Antonio Covas

Tecnologia, arte e território (X): Em nome de uma hermenêutica dos lugares

Categorias: Arquitetura

Tecnologia, arte e território (X): Em nome de uma hermenêutica dos lugares  | António Covas

Os lugares são os rostos do nosso habitar sobre a terra. Eles são também palimpsestos, uma delicada e complexa estratificação de rastos, sinais, subversões, de remodelações e destruições, humanas e naturais, nunca são aqueles territórios anódinos que imaginam os projetistas e especuladores. (Luísa Bonesio, p.472, em Filosofia da Paisagem)

No tempo que vivemos, em plena era digital, a mobilidade, a virtualidade e a topoligamia são um apelo constante. Por isso, os locais e os lugares diversificam-se e multiplicam-se. São os locais de residência (2ª e 3ª residências), os locais de trabalho (presencial, teletrabalho, espaços de coworking), os lugares de recreio, lazer e visitação, os locais de compras e consumo, os locais do espaço público, os locais para as práticas físicas e desportivas, os lugares de culto e peregrinação, os locais de manifestação artística e cultural, os lugares de realidade aumentada, virtual e imersiva, os lugares e as plataformas de ensino e formação etc.

Como é evidente, a maioria destes locais e lugares faz parte das nossas rotinas do quotidiano, não são uma revelação do espírito e do génio do lugar, embora muitos deles façam parte das micro liberdades do quotidiano e dos pequenos nadas gratificantes que a vida tem. Em nome de uma hermenêutica dos lugares, começa aqui a nossa breve viagem.

Uma introdução à hermenêutica dos lugares

Signos distintivos e marcas impressivas de lugares e territórios

No quadro 1 (ver em baixo) que apresentamos, os signos distintivos e as referem são outras tantas manifestações e condições do espírito e do génio dos lugares e marcas impressivas que se funcionam como uma espécie de introdução a uma hermenêutica dos lugares tal como eles são referenciados hoje na terceira década do século XXI. Comecemos com alguns traços desta hermenêutica dos lugares:

– A mobilidade acelerada, a virtualidade aumentada e a topoligamia crescente são as características dominantes do nosso tempo; as comunidades online e suas plataformas são os novos lugares centrais da era digital,

– Vamos assistir, doravante, a uma dialética intensa entre espaços de fluxos e espaços de lugares; nesta dialética intensa emergem as grandes urbes verticais que misturam a velocidade e a vertigem com momentos prolongados de tédio, melancolia e depressão,

– Estamos numa fase crescente de nomadismo digital, em direção a formas híbridas de relação laboral e, cada vez mais, em regime de topoligamia e trabalho temporário; estas tendências conduzem-nos até à cidade líquida onde tudo é transitório, passageiro e efémero, isto é, liquefeito,

– Nesta sociedade vertiginosa emergem as artes de rua, as artes digitais, as artes da paisagem e as artes em geral, mas, também, uma nova relação cidade-campo, uma 2a ruralidade, que procuram, em conjunto, lutar diariamente contra esta melancolia vertical das grandes urbes metropolitanas,

– Neste contexto, que poderíamos designar de duplo movimento, o espírito dos lugares já não se obtém da sua substância, mas da sua itinerância, ou seja, o indivíduo é constantemente convocado para participar em uma série de eventos realizados em não- lugares, em terceiros lugares e em hiper-lugares, talvez mais produzidos do que herdados,

– Assim, neste duplo movimento, caminhamos para uma espécie de paradoxo ou hibridismo do quotidiano, algures entre a rotina e a melancolia do dia a dia e a liberdade e reinvenção do quotidiano através das suas micro liberdades e dos pequenos nadas preciosos que a vida tem, transpostos, muitos deles, para o campo das artes e da cultura,

– Um fator de esperança que se assinala, é que, neste quadro de duplo movimento, em busca do nosso equilíbrio pessoal e da nossa melhor geografia sentimental, vamos descobrir a força dos laços fracos por intermédio das nossas vivências e relações nas comunidades virtuais e essa descoberta será, por vezes, uma verdadeira e gratificante revelação.

