Celebrando Siza

Categorias: Arquitetura

Para comemorar os 80 anos de vida e 60 de trabalho de Siza Vieira, a Ordem dos Arquitectos pediu a colaboradores do arquitecto que escrevessem sobre o que significa trabalhar com o Pritzker 92.

 

Convidamos quatro colaboradores próximos de Siza e um seu cliente a partilharem a sua experiência connosco. Deste convite resultaram cinco textos-cinco olhares que a OA começa hoje a publicar ao ritmo de um por dia até ao próximo sábado.

 

Para esta grande celebração, o primeiro convidado a chegar é o arquitecto Carlos Castanheira. Seguem-se-lhe Roberto Cremascoli (dia 26), Adalberto Dias (dia 27), António Madureira (dia 28) e Nuno Higino (dia 29), cliente e responsável pela construção da Igreja de Stª Maria no Marco de Canaveses.

 

 

COMEÇAR COM AS BRANCAS*

Começamos sempre com as brancas. Ele, o Siza, o Álvaro Siza começa com as brancas.

Nós podemos arrumar o tabuleiro, preparar os espaços e materiais. Até podemos organizar as regras, o calendário, o ritmo, mas as brancas começam primeiro.

Não é regra ou lei. É natural e naturalmente óbvio.

O primeiro passo, quase sempre, é apresentado em forma de esquisso. Às vezes este esquisso é já, quase, o final, o xeque-mate, a obra. Está tudo ali. Só falta trabalhar, jogar.

Outras vezes mostra as marcas da indecisão e da procura, alguma timidez.

Gesto de distração ou tentativa de apropriação do espaço, para, na jogada seguinte, abandonar e tentar outras estratégias, outras jogadas.

Com frequência, este gesto volta ao processo e, apesar de não estar na linha de jogo, volta como método de verificação e de algum controlo ou contenção.

É necessário verificar jogadas para reforçar estratégias. As pretas, nós, jogamos. Avançamos com as nossas peças, de acordo com as regras e outras estratégias que conseguimos fazer valer.

Esforçamo-nos para acompanhar o pensar, dando luta para que o jogo tenha interesse e resultados elevados. O jogador à nossa frente é experiente e joga vários jogos em simultâneo.

Introduzimos jogadas e informação para que o jogo se mantenha e a reação seja imediata, e quase sempre assim é.

Há jogadas que nos parecem claras, lógicas, e nos dão a ilusão de que o jogo está sob controlo. Parece.

Outras são desconcertantes, nada racionais, mas onde se percebe que o jogador gosta do que fez mas não sabe bem porque o fez. Procura.

Experimenta. Acredita no que faz, pois tem curriculum, mas é desconfiado e gosta de arriscar para depois verificar.

Não sabe porque joga assim mas, quase sempre, são jogadas que desconcertam pela elegância.

Não é necessário explicar tudo.

Nós acompanhamos e garantimos que o jogo se mantem vivo, dentro do tempo que o relógio marca, de acordo com as regras.

O jogo, o projeto, é jogado no nosso campo onde temos as condições e os utensílios necessários a uma rápida compreensão.

Quase sempre há vários tabuleiros disponíveis, projetos e jogos em fases ou jogadas mais ou menos avançadas.

Marco o ritmo de acordo com as necessidades e com o avanço do jogo, diga-se do projeto.

As respostas umas vezes são rápidas, outras ficam adiadas para outra sessão.

Há dias em que o jogo se concentra num só tabuleiro, noutras os jogos mais parecem uma jornada simultânea.

Outros há em que o material fica em cima da mesa para ser retomado na próxima vez. Para estudar em casa, num café ou num lugar improvável. Mas vai sempre a jogo. Reinventa o tabuleiro, as peças. Às vezes até tenta inventar as regras. É persistente. É persistente na persistência.

Teimoso, muito, e quase sempre. Mas tem razões para o ser. É necessário acreditar. A teimosia também é método.

Por vezes vem com uma jogada desconcertante que obriga a recomeçar tudo de novo. Desconcertados, tentamos acertar o jogo. Esforçamo-nos. Não.

