Fernando Távora: Casa e Quinta da Covilhã em Guimarães classificadas como interesse público

Categorias: Arquitetura

O conjunto da Casa e Quinta da Covilhã, do arquitecto Fernando Távora, foi classificado como monumento de interesse público. Para a FAUP esta classificação reveste-se de um significado especial pelo quanto a casa representa todo um legado, não só de transmissão de conhecimento sobre intervenção, recuperação e restauro, mas também de ética de projeto e da relação entre a obra e os seus habitantes. É também relevante enquanto espaço de memória coletiva da ‘Escola’, pelas vivências que o lugar proporcionou a estudantes e arquitectos, em particular a docentes da FAUP.

Localizada nas margens do rio Selho, no extremo sul da freguesia de Fermentões, em Guimarães, a Quinta da Covilhã é uma propriedade de génese seiscentista, com habitação original datada de meados da centúria, e capela de 1680. A casa foi reformulada em 1705, sendo a última intervenção da responsabilidade do arquitecto Fernando Távora, que nela interveio desde 1963, e especialmente entre a altura em que herdou a casa, entre 1974 e 1988. Considerada uma das obras mais significativas do arquitecto, a sua intervenção, considerada exemplar, tem constituído caso de estudo e investigação.

O conjunto é composto por “uma casa nobre com capela adossada, envolvida por patamares ajardinados e bosque de carvalhos, e articulada com anexos e estruturas de apoio tradicionais, incluindo adega, lagar, alpendre e eira, para além da zona de mata, moinhos de água e campos de cultivo, onde hoje se destaca, sobretudo, a vinha em socalcos”.*

A Quinta da Covilhã conserva-se na posse da família Távora desde a sua fundação, permanecendo, do mesmo modo, como quinta de produção agrícola até à atualidade.

De acordo com a portaria que estabece o estatuto de proteção, “à exemplaridade desta intervenção [de Fernando Távora], e ao valor intrínseco do imóvel e da sua história, vem somar-se a condição que este assume enquanto lugar de memória e testemunho perene do destacado arquiteto da ‘Escola do Porto’, evidenciando uma relação de grande cumplicidade e investimento material e afetivo, patente também na constituição do espólio, de grande valor artístico, que se conserva na casa da Quinta da Covilhã”.

O processo de abertura de procedimento de classificação foi iniciado em 2017 através de requerimento apresentado por uma lista de 35 personalidades com reconhecimento público nas áreas da arquitetura, história, património e cultura, entre os quais os arquitetos Álvaro Siza, Alexandre Alves Costa, Eduardo Souto de Moura.

Arquiteto, professor e ensaísta, Fernando Távora teve uma longa e marcante carreira de docente universitário, intrinsecamente ligada à Universidade, em especial à Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde começou a lecionar, e à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, na qual foi Presidente da sua Comissão Instaladora. Numa fase posterior, esteve também envolvido na génese do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e do curso de Arquitectura da Universidade do Minho, sendo também autor do seu edifício. O acervo documental do arquiteto Fernando Távora está depositado na Fundação Marques da Silva (FIMS).

Em 2013, foi homenageado pela Universidade do Porto como Figura Eminente, num programa coordenado pelo arquitecto e professor Manuel Mendes.

*Portaria n.º 608/2020 de 19 de outubro

 

Eu sabia-a forte e segura, nas suas espessas paredes de granito ou nas suas armações de castanho, mas descobrira-lhe já algumas cicatrizes, fruto de sucessivos crescimentos ou de agravos do tempo que, também a ela, não soube perdoar.
Eu amava a sua pobre riqueza, a sua carreira, o seu portão com o seu muro, o seu terreiro, o seu jardim que outrora fora de buxo, algumas das suas fontes sem água, a sua velha nogueira, a beleza das sua camélias de Fevereiro.

De há muito que nos conhecíamos…

Mas só comecei a conhecê-la melhor quando juntos iniciamos o romance da sua – e nossa – transformação. Havia que tocar-lhe e tocar-lhe foi um acto de amor, longo e lento, persistente e cauteloso, com dúvidas e certezas, foi um processo sinuoso e flexível e não um projecto de estirador, foi um método de homem apaixonado e não de frio tecnocrata, foi um desenho de gesto mais do que um desenho no papel.
Foram, assim, dez anos de muitos longos gestos e de algum pouco papel, dez anos fixando e decidindo com cautela as transformações que ambos – ela e eu – íamos amorosamente aceitando.
Assim cruzámos as nossas vidas. Hoje ela lá está prosseguindo no seu espaço e no seu tempo e o seu desenho aí está escrevendo e recordando a história do nosso romance.
De há muito que nos conhecíamos.
Porém, agora conhecemo-nos melhor e ambos estamos diferentes.

Fernando Távora 
in
 acervo de Fernando Távora na FIMS

 

Imagens
Arquitecto Fernando Távora © Alexandre Alves Costa
Casa da Colvilhã, estudo da planta, 16 de setembro de 1973 © FIMS/FT/0191-MM0001
Casa da Covilhã, em Fermentões, Guimarães . Créditos © CM Guimarães (Arquivo)

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