Em síntese, este paradoxo ou hibridismo do quotidiano, que aqui designamos por duplo movimento, é, mesmo, o traço mais marcante e impressivo do nosso tempo. Mas não há qualquer dúvida, nós vamos descobrir rapidamente a força dos laços fracos (Granovetter, 1973) nas comunidades online e a partir deles, com a ajuda da tecnologia, arte e cultura, reinventar os velhos lugares e as novas vivências do quotidiano.

A cidade inteligente e os novos lugares do quotidiano

É certo, a modernidade e a globalização fizeram dissipar o espírito dos lugares, em alguns casos desapareceu a sua singularidade e muitos lugares perderam o seu encantamento. Não desejamos, porém, que a cidade inteligente e criativa seja um não- lugar e o cidadão um simples individuo digitalizado. A reinvenção dos lugares do quotidiano é, para a nossa saúde mental, um verdadeiro imperativo categórico. Façamos, então, uma brevíssima incursão aos novos lugares e suas referências na literatura.

Os não-lugares (Augé, 1992) são espaços de muita gente e de ninguém, espaços de muita circulação e de muito anonimato também; estamos a falar de aeroportos, estações, grandes avenidas, praças públicas, centros comerciais, parques de estacionamento, mas, também, de grandes cadeias de hotéis ou, mesmo, como hoje é visível, de grandes campos de refugiados; no fundo, estamos a falar de espaços de circulação e trânsito onde domina o avião, o automóvel, o comboio, o navio ou o autocarro. Marc Augé fala-nos de uma antropologia da sobremodernidade a caminho de uma antropologia da solidão, onde somos todos iguais, cópias uns dos outros, indivíduos solitários.

Os hiper-lugares (Lussault, 2017), onde Augé via um não-lugar de solidão, Lussault vê agora um lugar intenso, hiperconectado, multiescalar e emocionalmente muito rico; além do mais, os hiper-lugares também podem ser outros-lugares e lugares alternativos, isto é, lugares de manifestação e protesto, lugares aleatórios como praças, parques e vias públicas; nessa imensa pluralidade de lugares cabem movimentos como o slow food e o decrescimento económicos; finalmente, Lussault destaca a importância das comunidades online para iniciar e enraizar novos movimentos e comunidades offline.

Os terceiro-lugares (Oldenburg, 1989), o livro de Ray Oldenburg, The great good places, é acerca de uma sociologia urbana do quotidiano, de uma química própria dos lugares da nossa rotina quotidiana, do barbeiro à livraria, do café à loja de bairro, do bar ao restaurante da vizinhança; entre os lugares do trabalho e da residência, os terceiro-lugares são os lugares da descontração, da hospitalidade e da cultura de uma sociabilidade saudável, os lugares perfeitos para o exercício das micro liberdades do nosso quotidiano.

Os espaços de coworking (De Koven, 1999), com os espaços de coworking a cidade transporta-nos dos lugares familiares para os espaços colaborativos da sociedade tecnológica e digital do século XXI; falamos de estúdios, ateliers, hubs, fábricas, parques, academias, escritórios partilhados, utilizados por microempresas, empreendedores individuais, profissionais liberais, trabalhadores independentes e nómadas digitais; a utilização de espaços comuns faz baixar os custos fixos do imobiliário, aumenta a conexão entre todos e faz germinar um espírito criativo e oportunidades empresariais.

A arte do lugar (Schultz, 1997), nas palavras de Christian Schultz, o espírito do lugar passará a ser a arte do lugar, uma arte que o marketing cultural e turístico aproveitará para segmentar, diferenciar e explorar comercialmente; de facto, as metrópoles e as grandes cidades procuram afanosamente na arquitetura, nas grandes obras de arte e na ecologia urbana uma fonte para o mistério e o espírito dos lugares, contra o tédio e a melancolia das grandes urbes verticais.