Afinal é só uma jogada de distração. Temos que nos concentrar no tabuleiro e no jogo desenvolvido.

É imprevisível. Não. É mesmo uma jogada a que temos de prestar toda a atenção para saber como responder.

No xadrez é regra não se falar, no nosso jogo a discussão é constante e o ambiente descontraído.

É normal o acompanhamento vocal: com uma melodia mais ou menos conhecida, muitas vezes velhas glórias, mas sempre divertidas.

Às vezes a cantiga cai na repetição e o tema torna-se aborrecido. Temos que introduzir outra melodia. Os dotes vocais, discutíveis, são muitos pois vão do pop, ao jazz e ao lírico.

A poesia é presença necessária.

Algumas anedotas e outras histórias que, para quem está de fora, poderiam parecer desajustadas também fazem parte do jogo e até lhe introduzem alguma riqueza.

Desconcertados por uma jogada que parece menos ajustada perguntamos: porquê este esquisso, esta proposta, esta jogada?

Desconcertado por ter sido apanhado ‘em falso’ responde: porque eu gosto!

Parece suficiente e é.

Fica claro que o jogo, o xadrez, não é só racional. Há sempre um pouco, por vezes muita, irracionalidade, talvez genialidade, diriam alguns.

A resposta basta, não foi a primeira vez, mas é desconcertante e obriga-nos a rever estratégias e materiais. Mais uma vez. É jogo.

Como sempre, a nova proposta, a desconcertante, é a mais interessante.

Jogada ganhadora.

O jogo prossegue com jogadas ritmadas, marcadas pelo relógio e pelo calendário.

Apetece esticar o jogo mantendo-o infinito, pelo prazer do jogo, da diversão que obriga a muita transpiração e, como se diz, a alguma imaginação.

Não se descansa enquanto o jogo não augura um final com qualidade.

Na verdade, este jogo, ou projeto, passará para outros tabuleiros: nós já jogamos com as brancas; outros intervenientes no processo de obra, jogarão com as pretas.

O xadrez exige as brancas e as pretas. E implica regras que devem ser cumpridas. Com criatividade. Não se pode avançar primeiro com as pretas.

O jogador das brancas é sempre campeão. Mas, mais do que isso, é parceiro e amigo. É Mestre.

Mestre na arte do jogo de projetar a Arquitetura. Já não se joga assim neste acelerado e globalizado planeta. Terá passado de moda?

Joga-se um jogo de cada vez mas como se fosse o único. Talvez o último.

Neste campeonato todos os projetos são iguais mas cada um é decisivo para o título.

Jogar, mesmo sabendo que nunca vamos jogar com as brancas, é um prazer, uma formação contínua.

Muitos jogos se seguirão. Outros tabuleiros nos esperaram.

Não sabemos jogar outro jogo.

 

*citando Eduardo Souto de Moura que usou esta expressão num entrevista a jornalistas ingleses para explicar como é trabalhar/colaborar com Álvaro Siza.

Serralves Abril de 2005

 

In punta di piedi (pezinhos de lã)

 

Álvaro Siza é um “consumista”, alimenta-se e consome tempo.

Compra e gasta tempo, porque tem tempo para tudo e tem tempo para todos.

Na sua arquitetura não existe hierarquia nos espaços, nada é secundário, também as pessoas são todas iguais, estão todas no mesmo plano: Alvar Aalto acreditava numa sociedade sem classes e ele (o Siza) no mundo dos indivíduos sem títulos de doutores ou de senhores doutores. Aprende tudo com todos.

A sua curiosidade tornou-o um vampiro onde o sangue é tudo o que os seus olhos veem.

Aprendi com ele (e passo a citar) a não ter pressa, saber esperar, ter paciência: que remédio!

Andar com pezinhos de lã.

A desfrutar do silêncio.

Que é uma coisa que funciona, também é bonita.

Que a paisagem é tudo o que está no campo visível.

Não ter medo de dizer feio ou bonito (belo).

Que, às vezes, não vale a pena levar demasiado a sério a vida.

Que não existe génio sem treino.

Que um grande campeão quando corre não mostra o esforço porque tudo é natural.

