Utopia: Susana Barros e Ricardo Cruz | Abordagem livre e consciente

Sediada na cidade do Porto, a Utopia nasceu em 2007 pela vontade dos arquitetos Susana Barros (S) e Ricardo Cruz (R), ambos com um curriculum recheado de colaborações com prestigiados arquitetos. A vontade de encetar “novas abordagens de projeto para responder às necessidades do nosso tempo, aos problemas ambientais e aos territórios atuais”, aliada a uma “filosofia de liberdade de conceção e preocupação em responder a uma sociedade diferente e ecologicamente consciente” (Susana Barros), está na génese do atelier.

Porquê o nome “Utopia”?
R: “U” é o prefixo de negação e “topo” significa lugar: é a negação do lugar. Thomas Moore no seu livro atribui o nome “Utopia” à ilha perfeita: o lugar do pensamento, o lugar da liberdade. Utopia pareceu-nos perfeito para quem projeta. O arquiteto procura criar a realidade perfeita. Nunca consegue, mas tem de a procurar.

O que fez unir em sociedade um portuense e uma lisboeta?
S: Eu julgo que é precisamente a abordagem ao projeto livre de constrangimentos e ambientalmente consciente. Por outro lado, Portugal é muito homogéneo nas suas divisões e hierarquias. Viajo pelo país e o que vejo são as mesmas aspirações, os mesmos desejos, as mesmas fobias, os mesmos fantasmas e os mesmos personagens com diferentes atores.

Já ambos colaboraram com arquitetos de renome. Que balanço fazem dessas experiências?
S: Colaborar com alguém de qualidade é sempre útil porque a formação académica é desfasada do contexto profissional. A prática está dependente das leis, dos instrumentos, das tecnologias. É transitória, mas é importante no ato de projeto. Colaborar permite aprender o lado técnico e aceder a projetos de grande escala no início de carreira.
R: A experiência de trabalhar com Souto Moura e com Siza Vieira nos projetos conjuntos destes foi importante porque têm obras extraordinárias. E há razões para a qualidade das obras: o método, o esforço, o processo, a crítica, a reflexão. Perceber o porquê foi muito importante.

Que tipo de serviços oferece a Utopia?
R: Arquitetura. Hoje em dia para termos arquitetura de qualidade temos forçosamente de incluir todas as especialidades. Isso passa por utilizar inicialmente um processo de conceção que vai desde o esquiço, passa pelo desenho com software BIM, maquetes e impressões 3d, inclui a coordenação das especialidades e consequente integração num projeto de execução, onde se detalha tudo. O acompanhamento de obra é também fundamental.

“Julgo que o sonho seria solicitarem-nos o desenho de um parque urbano”

Há algum projeto que tenha sido particularmente desafiante?
S: Projetos Públicos ou projetos para as multinacionais são sempre desafiantes. Mesmo que haja um coordenador, se tiverem cem funcionários, nós passamos a ter cem clientes. Esforçamo-nos sempre por deixar todos os clientes satisfeitos.

A vossa assinatura já atravessou fronteiras. Em que países já desenvolveram projetos?
R: Espanha é física e culturalmente mais próxima e até estou aí colegiado. Mas já trabalhamos para França, Brasil, Angola, Argélia. O desafio de projetar é igual: há leis a respeitar, culturas a interpretar, processos construtivos a usar, orçamentos a cumprir.

Em que medida a sustentabilidade é uma preocupação?
S: É todo um modo de trabalho. Para tomarmos as melhores decisões temos de conhecer o gasto energético em obra e perceber as consequências das nossas opções. O nosso desígnio é projetar para a eficiência térmica, para a climatização passiva. Verificamos que reintroduzimos processos que estão patentes na arquitetura popular portuguesa. Logo sustentabilidade, economia e cultura acabam por se fundir e adquirir os mesmos significados.

Qual seria o projeto de sonho para o vosso atelier?
R: O tema eterno para qualquer arquiteto é a cidade. O Aldo Rossi ensinou-nos que podíamos desenhar a casa na cidade e a cidade na casa. Gosto de trabalhar a escala urbana em Portugal. Julgo que o sonho seria solicitarem-nos o desenho de um parque urbano ligando toda uma estrutura de mobilidade sustentável a pontos estratégicos da cidade. Custos baixos de intervenção proporcionam retornos económicos e sociais elevados, colocando o projeto como exemplo.

 

Entrevista realizado por Maria Pires publicada no site TRENDS a 18 de setembro de 2019

Fotografias © DR

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