Balkrishna Doshi vence o Prémio Pritzker 2018

Categorias: Arquitetura

O júri do Prémio Pritzker de Arquitetura deste ano escolheu o arquiteto indiano Balkrishna Doshi, conhecido como B.V. Doshi ou Doshi, como vencedor do Prémio Pritzker 2018.

Estudante e colaborador de Le Corbusier e Louis Kahn e em atividade há mais de 70 anos, a arquitetura poética de Doshi baseia-se em influências das culturas orientais, resultando em uma obra que “tocou vidas de todas as classes socioeconómicas em um amplo espectro de programas desde a década de 1950 “, disse o júri.

Doshi é o primeiro arquiteto indiano a receber a maior honra da arquitetura.

O júri nomeia o arquiteto indiano Balkrishna Doshi porque tem continuamente apresentado na sua obra os objetivos do Prémio Pritzker de Arquitetura no mais alto grau. Tem praticado a arte da arquitetura, mostrando contribuições substanciais para a humanidade, há mais de 60 anos. Ao conceder-lhe a medalha deste ano, o júri do Prémio Pritzker reconhece que a sua arquitetura é excepcional, refletida em mais de uma centena de edifícios que realizou, o seu compromisso e sua dedicação ao país e às comunidades que serviu, a sua influência como professor e o excelente exemplo que estabeleceu para profissionais e estudantes de todo o mundo ao longo de sua longa carreira.

Doshi, como é chamado por todos os que o conhecem, trabalhou com dois mestres do século XX – Le Corbusier e Louis Kahn. Sem dúvida, os primeiros trabalhos de Doshi foram influenciados por esses arquitetos, como pode ser visto nas formas sólidas de concreto que empregou em alguns de seus projetos. No entanto, Doshi elevou a linguagem de seus edifícios para além desses modelos iniciais. Com uma compreensão e apreciação das profundas tradições da arquitetura indiana, uniu pré-fabricação e técnicas locais e desenvolveu um vocabulário em harmonia com a história, cultura, tradições locais e as mudanças pelas quais seu país de origem, a Índia, passava.

Ao longo dos anos, Balkrishna Doshi sempre criou uma arquitetura sóbria, jamais extravagante ou em busca de tendências. Com um profundo senso de responsabilidade e um desejo de contribuir com seu país e seu povo através de uma arquitetura autêntica de alta qualidade, realizou projetos para administrações e serviços públicos, instituições educacionais e culturais e residências para clientes particulares, entre outros.

Realizou o seu primeiro projeto para habitação de baixa renda na década de 1950. Em 1954, declarou: “Parece que eu deveria fazer um juramento e lembrá-lo por toda a minha vida: proporcionar à classe mais baixa habitações adequadas.” Ele cumpriu esse juramento pessoal em projetos como a Habitação de Baixa Renda Aranyaem Indore, de 1989, no centro-oeste da Índia, e a Habitação Cooperativa de Renda Média em Ahmedabad, de 1982, e muitos outros. A habitação como abrigo é apenas um aspeto desses projetos. Todo o planeamento da comunidade, a escala, a criação de espaços públicos, semi-públicos e privados são testemunhos de sua compreensão de como as cidades funcionam e da importância do projeto urbano.

Doshi é extremamente consciente do contexto em que seus edifícios estão inseridos. As suas soluções levam em consideração aspetos sociais, ambientais e económicos e, portanto, a sua arquitetura está totalmente comprometida com a sustentabilidade.

Usando pátios, jardins e passagens cobertas, como no caso da Escola de Arquitetura (1966, agora parte do CEPT), da Sede da Companhia de Eletricidade de Madhya Pradesh em Jabalpur (1979), ou do Instituto Indiano de Gestão em Bangalore (1992), Doshi criou espaços para proteger do sol, desfrutar a brisa e oferecer conforto e prazer dentro e em torno dos edifícios.

No estúdio do arquiteto, chamado Sangath (Ahmedabad, Índia, 1980), podemos ver as qualidades notáveis da abordagem e compreensão da arquitetura de Balkrishna Doshi. A palavra Sangath significa, em sânscrito, acompanhar ou mover-se. Como adjetivo, incorpora aquilo que é apropriado ou relevante. As estruturas são semi-subterrâneas e totalmente integradas às características naturais do terreno. Há um fluxo natural de terraços, espelhos d’água, barreiras e abóbadas que são elementos formais distintos. Há variedade e riqueza nos espaços internos, que possuem diferentes qualidades de luz, diferentes formas, bem como diferentes usos, ao passo que são unidos através do uso do concreto. Doshi criou um equilíbrio e uma paz entre todos os componentes – materiais e imateriais – que resultam em um todo que é muito mais do que a soma das partes.