Que o importante é dar continuidade, a qualquer coisa, mas também transformá-la.

Quando há quase 20 anos me licenciei, o Siza escreveu a apresentação da minha tese, que é o meu tesouro. O texto utilizava palavras como: a luta corpo a corpo, capacidade de pensamento sincrético, treino de alta competição, intervenções cirúrgicas, serenidade, densidade, silêncio, combates, esforço, paciência, entusiasmo, reserva, prudência e medo. Mas sobretudo uma frase que me acompanha desde então: A prática da arquitectura deve ser a da Alegria, uma Alegria que possa contaminar os espaços.

Álvaro Siza é um mestre, o meu mestre.

Parabéns!

Roberto Cremascoli

 

 

Que mais poderia eu ter tido?

 

1971. Eram tempos de contestação social generalizada ao Estado velho, apesar da abertura marcelista. Na ESBAP, insistia-se com o Regime Experimental, como proposta de reestruturação do curso de arquitectura, tolerada pelo governo .

Tinha concluído o 1º ano, e no segundo, cedo se configuraram as dificuldades no seu início. O panorama à semelhança do anterior apontava, o que veio a verificar-se, para o arranque no segundo trimestre.

 

A Escola e o café S. Lázaro preenchiam os tempos vazios, mas cheios de campanhas de politização calorosamente defendidas pelos alunos mais velhos; marxistas-leninistas, maoístas, trotskistas, e suas extensões disputavam esta potencial audiência de debutantes, e pouco se falava de arquitectura e de sua disciplina senão nos seus aspectos mais genéricos, e en passant.

 

Havia que equilibrar este tempo vazio de conhecimento disciplinar, mas cheio de consciência política. A oportunidade surgiu num momento de grande pressão no escritório de Siza. Alguém me sugeriu, e lá fui para a conversa inicial – hoje chama-se entrevista. No fim, após as perguntas clássicas – quem és, o que fazes, qual a tua experiência e disponibilidade, mandou-me aparecer de tarde para um teste.

 

Um dos seus colaboradores, deu-me um rascunho a lápis para passar a tinta em papel vegetal de peça, com aparo graphos, uma espécie de tiralinhas profissional. Uma rasteira, acrescida de um segunda dado tratar-se, vim a saber no fim, do desenho de um pormenor de uma esquadria em madeira, à escala 1/1 e 1/20. Quando acabei, Siza e os outros colaboradores, debruçaram-se no desenho procurando o traço que não cruzava, a espessura irregular da linha, a falta de tinta, o tracejado que não o era. Não encontraram.

 

Comecei no dia seguinte, no escritório da R. da Alegria e em partime, regime de trabalho que sempre incomodou o Siza, mas que sempre tolerou. Trabalhava só de tarde, reservando as manhãs e as noites para a escola. Só havia dois estiradores, um para ele, outro na sala de reuniões; tudo o resto eram grandes portas horizontais sobre cavaletes de carpinteiro, como os que aparecem na ceia de Cristo de Leonardo. No topo esquerdo um perfil de alumínio, guia para o T de 120 cm; sobravam 80 cm para colocar toda a panóplia de utensílios, papeis com esquemas e rascunhos, maquetes, e tudo o que interessava para o trabalho, sem escorregar para o chão.

 

Nos primeiros tempos, pus em dia um monte de rascunhos que precisavam de ser acabados. Eram fundamentalmente desenhos de projecto de execução, cortes construtivos e pormenores diversos. Foi o meu primeiro contacto com outro momento e dimensão do projecto – escala e matéria, que naturalmente desconhecia. Tempos de ajuda preciosa para traduzir aqueles traçados que me pareciam ininteligíveis, quase mondriânicos, pacientemente revelados por Siza. Pensa como um construtor – dizia, e perceberás a sequência e a lógica das operações, identifica os elementos da construção, seus planos e limites, olha e regista o desenho das escadas por onde passas, das portas que atravessas, das janelas que abres, do tecto que te protege.

Tudo, começou a fazer sentido e a ser inteligível.