Nesta brevíssima incursão o espírito do lugar foi tomando forma e matéria e passou a designar a identidade, o carácter e a atmosfera de um lugar onde a arquitetura, a monumentalidade e a paisagem passaram a ter o papel principal. Nas palavras do arquiteto Christian Schultz, o espírito do lugar passará a ser a arte do lugar (Schultz,1997), uma arte que o marketing cultural e turístico irá aproveitar para diferenciar e explorar comercialmente. Doravante, as metrópoles e as grandes cidades procuram na arquitetura, nas grandes obras de arte e na ecologia urbana uma fonte para o mistério e o espírito dos lugares, contra o tédio e a melancolia das grandes urbes verticais.

Esta é a razão pela qual o espírito do lugar nos remete para a reinvenção do quotidiano como uma necessidade urgente da saúde pública das grandes cidades. E é aqui que uma certa conceção de cidade inteligente, entendida como uma máquina digital absorvente, uma cidade essencialmente codificada, pode colidir com a liberdade, a irreverência e a criatividade da comunidade humana que a habita. É tempo, pois, de continuarmos a nossa viagem até à cidade criativa e de buscarmos, mais uma vez, na obra de GRT a inspiração para a liberdade e reinvenção do quotidiano.

O génio e o espírito dos lugares, a cidade orgânica e os jardins do paraíso

Há muito trabalho a fazer para que a cidade inteligente do futuro seja uma genuína cidade inteligente e criativa e não uma simples máquina digital ao serviço de uma certa ideia tecnocrática e ultramoderna de cidade. Neste sentido, há dois temas fundamentais, intimamente associados, que importa enfatizar: por um lado, sublinhar a distinção paisagística, os espaços verdes e a visão orgânica de cidade, por outro lado, relevar os recursos imateriais da memória, do imaginário e da cultura no planeamento e ordenamento da cidade. E para o ilustrar vamos voltar, mais uma vez, ao arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles (GRT).

Acerca da visão e recomposição orgânica de cidade diz-nos GRT em termos muito sintéticos:

– A cidade não é um puzzle de unidades territoriais desenhadas pela forma como a estrutura viária se relaciona com o tipo de edificação, isto é, a cidade não é um conjunto zonado de áreas independentes, só identificáveis pelo modo como o automóvel se relaciona com os blocos residenciais;

– As estruturas não-identificáveis e os vazios urbanos não garantem, só por si, a constituição de uma estrutura verde útil e eficaz, ou seja, os espaços verdes não podem ser espaços residuais, mas espaços substanciais que organizam o espaço, o que significa que a cidade deve ultrapassar o convencionalismo inadequado da composição vegetal que hoje envolve, por exemplo, o tratamento ajardinado em rotundas e faixas de separação;

– A imagem da cidade deve ser defendida através de um sistema cartografado de vistas que determine a dimensão dos edifícios, a distribuição e forma da vegetação e o enquadramento das infraestruturas e, além disso, no planeamento da cidade do século XXI, é fundamental considerar unidades operativas de conteúdo ecológico com autonomia de planeamento, sempre que necessário, sem as quais estará em causa a sustentabilidade biofísica, a qualidade ambiental e o abastecimento alimentar;

– Neste sistema compreensivo e orgânico de vasos comunicantes, o plano verde é um instrumento essencial na conceção dos espaços exteriores da cidade cuja autonomia do desenho é exigida pela retaguarda biofísica e cultural que lhe é própria e pela prática das artes que desde há muito servem a construção da paisagem viva.