Balkrishna Doshi demonstra constantemente que toda a boa arquitetura e planeamento urbano não devem apenas unir o propósito e a estrutura, mas devem levar em consideração o clima, o terreno, a técnica e as práticas tradicionais, além de uma profunda compreensão e apreciação do contexto no sentido mais amplo. Os projetos devem ir além do funcional para se conectarem com o espírito humano através de fundamentos poéticos e filosóficos. Por suas numerosas contribuições como arquiteto, planeador urbano e professor, pelo seu inabalável exemplo de integridade e incansáveis contribuições para a Índia e além, o júri do Prémio Pritzker de Arquitetura nomeia Balkrishna Doshi vencedor do Prémio Pritzker 2018.

Doshi citou “As minhas obras são uma extensão da minha vida, filosofia e sonhos tentando criar o tesouro do espírito arquitetónico. Eu devo esse prémio de prestígio ao meu guru, Le Corbusier. Os seus ensinamentos me levaram a questionar a identidade e me obrigaram a descobrir uma nova expressão contemporânea regionalmente aceitável para um habitat holístico sustentável.”

A arquitetura portuguesa também já foi por duas vezes reconhecida com o Prémio Pritzker, um prémio foi atribuído, em 1992, a Álvaro Siza Vieira e, em 2011, a Eduardo Souto de Moura.

Todos os vencedores do Prémio Pritzker de Arquitetura
2017 – Rafael Aranda, Carme Pigmen & Ramon Vilalta
2016 – Alejandro Aravena
2015 – Frei Otto
2014 – Shigeru Ban
2013 – Toyo Ito
2012 – Wang Shu
2011 – Eduardo Souto de Moura
2010 – Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa
2009 – Peter Zumthor
2008 – Jean Nouvel
2007 – Richard Rogers
2006 – Paulo Mendes da Rocha
2005 – Thom Mayne
2004 – Zaha Hadid
2003 – Jorn Utzon
2002 – Glenn Murcutt
2001 – Jacques Herzog e Pierre Meuron
2000 – Rem Koolhass
1999 – Norman Foster
1998 – Renzo Piano
1997 – Sverre Fehn
1996 – Rafael Moneo
1995 – Tadao Ando
1994 – Christian de Portzamparc
1993 – Fymihiko Maki
1992 – Álvaro Siza
1991 – Robert Venturi
1990 – Aldo Rossi
1989 – Frank Gehry
1988 – Gordon Bunshaft
1987 – Oscar Niemeyer
1987 – Kenzo Tange
1986 – Gottfried Böhm
1985 – Hans Hollein
1984 – Richard Meier
1983 – I. M. Pei
1982 – Kevin Roche
1981 – James Stirling
1980 – Luis Barragán
1979 – Philip Johnson

Sobre Balkrishna Doshi
Nascido em Pune, na Índia, em 1927, Doshi iniciou seus estudos de arquitetura no ano da independência de seu país, 1947. Depois de um período em Londres, mudou-se para a França para trabalhar com Le Corbusier e, porteriormente, voltou para a Índia para supervisionar o trabalho de Le Corbusier em Chandigarh e Ahmedabad, como o Edifício da Associação de Proprietários de Moinhos (1954) e a Casa Shodhan (1956). Doshi também trabalhou com Louis Kahn no Instituto Indiano de Gestão em Ahmedabad, que teve início em 1962.

Desde a fundação de seu escritório Vastushilpa (agora conhecida como Vastushilpa Consultants) em 1956, Doshi combinou as lições aprendidas com os dois mestres modernos com uma sensibilidade local. Sua forma caracteristicamente indiana de regionalismo crítico sintetiza as formas esculturais de concreto e tijolo de seus mentores com ideias arquitetônicas e morfologias urbanas reconhecidamente indianas. Uma das manifestações mais claras deste estilo talvez seja seu próprio estúdio, conhecido como Sangath, onde abóbadas de concreto são combinadas com jardins, espaços coletivos e elementos aquáticos para reduzir a sensação de calor. Em 1978, a Doshi fundou a Fundação Vastushilpa para Estudos e Pesquisa em Projeto Ambiental para desenvolver abordagens de planejamento e projeto adequadas ao contexto cultural indiano; hoje, a fundação serve como um elo crucial entre a academia e a prática arquitetónica.

Em mais de 100 projetos concluídos durante sua carreira, Doshi também trabalhou em vários empreendimentos habitacionais de baixo custo. Após concluir seu primeiro projeto desse tipo na década de 1950, disse: “parece que eu deveria fazer um juramento e lembrá-lo por toda a minha vida: proporcionar à classe mais baixa habitações adequadas.” O ponto alto desse juramento talvez tenha sido o desenvolvimento da Habitação de Baixa Renda Aranya em Indore. Concluída em 1989, esta rede de casas, pátios e percursos internos oferece habitação para mais de 80.000 pessoas de baixa e média renda, e rendeu a Doshi o Prémio Aga Khan de Arquitetura de 1993-1995.

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