 

Fui de seguida promovido quando entrou um desenhador profissional e comecei a desenvolver os projectos com base nos esquissos que continham quase tudo – a implantação, a imagem e a sua representação, planta e corte, apontamentos perspécticos; mais ainda, a ordem, a disposição e programa, a métrica (sim, os croquis vinham cotados a eixo das paredes). Os esquissos também representavam com algum rigor o traçado regulador do projecto e a sua precisa localização no território.

 

Após uma prévia explicação sobre a informação contida nos esquissos, a transposição para desenho rigoroso a lapis 2H começava a dar corpo e forma ao projecto.

Siza gostava de ter tudo na mesma folha – quase sempre a 1/100 : os limites do terreno para corrigir alinhamentos e cotas de amarração, as plantas e o corte matriz – assim lhe chamava, para testar a escala e o dimensionamento , os alçados para ensaiar as proporções. O projecto parecia um ser vivo, mexia constantemente; corrigia diariamente o projecto, acrescentando ou transformando directamente no desenho, ou trazendo novos esquissos de partes do projecto.

Procurava claramente as continuidades num processo de transformação da forma (a forma nasce de outras formas), evitando rupturas, mesmo que as equacionasse como discurso de negação. As grandes dúvidas eram avaliadas em maquetes, muitas e a diferentes escalas, mais descontraídas ou elaboradas face à resolução do problema.

 

Não obstante os problemas familiares que o preocupavam, eram tempos de grande permanência do Siza no escritório; solicitava e partilhava opiniões, provocava e ouvia os argumentos contra ou a favor, alimentando a discussão sobre o projecto. E exigia que os argumentos e propostas alternativas fossem sempre traduzidos em desenho e em esquisso – a mente pensa através da mão, para além do comentário verbal.

Através do discurso dos outros, encontrava a lógica e coerência do seu próprio discurso. Quando a razão lhe fugia e os fundamentos faltavam, dizia olimpicamente que o Papa gosta – em alusão a uma célebre anedota.

Não dissimulava a obsessão em encontrar o equilíbrio ou a sua regra de ouro, a do projecto; quando não sabia procurava informação, investigava e estudava as experiências dos outros sem esconder – Loos, Aalto, Wright, Corbusier, Peter Oud e tantos outros, mesmo os da sua contemporaneidade ; trazia o livro ou revista e dizia: Adalberto, encontre aí a solução possível e de referência para este problema.

 

Para mim, foram os momentos de revelação da gravidade do acto de projectar, e de um método. Percebi a complexidade desse percurso, a necessidade de conhecer e investigar os problemas, formular hipóteses e testá-las, de encontrar os momentos de coincidência e de sobreposição dos diferentes factos e valores que formam e informam o projecto – como dizia e escreveu; tudo contribuía – o programa, as vontades do cliente e os desejos dele, o território e as referências da envolvente, o material e seus limites, a construção e o seu custo, etc. No final, tudo parecia claro e de uma enorme simplicidade , a descoberta através do desenho.

 

Mas o projecto não se esgotava naquela abrangente e estratégica representação. Continuava-se o aprofundamento do projecto à escala 1/50, na definição do processo construtivo e na escolha dos materiais, dos acabamentos e suas texturas. Percebi que outros intervinham e condicionavam o projecto – o engenheiro das estruturas, o da ventilação, o das águas e esgotos, o da electricidade. Siza ouvia-os atentamente e registava as suas exigências; e tudo o que o projecto não resolvia de maneira natural ou que ele não tivesse já previsto ou equacionado, transformava as resistências e mudanças inevitáveis em razão de ser do projecto.

Sobrava para mim – alterar esta escala de trabalho como as anteriores, e corrigir as plantas, cortes e alçados, e dizia “cresce” quando eu protestava contra esta (aparente) cedência disciplinar.

