Entrevista a Eduardo Souto de Moura

Categorias: Arquitetura

“Jovens podemir para fora sossegados porque aqui não se vai fazer nada”

 

Aconselha os jovens arquitectos lusos a emigrarem, porque não há trabalho no mercado nacional. Vencedor de um Pritkzer, revela que só tem projectos no estrangeiro, mas prefere a cultura portuguesa do ‘desenrasca’.

Como é que os arquitectos portugueses conseguem sobreviver?

Eu acho que não conseguem. Não é agradável dizer isto, principalmen- te à gente nova. O Estado não inves-te porque não pode, os privados porque não lhes emprestam dinheiro e, portanto, não há encomendas. E se não há encomendas, não há arquitectura. O que tenho aconselhado à minha filha e aos meus amigos é que passem uns tempos fora. Antigamente, as pessoas emigravam e, como há 20 mil arquitectos cá, quando regressavam perdiam trabalho. Agora podem ir para fora sossegados, para onde quiserem, porque aqui não se vai fazer nada. Também não acho mal que se passe uma experiência fora, porque a legislação e os métodos de trabalho são diferentes. Em Portugal ainda existe muito individualismo, eu próprio sou assim e é um defeito. Foi assim com os arquitectos com quem trabalhei e sou uma espécie de continuidade desse individualismo, ou egoísmo. Mas a tendência é, cada vez mais, trabalhar-se em equipa. O arquitecto não pode ser especialista, tem de conjugar circunstâncias, organizar equipas e quando faz um hospital, por exemplo, tem de arranjar técnicos de hospitais.”

 

A arquitectura portuguesa está bem representada a nível internacional?

Ter ganho umPritzker pode ser um estímulo para os jovens?

Está muito bem representada lá fora. Já nem quero falar na geração antes da minha, como o Siza, que foi o arquitecto que mais prémios ganhou. Não digo isto por ser amigo dele, mas rebentou todas as escalas possíveis. Depois, existe a minha geração, dos 50 e 60 anos, que veio das escolas de Lisboa ou do Porto, que já está instalada e também ganhou prémios. Mas fico satisfeito, porque muitos de uma nova geração saíram das escolas, emigraram, fizeram estágio, voltaram e começaram logo a fazer obras. Não é normal para um país com 10 milhões de pessoas existir um nível médio tão alto como nos arquitectos portugueses. Daí que sinta uma cer- ta angústia por esta gente, que tem tudo para chegar longe, viver num momento em que o país está com problemas de produção.

 

Tem mais trabalho no estrangeiro ou em Portugal?

Só tenho trabalho lá fora. Não tenho nada em Portugal. Só um projecto possível, a barragem de Foz Tua, que neste momento está suspensa pela UNESCO sem se saber se a obra avança ou não.

 

Sente pena disso?

Gosto muito mais de trabalhar em Portugal, não só porque é cansativo viajar, mas também porque estou mais adaptado à maneira de trabalhar do nosso país. Aqui temos a cultura do desenrasca. Numa emergência, há sempre um carpinteiro que dá a mão ao serralheiro, pega no carro e vai comprar parafusos. E se está aflito porque alguma coisa não corre bem, há o primo do tio que é amigo do vereador. É um meio pequeno, em que todos se conhecem, e ao longo da história fomos obrigados a não ser especialistas ricos. Lá fora as coisas são mais programadas, mais especializadas, mas eu habituei-me a trabalhar com um certo imprevisto, um caos organizado. Depois penso que o resultado não é mau e é muito mais agradável trabalhar assim.

 

Tem esperança de fazer um grande projecto português em breve?

A esperança é a última coisa a morrer. Tenho, mas nos próximos tempos acho que não. Fomos os últimos a parar quando chegou a crise, porque em qualquer projecto o que está por detrás implica muita coisa, não é fácil. Um empreendimento tem os bancos atrás, comprou terrenos, demorou a ser aprovado, envolveu muita gente e, de repente, parou tudo, mas arrastou-se até ao limite possível. Tenho obras a acabar em situação limite, de improviso, porque o crédito acabou e tem de se fazer qualquer coisa.

 

A reabilitação pode ser a grandesaída para os arquitectos?

Poder pode. A reabilitação é mais cara do que a construção nova, mas naturalmente tem de ser feita. Porque se as pessoas não tratam o seu património perdem a memória e a sua identidade própria e desaparece o país. Mas não quer dizer que isso vá acontecer.

Se alguém quer arranjar um prédio antigo e vai ao banco, também não é fácil conseguir empréstimo.

 

Então é de opinião que a reabilitação não vai salvar o sector…

Quer dizer, a construção precisa de dinheiro, seja para reabilitar, fazer campus universitários, fábricas, habitação social ou de luxo, para mover a economia. Os países desenvolvidos têm indústrias. Na Alemanha vendem as Leicas, os Volkswagen, os BMW, e nos países menos desenvolvidos, o barómetro são os sacos de cimento. Pelo número de sacos de cimento mede-se o estado da economia. Por exemplo, na Itália é o número de camiões nas auto-estradas. O que é preciso ganhar é optimismo e ele ganha-se com investimento.

 

O que espera do futuro?

Tenho a sorte de trabalhar fora enquanto puder, e dar umas aulas também fora, e assim aguentar o meu escritório. Mas não sei se aguento, é muito cansativo e é uma actividade que não se resolve por telefone ou por carta, é muito presencial. Mas sou um optimista por natureza.

 

Fonte: Fernanda Pedro piedadepedro@gmail.com

 

Fotografia do arquiteto – Humberto Almendra

 

Alguns projectos do arquitecto Eduardo Souto de Moura:

-Casa das Histórias – Paula Rego – Eduardo Souto de Moura

-Barragem de Foz Tua – Eduardo Souto de Moura

-Estádio Municipal de Braga – Eduardo Souto de Moura

 

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