for devidamente patrocinada, em especial o apoio ao nomadismo digital e ao talento criativo, poderemos estar na iminência de uma explosão de start-up em espaço rural, embora nada garanta que elas não apareçam em ordem dispersa e com um impacto reduzido numa primeira fase. Daí, a relevância da curadoria territorial para estabelecer um networking positivo entre os diversos territórios- rede. No entretanto, se tudo correr bem, se as comunidades locais criarem os seus atores- rede e respetivas curadorias, poderemos ter uma sociedade colaborativa muito promissora onde o capital social será tão ou mais decisivo que o capital financeiro. Pensemos, por um momento, na sub-região do Alto Minho. É impossível não associar esta antiga província à amenidade turístico-paisagística de um rio transfronteiriço, à Bienal de Artes de Cerveira, ao património dos solares desta sub-região, à beleza dos seus jardins românticos e aos terroirs do vinho verde, com uma especial menção ao terroir do vinho alvarinho e seus lugares de culto. É um bom exemplo de como a associação entre a arte pública, as artes da paisagem e as artes digitais pode ser uma fonte de enorme inspiração para a economia criativa e os arranjos produtivos do território. Como, de resto, se comprova no concelho de Guimarães após ser capital europeia da cultura 2012.

Artigo de António Covas publicado no Observador

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