 

Mal desconfiava eu que este processo de revisão se repetiria mais vezes. Sem fechar ou dar por concluído o desenvolvimento à escala 1/50, Siza orientou-me para a pormenorização do projecto, partilhando o conhecimento grande que tem sobre os materiais, as suas técnicas, limites e potencialidades. As portas, janelas, o rufo, a cobertura, a soleira, as escadas, deixam de ser elementos tipificados e correntes e assumem a sua identidade própria e valor; o seu desenho , detalhe, posição e dimensão são criteriosamente decididos por ele que, como nos outros momentos se cita permanentemente, sem se repetir. E mais um novo retorno às escalas anteriores, para adequação desta nova informação e realidade construtiva ao projecto geral.

 

A noção de que o projecto tinha acabado, engano meu!, apareceu com a elaboração do caderno de encargos.

Com um outro de apoio e guião e passeando pela sala em concentração, ditava-me os artigos (objecto, implantação, obra de pedreiro, de trolha, etc.) que pontualmente eu corrigia quando o material que ele caracterizava não era o referenciado no projecto ou pormenores. How dare You? E lá interrompíamos para uma nova verificação.

 

Quando chegou a oportunidade, fez-me descobrir o mundo da obra e da execução dos trabalhos de construção. Era regra cada colaborador seguir a obra do projecto que tinha desenvolvido.

Enquanto me mandava confirmar a implantação das paredes, localização dos vãos, alinhamentos, cotas, passeava pela construção com o seu caderno de esquissos, fazendo apontamentos perspécticos sobre partes da obra, encontros diversos, escadas, remates. Testava mais uma vez os espaços e confirmava de novo e ao vivo a espacialidade desejada. Que corrigia quando queria, negociando com o empreiteiro – isto não está bem e é preciso demolir, a não ser que se proceda a esta pequena alteração que iremos desenhar.

 

Em 1975 e em pleno PREC, Siza cria um outro escritório exclusivo para o projecto de S.Vitor, no âmbito do programa SAAL, com uma equipe de jovens estudantes de arquitectura da qual eu fazia parte, assim como o Souto de Moura, e que elaboravam trabalhos escolares para aquela zona. Não abdica da sua metodologia de projecto e da construção de um discurso projectual, agora enriquecida por uma activa participação e discussão dos moradores na elaboração dos projectos.

 

Extinto o SAAL e a brigada de S. Vitor, retornei ao histórico atelier na R. da Alegria, reforçando a equipe existente. Tudo funcionava da mesma maneira, com Siza a decidir e tudo a controlar, com a mesma pressão e etapas, apesar do aumento significativo de projectos de grande dimensão e com programas que não os habituais de habitação, agora de serviços e equipamentos.

O serviço militar obrigatório em 1979 termina a minha colaboração permanente, e inicio o meu próprio percurso e a minha actividade liberal numa pequena sala no mesmo edifício.

 

Não foi um corte nem um afastamento definitivo; Siza ao longo de todos os últimos tem continuado a desafiar-me para o acompanhar em outros projectos e concursos, aos quais não tenho resistido.

 

Acompanhá-lo tem sido um prazer e obrigação. Por me ter revelado a mais bela profissão do mundo e a mais antiga (digo eu aos meus alunos), por ter partilhado de forma apaixonante toda a sua arte, saber e conhecimento, o segredo de cozinheiro – saber como fazer quando não se sabe, por me ter transmitido uma noção de ética e responsabilidade profissional, de humildade e rigor.

Por termos criado os dois, uma forte e respeitosa amizade.

 

Adalberto Dias, Junho de 2013

 

 

UMA IMAGINAÇÃO TOTALMENTE LIVRE

UMA CRÍTICA ABSOLUTAMENTE RIGOROSA

António Madureira

Nos finais dos anos cinquenta, coroando mais de uma década de enormes esforços de uns quantos Arquitectos na defesa dos princípios da Arquitectura Moderna contra o Poder que destruíra quase toda uma brilhante geração, empurrada sem remissão para a arquitectura oficial ou para a inactividade, começou timidamente a desenhar-se um movimento novo, visível, não só por algumas obras que se salientavam do pobre panorama geral como, mais ainda, pelas manifestações paralelas que foi possível realizar, como as Exposições Magnas e Extra-Escolares na ESBAP, ou palestras, conferências e sessões de divulgação no âmbito do Sindicato Nacional dos Arquitectos.