E acerca dos jardins do paraíso, que são folhas de poesia da natureza, um passeio romântico através de uma paisagem de inspiração estético-literária, diz-nos o arquiteto GRT também muito sinteticamente:
– Em primeiro lugar, aposte na sublimação do lugar tornando-o ameno e feliz.
– Em segundo lugar, invista na presença da água, na sua serenidade estética que confere um movimento ritmado e uma dinâmica musical ao jardim.
– Em terceiro lugar, invista em espécies que sublinhem a pujança da natureza e a sua diversidade biológica e que enaltecem o ritmo da vida.
– Em quarto lugar, tire partido da luminosidade natural dos espaços, o esplendor da luz é conseguido através do contraste sombra-claridade e da harmonia das cores.
– Em quinto lugar, deixe-se influenciar pela geometria e a profundidade das perspetivas, o recorte dos sucessivos planos valoriza distâncias e formas.
– Em sexto lugar, promova a integração do jardim na paisagem envolvente sempre que esta seja ordenada e bela.
– Em sétimo lugar, aceite a ordem natural como base da conceção do jardim, ou seja, deixe-se inspirar pela ordem da natureza.
– Em oitavo lugar, valorize os aspetos culturais da paisagem, pois a ordem cultural é a ordem da humanidade.
– Em nono lugar, evite os excessos e exalte a simplicidade no ordenamento das coisas, não faça decoração pela decoração, ou seja, decorativismo.
– Em decimo lugar, um jardim e uma paisagem são fruto de conceções e projetos e nunca de arranjos ou decorações, pelo que a sua grandeza e beleza decorre do que lhes é essencial na medida certa.

A eloquência e a elegância destes princípios falam por si. Percebe-se agora melhor a razão pela qual os conceitos de paisagem global e unidade de paisagem presidem à sua conceção do ordenamento do território e dos sistemas de produção. Ou seja, com GRT o fator ecológico, o fator produção e o fator cultura não estão compartimentados em silos administrativos e reclamam, por isso, uma outra conceção da política administrativa e da administração da política. Tão simples como isso.

Notas Finais

Aqui chegados, é altura de voltar ao quadro inicial dos signos distintivos e das marcas impressivas. Houve um tempo do espírito, do culto e da peregrinação dos lugares. Muitos deles ainda mantêm todo o seu esplendor. Hoje, na terceira década do século XXI, talvez seja mais avisado falar de lugares de distinção. Os sinais distintivos territoriais são a imagem de marca de um território. Um desses sinais é a distinção paisagística e patrimonial. Num tempo de turismo total não é apenas a gentrificação das vilas e cidades que nos deve preocupar, é, também, a ludificação excessiva e, sobretudo, o critério e o modo como dispomos e usamos recursos escassos como a água, o solo e a vegetação, no fundo a paisagem global que nos acolhe.

Um outro sinal distintivo diz respeito ao modo como a arte e a cultura concebem e praticam a cidade inteligente e criativa para lá da cidade meramente digital, uma vez que não existe determinismo tecnológico, nem há um admirável mundo novo colado à cidade digital

Um terceiro sinal distintivo diz respeito ao governo da cidade, uma administração articulada entre democracia representativa, democracia participativa e democracia colaborativa, com a formação de duas cidades inteligentes e complementares, a cidade centralizada sob a modalidade de loja do cidadão e a cidade coproduzida sob a forma de uma rede descentralizada e distribuída de plataformas colaborativas.

Um último sinal distintivo e impressivo que não pode ser subestimado diz respeito ao respeito dos limites e das linhas vermelhas em matéria de cidadania, convivialidade e direitos humanos, pois receamos bem que a hipervelocidade, a hipervigilância, o hiperconsumo e o hiperindividualismo acabem por colidir, tarde ou cedo, com a cidade das relações, dos espaços públicos e pontos de encontro onde a alegria dos vizinhos e dos visitantes se manifesta, em contraponto com a dissolução dos lugares nos espaços mediático e virtual.

Não simplifiquemos, pois. Talvez seja o tempo de voltar ao unitarismo de outros tempos, regressando à política e às causas públicas, reabilitando o discurso ideológico sobre a ocupação do nosso território antes que o tenhamos de recuperar num qualquer leilão de ocasião aqui ou no estrangeiro.

Quadro elaborado pelo autor.

Artigo de António Covas publicado no Observador

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