 

Adolescente decidido a ser arquitecto, por razões familiares ligado ao meio, tive a possibilidade de, ainda estudante do liceu, assistir deslumbrado a muitas dessas actividades, olhos e ouvidos bem abertos, procurando apanhar tudo. Foi nessa época que conheci quatro habitações em Matosinhos, uma outra na Av. da Boavista e um restaurante em acabamentos na Boa Nova, peças de Arquitectura que começavam a ser polémicas. Recordo bem que, de tantas e boas obras que nessa altura iam surgindo, foram de facto essas as que indiscutivelmente ganharam desde logo o discutível prestígio de ser simultaneamente as melhores, as piores, as mais belas, as mais horrorosas, as mais sérias e as mais ridículas, dependendo do declarante, do auditório e das circunstâncias, com nítido predomínio das opiniões “bem formadas”, do “bom senso”, isto é, irredutivelmente contra.

 

Desde o princípio, creio agora que por snobismo e por espírito de contradição característicos da adolescência, de que, aliás, sempre sofri irremediavelmente, nessa polémica fui sempre a favor. Lembro-me bem do tempo que passei em Matosinhos ou na Boa Nova, olhando, tentando ver.

 

Do arquitecto diziam-se coisas, muitas coisas. Dizia-se por exemplo que era um idiota, que era um génio, um artista, um desportista, que em criança o tinham levado ao santo Padre Cruz na esperança de um milagre, que o Santo Homem tinha aliás feito, que não senhor já não tinha podido fazer nada.

 

Mais tarde, já estudante de Arquitectura, no primeiro atelier em que trabalhei numa conversa com o patrão, benza-o Deus, comecei a compreender. Dizia o homem, pobre imbecil, que só fazia arquitectura assim quem fosse muito ignorante, senão que se visse como ele próprio que tanto sabia de construção, de regulamentos, em suma da profissão nunca arriscaria fazer daquilo porque via logo muito bem no que se ia meter.

 

Na altura não se usava falar de metodologia, palavra então reservada às actividades pedagógicas, designadamente ao ensino liceal não sei porquê, mas foi essa uma das mais importantes descobertas que fiz no campo da metodologia do projecto.

Foi também a mais ingénua, honesta e lapidar justificação da mediocridade em nome da sabedoria que me foi dado ouvir. Devo-lhe isso.

 

Por uma daquelas voltas que a vida dá, quando já tinha decidido que estava farto de ateliers que não me serviam e a que eu também não servia, quando já pensava que a profissão afinal não me interessava, tive notícia que o Siza precisava de alguém que “passasse a tinta” e fui trabalhar para o atelier dele.

 

Desse tempo o que é pessoal é meu e não partilhável, pelo que neste depoimento serão ausentes os aspectos pessoais que necessariamente se criam em muitos anos de trabalho em conjunto. Não há que referir a sua predilecção pela poesia de Fernando Pessoa, se bem que eu esteja ainda agora convencido que, durante as noitadas de trabalho desvairado, ele recitasse trocando versos inteiros (tenho para mim que alguns seriam mesmo inventados), como também não há que falar das suas tão pessoais interpretações de árias de ópera designadamente “Salut demeure chaste et pure” em que, atrevo-me a dizer, desafinava. Não interessa falar da proverbial capacidade de se esquecer das horas, das chaves ou de outra menos importante coisa qualquer, como não há que referir a mais que discutível maneira como conduzia e tratava o carro.

 

Procure-se então o que fazia e ainda faz com que os seus projectos e as suas obras fossem e são diferentes. Talvez haja algo de verdade no comentário invejoso do outro pateta. De facto, há uma atitude inicial que tem alguma coisa a ver com ignorância; é uma atitude de total disponibilidade para ver, para agarrar o que é essencial, sempre como se da primeira vez se tratasse, desconfiando do estabelecido, recusando o óbvio, o que fácil.

Há uma imaginação totalmente livre que avança uma hipótese, resposta formal quase imediata, sempre imprevisível. Nas primeiras ideias, nos primeiros esquissos, já está tudo que é essencial. Sempre.

 

É a fase do trabalho feito fora do atelier, em casa, no café, em qualquer lado, qualquer ambiente, qualquer papel, só mesmo quem é capaz de se esquecer das horas, das chaves ou de qualquer outra coisa, se pode concentrar assim. Absolutamente pessoal, ferozmente individual, esse é o aspecto do seu trabalho que mais tem fascinado os teóricos, na vertigem da busca da explicação do processo. Deixo-lhes, com prazer, a tarefa.

 

Depois é a outra fase, essa no estirador, colectiva, demorada de crítica absolutamente rigorosa, de exploração do potencial das ideias e das formas iniciais, de avanços alegres, e recuos penosos, de noitadas, de fadiga, de entusiasmos e desesperos, até tudo bater certo. São meses de trabalho.

 

Foram anos de vida.

Cinquenta já lá vão…

Um abraço!

António

 

 

DOZE ANOTAÇÕES NOS 80 ANOS DE ÁLVARO SIZA

01 Por mais voltas que lhe demos, a nossa cultura nunca deixará de ser platónica no sentido em que, para nós, conhecer significa recordar-se. E, portanto, toda a vida é um processo de reconstrução. Siza gosta de dizer que, em arquitectura, ninguém inventa nada. É uma outra forma de dizer o mesmo.

 

02 Não sei muito sobre História mas suspeito que nunca, como hoje, se falou tanto na diferença e nunca tudo foi tão igual. Até na arquitectura. Querer obsessivamente ‘marcar a diferença’ representa, em geral, o caminho mais curto para a repetição.

 

03 A diferença entre a boa arquitectura e a má ou assim-assim é que a boa arquitectura copia sem repetir e a ‘outra’ repete ao copiar.

 

04 Tudo começa nos olhos. Siza costuma falar na necessidade de aprender a olhar. E na importância de viajar. A arquitectura educa o olhar e educa-se no olhar. Só quando se olha muito e bem se começa a vislumbrar o essencial. Sempre Platão…

 

05 Recordo-me das visitas de Siza à igreja do Marco durante a construção. Mal chegava, olhava. Percorria a obra, sozinho, e olhava. Às vezes media com as mãos. Depois de olhar, pausadamente, e de medir com as mãos, reunia a equipa: colaboradores do gabinete, técnicos das especialidades, encarregado geral, fornecedores, dono da obra.

 

06 Ao longo do processo, Siza foi-se descosendo: ‘Fui visitar La Tourette’, ‘fui visitar o convento de Barragán’, ‘fui visitar a capela de Vence’, ‘fui visitar uma igreja no sul de Itália’. E quantas outras não terá visitado ao longo do processo e da vida!

 

07 ‘Numa delas – disse-me, mas já não me recordo em qual. Ou se não me disse, sonhei – entrei e ajoelhei-me. Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza.

 

08 Nunca me apercebi se alguma vez, ao entrar na ‘sua’ igreja, caiu de joelhos, por não poder fazer outra coisa. Estou convencido que se o fez, fê-lo discretamente. E se não o fez, foi por modéstia.

 

09 Poucos dias depois da inauguração (ou sagração, como preferem dizer os peso-pesados do sagrado) Siza entrou e começou a percorrer o espaço, como sempre fazia. Acendeu um cigarro. Com o primeiro fumo atravessado na garganta, saiu na direcção da porta e deitou o cigarro fora. ‘Esqueci-me que agora já não se pode fumar aqui!’

 

10 Eu sorri. Não faço ideia do que lhe respondi, se é que respondi alguma coisa. Hoje, ao recordar o episódio, ocorre-me o poema ‘Irene entrando no céu’, de Manuel Bandeira: ‘entra, Irene, você não precisa pedir licença’.

 

11 Siza nunca explicava tudo, o que, não raras vezes, era um grande incómodo porque obrigava a pensar. E não era por não saber. Ou seria. Eu julgo que ele não explicava tudo por respeitar a inteligência das pessoas.

 

12 A virtude do mestre é ditar o silêncio. Ditá-lo como se dita um texto a quem está a aprender a escrever. Com todas as pausas necessárias.

Nuno Higino

Fonte: OASRS

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